Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Aprende-se a ser bom?

9 Comentários

O tsunami de desânimo que acomete as pessoas de bem diante das reiteradas denúncias de descalabros com o dinheiro do povo é corrosivo do idealismo. Quando os de cima não dão bom exemplo, os de baixo sentem-se desmotivados a perseverar. Isso é mau para o élan nacional.

Por isso é que nos momentos de desalento, a lucidez necessita coragem para redescobrir trilhas de revigoramento dos valores.  Já fomos melhores. A escola pública era um celeiro de civismo. Ensinava-se patriotismo, civilidade, bons modos. Aperfeiçoava-se aquilo que já se aprendia em casa, com os pais responsáveis pelo treino social da prole. A escola do olhar, da admoestação velada ou mesmo da palmada surtiam efeito. Chegava-se à maturidade em seguida a uma juventude consciente do significado do cumprimento do dever.

Hoje essas palavras perderam intensidade. Quem se considera patriota? Quem é que confere relevância ao conceito de “educação moral e cívica”?

Tudo se resume a uma educação séria e consistente. Não escolarização, que há eruditos mal educados. Assim como pessoas que nunca ingressaram numa escola e integram uma elite natural. Nasceram intrinsecamente bons. É possível ensinar alguém a ser bom? A ser generoso, solidário, exercer a fraternidade no dia a dia?

Recorramos a Paulo Freire: “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Se a nossa opção é progressista, se estamos a favor da vida e não da morte, da igualdade e não da injustiça, do direito e não do arbítrio, da convivência com o diferente e não de sua negação, não temos outro caminho senão viver plenamente a nossa opção. Encarná-la diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que fazemos“.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 26/03/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

9 pensamentos sobre “Aprende-se a ser bom?

  1. Olha em meu ponto de vista e até mesmo levando-se em consideração o meu labor, posso francamente dizer que a sociedade desaprendeu a ser bom, desaprendeu a ter bons costumes, desaprendeu não ofender ao direito do semelhante. Mas por outro lado, observe, a sociedade tem uma inclinação a fazer as coisas ruins, não é? Ser bom, honesto, demonstrar caráter, ter princípios, sinceramente em nossos dias é para poucos, os que de fato tem como parâmetro, a índole dos pais e avós.
    Antigamente crianças eram de fato crianças, hoje, não são mais, são adultos precoces, onde os próprios pais incentivam a maldade, a ver coisas das quais não se deve. É fácil ser mau, dá status, pelo que vejo. Ser uma pessoa boa, na cabeça de muitos é para os “caretas”, e não é verdade.
    Ser uma pessoa boa é ser gente, ter admiração e respeito daqueles que o cercam, vale a pena, mesmo que a duras penas…jamais entra em minha mente, ter que ficar maquinando a cometer algo contra outrem, uma vez que meus ensinamentos são de amor ao próximo e ao mesmo tempo ter a certeza de que os olhos de DEUS estão direcionados para você.
    Ser bom é cultivar na essência e no dia a dia o melhor para si e para todos, formando assim uma corrente sem fim de muita fraternidade e solidariedade. Aprender a ser bom, não é fácil, é algo que há de ser realizado todos os dias, mesmo que os erros apareçam. Tem que ter coragem para ser bom, e essa coragem deve ser regada todos os dias, sem medo de ser feliz.
    Os que se dizem “nossos representantes” não são bons exemplos de bondade, caráter e dignidade, isso me envergonha muitíssimo, pois a nossa sociedade está cada dia mais decadente. São poucos, para não dizer raros, as personalidades que gozam de bons antecedentes, quero dizer de boa índole. Deveria ser bem diferente.

  2. Paulo Freire deixou a resposta. Infelizmente, além do descaso lá de cima e que bem poderia contribuir por uma melhoria, há também muita maquiagem/teoria aprendida e repetida em voz alta, mas, pouca praticada em nosso dia a dia. Mas tenho sim esperança! Diariamente vejo-a nos meus (filha, sobrinha e priminhos), bem como em muitos outros exemplos de famílias dedicadas na criação responsável de seus filhos. Vejo a família como base de tudo! Mas… sabemos que todos passam aos seus (filhos) o que têm, ou seja, o que pôde ter de acordo com suas condições vivenciadas, e sobretudo, repassam o que aprenderam com seus (país), e assim por diante… Difícil achar um culpado pela origem de tudo. Mais prático e eficaz será mesmo uma reforma de tudo como está, e a partir de um menor julgamento x maior entendimento seguido de ação. Uma contribuição (ainda que só com um pensamento positivo) em favor de nossa pátria, já que críticas, não são soluções. Maior compreensão através de um olhar indulgente um para com outro, e um agir para frente (ainda que mínimo), pode sim fazer a diferença em nosso dia a dia. E o que falta pra tudo isso? O que Paulo Freire bem colocou: “…Encarná-la diminuindo assim a distância entre o que dizemos e o que fazemos“. Precisamos de ação. Um único curto passo de cada um de nós, trará sim um resultado mais positivo a todos. E eu, super me incluo nesta missão de aprendizado em prol de todos. Não posso me achar vitoriosa tão-somente por aplicar à minha (isso é obrigação pela dádiva que Deus me concedeu de ser mãe), mas sim, tenho que ir além do dever a mim imposto, e, me esforçar mais um bocadinho em aprender a verdadeiramente auxiliar, pondo em prática toda paz e menos condenações aos diferentes, já que nada ajudarão os que nos cercam, nem a evolução como um todo. Textos como seu e falas do saudoso Paulo Freire, nos ajudam a refletir e sobretudo, a não esquecer do quanto fazemos pouco e cobramos muito do Universo. Amei! Obrigada! Um bom dia.

