Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

É difícil crescer

4 Comentários

Carência afetiva é um mal que pode acometer a todos. A formação emocional do ser humano é um processo complexo, que começa na concepção. O filho indesejado, fruto de um momento de sensualidade irrefletida, vai apresentar, durante toda a sua vida, o desconforto da ausência de amor.

É óbvio que a educação e outras estratégias de compensação podem suprir a insuficiência de carinho do primeiro momento. Mas a complexidade da mente impede a elaboração de uma receita única, servível a todas as hipóteses de um déficit afetivo.

Há pessoas nas quais tal fissura vai produzir uma personalidade incompleta e sofredora. Sentir-se-á para sempre injustiçada. Não conseguirá encarar o outro com simpatia. Presumirá a má-fé, mesmo que tenha adquirido cultura universitária na ciência jurídica e aprendido que a boa-fé é que se presume.

Será atormentada por ciúmes. Insegurança que se projetou a partir daquela falha inicial. Não raro, cuidará de destruir relações nas quais o afeto pareça funcionar. Disseminará a intriga, semeará inimizades, criticará os que deram certo, chegará a desfazer lares. O seu triunfo poderá residir na produção de uma criatura sua, um filho ao qual devotará todo o seu tempo e toda a sua atenção, como para vingar-se da humanidade que a deixou à espera de uma afeição verdadeira.

Aliar-se-á às exceções, a outras tragédias mínimas, formando a ala dos injustiçados. O mundo conspira contra essa alma latejante. É-lhe difícil aceitar o êxito alheio e sempre se considerará a mais infeliz das criaturas.

Semeia o mal-estar junto às pessoas que poderiam ser suas parceiras, principalmente se elas estiverem satisfeitas com a sua existência. Poderá transmitir essa herança amarga a uma criança que não tem culpa de seus complexos. E seria tão fácil crescer, aceitando que o milagre da vida tem exuberâncias e vicissitudes. Viver é peregrinar, a única oportunidade que a criatura tem para crescer e se tornar realmente humana.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 16/04/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “É difícil crescer

  1. Presidente José Renato Nalini, parabéns pelas judiciosas reflexões.

  2. Prof. Nalini, parabéns pelo artigo. E me comove pq passo por uma situação gravíssima de alienação parental em relação ao meu único amor, meu filho de 11 anos. Eles são as maiores vítimas. Mas o judiciário e o mp poderiam ser mais ativos nesse sentido, o recente avanço ainda mais teórico do que prático foi o resultado de uma forte pressão de segmentos sociais e não uma evolução natural da lei e jurusprudencias.

  3. Parabéns pela reflexão. Por ir além de um julgamento vazio no que não deu certo, A intolerância poderá dar lugar à compreensão quando lembramos de olhar a individualidade que há por trás de cada história, ao invés de julgarmos só o mau resultado do HJ. Seja por amor ao próximo ou por inteligência, merecem sim uma melhor análise, para uma melhor solução e convivência com todos. Só o riso, paz e o amor, merecem revanches. O resto é mais que perda de tempo, e abrir guerras sem causas ou soluções, é perda de vida!

  4. Prof Nalini , parabéns pelo seu artigo ,> Sou professora Coordenadora de Ensino Estadual , convivemos diariamente com alunos fruto do desamor , as vezes agressivos em palavras e atitude. Só o carinho , afeto não é suficiente em alguns casos é necessário uma equipe multidisciplinar . O difícil é que a educação fica um tanto sozinha .

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