Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Um papa ecológico

As ameaças para a humanidade provindas do maltrato à natureza decorrem da insensatez da única espécie que se considera provida de razão. Até mesmo os mais céticos se convenceram de que as mutações climáticas afetarão profundamente a vida no Planeta. Todavia, predomina o discurso de exagerado antropocentrismo, como se o homem pudesse viver desvinculado de outras formas de vida e como se fosse exterior à natureza.

O Brasil experimentou significativo retrocesso em sua profissão de fé ecológica. Depois de um texto constitucional elogiado por todo o mundo civilizado, começou a marcha-a-ré em todos os sentidos, até mesmo principiológicos. Testemunho manifesto desse atraso a revogação do Código Florestal.

Mas a natureza não ficou órfã. Ainda há pouco, o Cardeal Peter Turkson ressaltou que cuidar da natureza é inseparável do cuidado com os pobres. Afirmou: “Compelidos pelas evidências científicas sobre mudança climática, somos chamados a cuidar da humanidade e respeitar a gramática da natureza como virtudes por seu próprio direito“.

Nascido em Gana, o Cardeal Turkson foi um dos “papáveis” quando da renúncia de Bento XVI e preparou um documento que se transformará em Encíclica de Francisco.

O Papa corajoso, que deixa perplexos os rançosos, que ainda não saíram das catacumbas e preferem um Deus Corregedor em lugar de um Deus-Mãe, reforçará o time dos ecologistas, considerados folclóricos por aqueles que só pensam em extrair do ambiente, de forma inclemente, aquilo que nunca devolvem a ela.

De forma direta como costuma se comunicar, Francisco já chegou a declarar: “Não sei se a atividade humana é a única causa, mas principalmente, em grande parte, é o homem que esbofeteou o rosto da natureza“. Retoma-se a tradição do Gênesis: o Jardim do Éden foi confiado ao homem para guardá-lo e conservá-lo. Francisco faz jus ao Poverello de Assis, santo ecologista, protetor de uma natureza que chamava de “irmã”.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 30/04/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Foto: AP Photo/L'Osservatore Romano

Foto: AP Photo/L’Osservatore Romano


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Patamares de Merton

Estive muito atento aos centenários a serem celebrados neste 2015. Pois em novembro, meu pai faria 100 anos. Faleceu aos 76. A mãe de meu cunhado, José Eduardo Martins, teve mais sorte. Tudo indica fará 100 anos em setembro D.Yolanda Pierrucini Martins, que educou legiões de jundiaienses como professora pública primária.
Mas na lista dos centenários está o Desembargador Young da Costa Manso, meu padrinho na Magistratura e que também foi Presidente do Tribunal de Justiça, além de tantos outros que tentarei reverenciar no decorrer do ano e neste espaço. Hoje vou falar de Thomas Merton, estudante rebelde da Universidade de Columbia, em Nova York, aos 23 convertido à Igreja Católica e, a partir daí, uma referência na escrita monástica e espiritual do século XX.

Tornou-se monge na Abadia Trapista de Nossa Senhora do Gethsemani, em Kentucky. Mas antes já escrevera diários pessoais, romances e poesias. Dentro do claustro escreveu uma autobiografia: “A Montanha dos Sete Patamares”, best-seller mundial desde seu lançamento em 1948. Publicou mais de 30 livros, como “Novas Sementes de Contemplação”, “O Sinal de Jonas”, “Homem Algum é uma Ilha”, “Na Liberdade da Solidão”, “Místicos e Mestres Zen”, “A Via de Chuang Tzu” e “O Diário da Ásia”.

Ele ensina como levar uma vida religiosa autêntica e pessoal em uma sociedade secularizada. A leitura é agradável e evidencia a possibilidade de se viver em paz, cultivando a não-violência, a justiça social e o dialogo permanente com todas as tradições religiosas, projeto que está ao alcance de qualquer pessoa que realmente queira vivenciar um outro status na balbúrdia de uma sociedade sem rumo.

Morreu em 1968, mas sua lição de vida é atualíssima. Quantas pessoas não encontram razão para viver, alimentam o desalento, se desencantam com o próximo e com a existência. Para estas e para aquelas que já encontraram esperança na trajetória rápida e frágil por este Planeta, faz bem reler Thomas Merton. Viveu recluso, mas nada do que se passava no mundo deixou de merecer a sua atenta e serena observação.

Abeberemo-nos dessa fonte e aprendamos com ele a cultivar a paciência e a tolerância, mesmo que isso pareça impossível.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Inimigos

Nós costumamos chamar ‘inimigos do gênero humano‘ aos grandes malfeitores da História, aqueles cujos nomes têm garantida a celebridade nos séculos, manchada embora de infâmia, e mesclada à execração dos pósteros. Mas o mundo está cheio de pequenos ‘inimigos do gênero humano‘, de criminosos natos, que, no círculo mais ou menos estreito das suas relações, têm por vocação e perverso gosto cometer todos os delitos possíveis; fazer sofrer é o seu fim principal na terra; quanto mais fazem sofrer, mais gozam. Em geral vivem e morrem obscuros, salvos os casos relativamente raros em que por circunstâncias extraordinárias se emaranham nos arames farpados do Código Penal, e figuram em processos clamorosos”.