  3. Os três pilares: Educação, Civilidade e Moralidade estão em frangalhos.
    A juventude não lê e não escreve.
    Albert Einstein disse que é mais fácil desintegrar um átomo do que um pre-conceito, podemos colocar na equação a IGNORÂNCIA.
    Aprende-se a ser bom, já deixar de ser ignorante é uma escolha, manter as pessoas na ignorância é nefasto e isso controla o poder.

  4. Caro Renato
    Temos aqui uma pergunta interessante e, ao final, uma reflexão inteiramente correta.
    Penso que aprender-se a ser bom é como um resgate da condição em que fomos criados por Deus: para sermos bons como Ele é Bom. Tornarmo-nos maus foi uma escolha que, entretanto, permite reversão. Acredito que todos retornaremos à bondade com a boa educação pois ninguém dá o que não tem e ninguém tem o que não recebe e mais: ninguém recebe o que não quiser receber.

  5. A sintize de tudo é o Amor. Sem ele nenhum caminho é válido,nehum caminho é o do coraçào. Vamos resgatá-lo dando o exemplo para os que nos cercam.

  6. O ano que se passou, 2014, foram feitos vários debates sobre os 50 anos da ditadura militar de 1964. Vi recentemente uma entrevista: “Mônica Teixeira entrevista o professor Boris Fausto, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Ele fala sobre a influência da concepção ideológica na análise dos fatos da época. Comenta a diferença entre autoritarismo e totalitarismo, da apropriação dos elementos nacionais pelos militares, do medo da ameaça comunista e do argumento usado pelos militares de que o governo Jango era extremamente corrupto.

    1964 é um programa que entrevista historiadores e pesquisadores com o intuito de entender como era o Brasil na década de 1960, quais eram os desafios da sociedade e como ela os enfrentou.”

    Penso que esta entrevista responde em parte a ausência de solidariedade no nosso convívio social. Eu mesmo elaborei um comentário sobre esta entrevista que penso ser pertinente ao assunto que o Presidente expôs acima.

    Se fracassou ou não, a ditadura militar conseguiu sim mudar a mentalidade da geração seguinte a 1964, “geração coca-cola”, quero dizer que as escolas de primeiro e segundo grau formaram cada vez mais indivíduos voltados à anti-política, à anti-militância, pela forte violência que os militares imprimiram para se manterem no poder. Entrar no mérito se eles fracassaram ou não em uma mudança cultural na mentalidade dos mais jovens, eu não sei, mas eu não tenho dúvida que por medo ou por outras razões, o fato é que a partir de 1964 os jovens deram as costas para militância política, em face como já disse, da violência que se vivia nesta época e mais ainda, a partir de 1968. O jovem de antes de 1964 é totalmente diferente do jovem que termina o segundo grau em 1985. Aquele não tinha medo de embates políticos e filosóficos, os nascidos depois estão voltados meramente ao sucesso pessoal, e as questões filosóficas e políticas transformaram-se em verdadeiros tabus, ou relegados aos intelectuais de profissão, infelizmente.

  7. Boa tarde. Por favor peço que leia meu texto, uma carta aberta ao senhor Natalini.
    http://bikeajuda.com.br/quanto-custa-se-manter-vivo/

  8. Pingback: Aprende-se a ser bom? | Blog da Biloka

  9. Conceitos como BOM e MAU são relativos. E, infelizmente, um precisa do outro para sobreviver. O problema não está aí, mas sim na falha de caráter que se acentua a cada investida que o ser humano dá pisando nos outros ou destruindo os sonhos alheios. Em Política esses conceitos somem! Política é a arte do convencimento, das trocas difusas e confusas, da Retórica. Posso ser boa para meus pais e um demônio para meus irmãos, sem nem piscar! E posso ser considerada uma pessoa boa no trabalho, porque consigo agradar a todos, apesar de odiá-los por serem preguiçosos, ignorantes e autoritários.

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