Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Compreender a imperfeição

4 Comentários

Nossa profunda arrogância, a conviver com a suprema ignorância, nos leva frequentemente à intolerância. Três verbetes que terminam em rima pobre, assim como a nossa capacidade de enxergar o mundo. O conhecimento pode ser adquirido pelo estudo, pesquisa sistemática e é, portanto, acumulável. Isso não significa sabedoria. O sábio independe da erudição. Ele experimentou, vivenciou situações e assimilou as lições que vale a pena guardar.

Tenho consciência de que me falta muito para reduzir a imensa carga de misérias com a qual todos nascem. Penso, como Zygmunt Bauman: “Nós, seres humanos, somos criaturas imperfeitas, seres finitos pensando na infinitude, mortais tristemente tentados pela eternidade, incompletos sonhando com a completude, seres incertos famintos de certeza. Somos irremediavelmente insuficientes”.

Ter noção da insuficiência já um bom caminho para adquirir humildade. Não a falsa modéstia, que até reafirma nosso orgulho. Mas a convicção inarredável de que a vida é efêmera e frágil. Não vale a pena brigar por qualquer coisa. Tolerância, temperança, paciência, resignação também devem ter lugar em nosso cotidiano.

Busco entender os melindres, o excesso de sensibilidade, os ressentimentos. Para conviver melhor. Para aceitar o próximo na sua diversidade. Assim como ele tanta vez nos aceita, a despeito de nossas deficiências. O mundo seria melhor se todos nos respeitássemos. Não é impossível conviver, nem tentar construir um mundo melhor. Mas o começo está dentro de nós. Ninguém tem a chave, senão o próprio indivíduo. Procuro, constantemente, aprimorar o pouco de bom com que fui premiado e remover o excessivo estoque de defeitos que adquiri ao longo da existência. Nutro a esperança de que, só então, o convívio será algo de mais palatável e prazeroso para quantos residam na nossa esfera de contatos obrigatórios.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 05/03/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Compreender a imperfeição

  1. Que texto maravilhoso! Se encaixou perfeitamente no meu momento de intolerância com algumas pessoas próximas a mim.
    Obrigado pelas palavras! Daniel Moreira

  2. “O dia que o ser humano pensar mais no seu semelhante, e analisar mais a si mesmo usando a célebre frase: “só sei que nada se”i ou “Sei uma coisa: que eu nada sei” , originalmente do latim” “ipse se nihil scire id unum sciat”, o mundo será melhor.

  3. Caro Renato
    Excelente este seu post, parecia-me vê-lo pessoalmente, querendo a todo o custo tornar suave ou mais amena uma indignação que teima em clamar. Mas é difícil, senão impossível, pois vivemos numa época de mudanças, muitas das quais, infelizmente, para pior. Vivemos numa sociedade que não quer ouvir, não quer educar-se, não quer curvar sua cerviz. Vivemos num tempo febril no qual temos de socorrer os mais fracos e buscar socorro para quando também fraquejamos. Mas temos responsabilidades e temos que enfrentar e lutar tanto contra tudo o que é mau, como também contra nossas dificuldades. Perseverar, não esmorecer…
    Caro amigo: somente por Deus, através de Sua Palavra que é Cristo, que ressuscitou, verdadeiramente ressuscitou, Aleluia!
    Desejo-lhe uma Feliz Páscoa!

  4. É vero, excelência, como somos cascudos! podemos ser polidos más em baixo da carapaça ainda estará um homem com todos os seus defeitos e suas qualidades desproporcionais.
    Estou aprendendo a respeitar as diferenças na escola em que nem todos compreendem os diferentes, deficientes e ignorantes.
    Sexta é o dia em que chega o clímax do que vivenciamos na semana e vosso post vem a nos confortar, pois estávamos quase escapando para a intolerância.
    Oscar Wilde disse: Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existem.
    Creio que estamos no grupo que está vivendo, ainda que com ranços existenciais.
    Katherine Hepburn disse: Nunca deixo de ter em mente que o simples fato de existir já é divertido…. Poderíamos mudar dizendo que: Se existir é divertido Viver tem que ser fascinante.
    Vosso texto nos remete à reforma íntima!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s