O texto está entre aspas, porque foi escrito por Carlos Magalhães de Azeredo, cujas “Memórias de guerra” acabo de ler. Foi diplomata, nasceu no Rio de Janeiro (7/9/1872), exatamente quando se comemorava o cinquentenário da Independência e morreu em Roma (4/11/1963). Aos 25 anos, era o mais jovem dentre os fundadores da Academia Brasileira de Letras e o último dentre eles a falecer, aos 91 anos de idade.

Passou a maior parte de sua existência no exterior, acompanhou de perto as duas Guerras Mundiais, defendeu os Papas acusados de omissão durante os conflitos e era um atento observador da História e da natureza humana. Essas pessoas por ele descritas são atemporais. Existiram sempre, continuam a existir. São aquelas que não conseguem presumir a boa-fé, se incomodam com o êxito alheio, torcem para que tudo dê errado, seu hobby preferido é a maledicência.

Não podem ser felizes. Ainda contam com privilégios dos quais não podem usufruir a quase totalidade dos contemporâneos, sempre se consideram injustiçados. Merecem mais e mais e mais. O infinito ainda não satisfaria suas pretensões.

Servem ao menos como exemplo negativo. As pessoas satisfeitas consigo mesmas, humildes e conscientes de que a vida é efêmera e frágil, nelas têm o exemplo de como não se deve ser. Estão cumprindo a sua missão de convencer os céticos de que desejar o mal, investir em pensamento negativo, é veneno que se toma, esperando que o outro morra. Em regra, não é isso o que acontece. Quem consome é que se amargura, se angustia, se enreda no negativismo e se infelicita.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Os novos rumos do virtual

O TJSP deu passos gigantescos no mergulho irreversível rumo à informatização integral da Justiça. Até final de 2015, não entrará mais papel no Judiciário paulista. Isso representa um novo patamar na prestação dos serviços de resolução dos conflitos. Há uma luz, ainda tênue, a sinalizar que não precisaremos guardar processos findos, pois os milhões de autos físicos deixarão de ser formados.

Tudo estará guardado na “cloud“, a nuvem com as informações que são a matéria-prima da Justiça. Com a segurança possível. Mas existe segurança absoluta? O essencial é termos em conta o cotejo de custo/benefício para fazer as melhores opções. Prosseguindo na sua senda de abertura à modernização e à inovação, tudo em conjunto com uma transparência que nunca existiu e o chamamento da sociedade que remunera o sistema para participar, efetivamente, o Tribunal de Justiça de São Paulo adota outras corajosas medidas.

Mediante a eficientíssima colaboração da FIPE – Fundação Instituto de Pesquisa Econômica, o TJSP vai proceder a um brainstorm para discutir as opções até o momento feitas na área da informática. Ouvirá todos os envolvidos para a avaliação do que se fez, dos caminhos tomados e elaborará o projeto para o futuro próximo e remoto.

Também ouvirá especialistas de todo o mundo, pois a área da informática/eletrônica é o universo da obsolescência. Comparará as opções da Justiça Paulista com outras de instituições análogas ou não e procurará investir na formação de pessoal especializado, pois a Justiça nunca será a mesma.

No mar de lama em que se envolve o Brasil, é prenúncio de otimismo saber que um ambiente conservador e cobrado como a Justiça tem ânimo para perfilhar novas trilhas, com audácia, coragem e confiança no amanhã.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 23/04/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Depende do uso

Tudo tem ao menos dois lados. Para nós, do universo jurídico, é fácil raciocinar em termos de contraditório. À primeira vista a versão do autor convence. Mas depois de ouvir o réu, ela já não se sustenta. E assim é a vida. Precisamos sempre considerar o outro lado. Ou mesmo “os outros lados”, pois a verdade é poliédrica. Pode ter muitas faces. Lembra a estória dos cinco cegos apalpando o elefante e descrevendo sua sensação tátil.

Estas reflexões vêm a propósito da evidente dependência de quase todos os jovens das bugigangas eletrônicas à disposição. Tablets, i-Phones, celulares de múltiplas funcionalidades, computadores cada vez mais reduzidos em sua dimensão e de crescente serventia, tornaram-se a mania deste início de século. Como vivíamos sem o whatsapp, sem o instagram, sem as mensagens, sem os torpedos e os vídeos encaminhados continuamente e a qualquer hora?

Há quem critique esse apego e comente a servidão incrível de quem não consegue ficar longe de seus aparelhinhos. Há casais jovens ocupando uma mesa e cada qual absorto no seu celular. Crianças se recusam a comer, mas cedem ao apelo das músicas e das estorinhas infantis. O “dia sem celular” não entra na cogitação de grande parte dos viciados. E não há idade para se entregar à eletrônica. Ela ceifa desde os bebês até os da quarta idade…

A facilidade da comunicação on line tem servido para o recrutamento de manifestantes para esse fenômeno que precisa ser redimensionado. Tudo bem que as pessoas devam participar. Mas até que ponto a participação pode interferir na vida da cidade, prejudicar outras pessoas e dilapidar patrimônio público e privado?

