Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Preciso de algo mais?

3 Comentários

Ainda não saíra da Faculdade de Direito quando li “O Complexo de Portnoy“, de Philip Roth. Ele era aficcionado em sua mãe, tanto que a primeira frase do livro é “Ela estava tão profundamente entranhada em minha consciência, que, no primeiro ano da escola, eu tinha a impressão de que todas as professoras eram minha mãe disfarçada“. Mas ele era também muito ligado ao pai. Tanto que me servi de um texto dele para me despedir publicamente de meu pai, quando ele morreu em janeiro de 1992. Ele contava a experiência de uma longa enfermidade do pai, sua agonia e, finalmente, a partida. E eu perdi meu pai enquanto viajava.

Não havia celular. Quase não cheguei para o enterro. Comparei as duas situações. Philip Roth é um dos maiores escritores do mundo. Escreveu “Adeus Columbus“, aos 27 anos, “Pastoral Americana“, “O Avesso da vida“, “Operação Shylock“, “A Marca Humana“, “O Teatro de Sabbath“, “Casei com um comunista” e “A Grande Novela Americana“. Um total de 31 livros, que ele diz ter encerrado com “Nemesis“, escrito em 2010.

Todos esperam que ele não deixe de escrever. Sua obra é aquilo que Lygia Fagundes Telles chama de “quase memória“, ou, conforme batizou um livro seu, “Invenção e Memória“. Quem escreve deixa seu DNA naquilo que produz, embora possa chamar o produto de ficção ou de romance.

Todo bom leitor já leu ao menos um livro de Philip Roth. Quem não leu, não pode ser considerado bom leitor. Mas poderia começar com a obra de Claudia Roth Pierpont, traduzida por Carlos Malferrari, agora editada pela Companhia das Letras e chamada “Roth Libertado“. Ela é crítica literária, mas contempla a vida inteira de Roth. Inclusive sua vida amorosa com Margaret Williams e com Claire Bloom, que o detonou num livro de memórias.

Todo grande escritor é bombardeado com perguntas não tão inteligentes. Perguntaram-lhe se desejava um Nobel. Ele mostrou as macieiras centenárias de seu jardim em Kent, em Connecticut e retrucou: “Olhe em volta. Preciso de algo mais?“. Por isso é genial. O que um Nobel acrescentaria ao que legou ao mundo? Aos viventes e à posteridade?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Preciso de algo mais?

  1. Brilhante, de fato nem ele nem muitos de nós, precisam de algo mais.
    Algumas personalidades recusaram o premio nobel, e acreditem até Hitler foi indicado para recebê-lo!
    De P. Roht também: ….na realidade tudo é uma ilusão sem qualquer percepção, uma espantosa farsa de incompreensão…..
    Ah os livros, uma primeira leitura é uma viagem, uma releitura e se tem outra visão daquele primeiro panorama.

  2. Maravilhoso, Dr. Nalini ! isso conforta a mim também.
    Obrigado !!!

  3. Não costumo ler romances, apesar de ser acusado de romântico por alguns, mas depois de tão alta recomendação não posso deixar de lê-lo.

    Talvez essa visão de Sartre sobre o Freud, traduzida em filme, explique o dilema com a mãe, ainda que seja questão debatida desde os tempos de Sófocles (Antígona – Édipo Rei):

    https://archive.org/details/Pfilosofia-freud383-4

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