Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O caviar de Taubaté

4 Comentários

O verão escaldante, além de transpiração, oferece o espetáculo da multiplicação de insetos. Os detestáveis pernilongos, o “siriri” a dançar em torno às lâmpadas e, em alguns lugares, o içá. O Vale do Paraíba tem tradição em aproveitar as fêmeas aladas da saúva, também conhecida como tanajura. O seu corpo arredondado advém do acúmulo de ovos. Chegam a ficar quase como uma bolinha de gude.

As crianças da zona rural tinham o costume de perseguir o içá e comê-lo. É um prazer rural de ascendência indígena. Tão disseminado o hábito, que o jornalista e escritor Caloca Fernandes, no livro “Viagem Gastronômica através do Brasil”, oferece uma receita que considera apetitosa: 4 xícaras de içás, sem as pernas e as asas. Colocar de molho em água salgada durante 30 minutos. Escorrer bem. Numa panela de ferro, derreter 2 colheres de sopa de banha, acrescentar os içás, mexendo sempre, até torrarem. Juntar aos poucos 2 xícaras de farinha de mandioca, mexer bastante para não queimar. Pode acrescentar cebolinha picada, ovos ou linguiça. O resultado é uma farofa substanciosa. Já se os içás forem fritos e batidos no pilão com a farinha, transformam-se em paçoca.

Embora alguns possam estranhar, estrangeiros que percorreram o Brasil como exploradores no passado experimentaram e gostaram. Sérgio Buarque de Holanda, no livro “Caminhos e Fronteiras”, sustenta que o hábito foi estimulado pelos jesuítas para acabar com a saúva. Tanto que em São Paulo, no século XIX, essa iguaria era vendida pelas quitandeiras ao lado de biscoito de polvilho, pé de moleque, cuscuz de bagre ou camarão, pinhão quente e cará cozido. Monteiro Lobato chamava essa comida de “caviar de Taubaté” ou “caviar da gente taubateana”.

E que gosto tem o içá? O viajante francês Saint-Hilaire, que aqui chegou em 1816 e viajou durante 6 anos, comparou-o ao mais delicado dos cremes. Em meados do século XIX, os içás foram enviados aos Estados Unidos envolvidos em chocolate, como comida exótica. Mas aos poucos os hábitos modernos abandonam esse costume, pois crianças e jovens preferem hot-dog ou cheese-burg. É a vitória do chamado progresso, a acabar com o caviar de Taubaté.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “O caviar de Taubaté

  1. Quando era criança, comi muito iça!

  2. AoooooooooooooooootempoBooommmmmm.

  3. Iguaria desaparecida destas bandas. Igualmente desaparecido está o “siriri -Estrada de Ferro, usado para pesca.
    Impressionantemente como aumentaram as especies e o número de formigas, que também gozam de apelidos.
    Na casa de minha mãe tem uma especie apelidada de Ayrton Senna.

  4. Iça…comer bichinhos que são casquinhas sem conteúdo ou carne alguma que possamos enquadrá-los em iguarias, sempre rejeitei, meninas sempre acham tudo nojento, chegando a dar náusea.
    Eu fui uma dessas e sou até hoje.
    Troco minhas refeições por frutas, dentro do limite diário, e aprecio muito os legumes de nossa culinária, qto mais caboclo melhor.
    De criança, me recordo muito bem do iça e sei que garotos de rua caçavam-no mais pelo prazer da aventura e brincadeira, do que pelo sabor do bichinho.
    Este texto, com certeza, deverá ser mais assimilado por vocês meninos de outrora do que com as garotas que sempre foram mais “fresquinhas” diante de exóticos alimentos.

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