Nesse sentido é importante exortar os ajuizados a se servirem dessa tecnologia agnóstica. Pode ser usada em defesa da liberdade e pode ser usada para promover o mal. É importante o seu uso para inibir o extremismo violento. Quais os fatores que fazem alguns jovens a se identificar com grupos violentos? Como afastá-los dessas influências?

Comecemos com mensagens simples: “É errado ser violento! É errado odiar! É errado violar direitos alheios!”. Talvez dê certo.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Rede de maledicência

Ninguém recusa o reconhecimento de que o mundo virtual mudou nossa cultura, nossa conduta e nosso modo de relacionamento. Hoje a informação está on line, instantânea e disponível. Qualquer criança maneja a bugiganga eletrônica de forma desenvolta. Vejo bebês entretidos a assistir filmes e animações, sem o que não aceitam o alimento que a mãe, entre paciente e ansiosa, os obriga a consumir.

É fantástica a possibilidade de conversar com pessoas que estão do outro lado do planeta, vê-las e ouvi-las, atenuar as saudades e verificar que se encontram muito bem, pese embora longe das asas maternas. Também o acesso a todo tipo de dado é mágico. Menciona-se algo ainda desconhecido e em instantes o “Santo Google” esclarece do que se trata. E os aplicativos então? Localizar o melhor trajeto, identificar o vinho que se consome pelo seu pedigree e custo, reconhecer a gravação e saber quem está a cantar e qual o autor da música é um divertimento inteligente.

Mas, – e tudo tem um mas – as redes também servem a um exercício muito em voga: o da maledicência. Tudo aquilo que as pessoas não querem ou não têm coragem de dizer com a franqueza que deveria presidir as relações, é lançado na internet como se fora um segredo. Parece que os autores dessas maldades ignoram que tudo aquilo é replicado, reproduzido, multiplicado e espalhado por incontáveis contatos. Nada mais é sigiloso, tudo ganha divulgação. E assim é que se conhece o caráter de tantos indivíduos, de todas as idades, de todas as origens, de todas as formações.

Se existisse ainda um terrestre capaz de acreditar na visão rousseauniana de que o homem é um “bom selvagem” e que, no estado de natureza, viveria em paz e harmonia, ao ler as listas de discussões logo se convenceria de que a razão está com Hobbes. O homem é o lobo do homem. Com “a melhor das intenções”, a cumprir “dever de lealdade”, o fogo amigo propaga suas versões e estimula os menos afeiçoados à crítica a um protagonismo eficiente. Se houvera fogueiras, quantos não teriam sido levados ao sacrifício, tudo em nome do bem, da pureza de propósitos e do mais saudável dos intuitos?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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É difícil crescer

Carência afetiva é um mal que pode acometer a todos. A formação emocional do ser humano é um processo complexo, que começa na concepção. O filho indesejado, fruto de um momento de sensualidade irrefletida, vai apresentar, durante toda a sua vida, o desconforto da ausência de amor.

É óbvio que a educação e outras estratégias de compensação podem suprir a insuficiência de carinho do primeiro momento. Mas a complexidade da mente impede a elaboração de uma receita única, servível a todas as hipóteses de um déficit afetivo.

Há pessoas nas quais tal fissura vai produzir uma personalidade incompleta e sofredora. Sentir-se-á para sempre injustiçada. Não conseguirá encarar o outro com simpatia. Presumirá a má-fé, mesmo que tenha adquirido cultura universitária na ciência jurídica e aprendido que a boa-fé é que se presume.

Será atormentada por ciúmes. Insegurança que se projetou a partir daquela falha inicial. Não raro, cuidará de destruir relações nas quais o afeto pareça funcionar. Disseminará a intriga, semeará inimizades, criticará os que deram certo, chegará a desfazer lares. O seu triunfo poderá residir na produção de uma criatura sua, um filho ao qual devotará todo o seu tempo e toda a sua atenção, como para vingar-se da humanidade que a deixou à espera de uma afeição verdadeira.

Aliar-se-á às exceções, a outras tragédias mínimas, formando a ala dos injustiçados. O mundo conspira contra essa alma latejante. É-lhe difícil aceitar o êxito alheio e sempre se considerará a mais infeliz das criaturas.

Semeia o mal-estar junto às pessoas que poderiam ser suas parceiras, principalmente se elas estiverem satisfeitas com a sua existência. Poderá transmitir essa herança amarga a uma criança que não tem culpa de seus complexos. E seria tão fácil crescer, aceitando que o milagre da vida tem exuberâncias e vicissitudes. Viver é peregrinar, a única oportunidade que a criatura tem para crescer e se tornar realmente humana.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 16/04/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.