Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Rede de maledicência

7 Comentários

Ninguém recusa o reconhecimento de que o mundo virtual mudou nossa cultura, nossa conduta e nosso modo de relacionamento. Hoje a informação está on line, instantânea e disponível. Qualquer criança maneja a bugiganga eletrônica de forma desenvolta. Vejo bebês entretidos a assistir filmes e animações, sem o que não aceitam o alimento que a mãe, entre paciente e ansiosa, os obriga a consumir.

É fantástica a possibilidade de conversar com pessoas que estão do outro lado do planeta, vê-las e ouvi-las, atenuar as saudades e verificar que se encontram muito bem, pese embora longe das asas maternas. Também o acesso a todo tipo de dado é mágico. Menciona-se algo ainda desconhecido e em instantes o “Santo Google” esclarece do que se trata. E os aplicativos então? Localizar o melhor trajeto, identificar o vinho que se consome pelo seu pedigree e custo, reconhecer a gravação e saber quem está a cantar e qual o autor da música é um divertimento inteligente.

Mas, – e tudo tem um mas – as redes também servem a um exercício muito em voga: o da maledicência. Tudo aquilo que as pessoas não querem ou não têm coragem de dizer com a franqueza que deveria presidir as relações, é lançado na internet como se fora um segredo. Parece que os autores dessas maldades ignoram que tudo aquilo é replicado, reproduzido, multiplicado e espalhado por incontáveis contatos. Nada mais é sigiloso, tudo ganha divulgação. E assim é que se conhece o caráter de tantos indivíduos, de todas as idades, de todas as origens, de todas as formações.

Se existisse ainda um terrestre capaz de acreditar na visão rousseauniana de que o homem é um “bom selvagem” e que, no estado de natureza, viveria em paz e harmonia, ao ler as listas de discussões logo se convenceria de que a razão está com Hobbes. O homem é o lobo do homem. Com “a melhor das intenções”, a cumprir “dever de lealdade”, o fogo amigo propaga suas versões e estimula os menos afeiçoados à crítica a um protagonismo eficiente. Se houvera fogueiras, quantos não teriam sido levados ao sacrifício, tudo em nome do bem, da pureza de propósitos e do mais saudável dos intuitos?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

7 pensamentos sobre “Rede de maledicência

  1. Eu sempre digo que não adianta o diabo assoprar onde não tem brasa, e da importância do cuidado conosco, para que não haja cobranças, dívidas por deslizes. Mas, na internet, as escritas geram muitas interpretações que talvez, não a que o autor do texto queria nos passar. Um perigo! O J julgamento já levou e pode levar muitos dos indivíduos à fogueira. Quem os leva, certamente dirá que levou pelo bem da moral e bons costumes. E assim, se o julgado é um monstro, o julgador não fica atrás com sua perversidade. Mania de achar que o pecado alheio é maior que o seu. Pecado é pecado; desajustes que merecem vigilância em prol do desenvolvimento próprio. Cada qual em seu degrau de desenvolvimento e evolução. Mas, alguém já disse que escrever é uma das formas de se ficar nú sem se tirar as véstias. É assim que me sinto por ser espontânea demais. Não tenho medo do que vão pensar, e sim do que eu penso sobre que penso (rs.) – sou critica comigo – e meu parâmetro é Deus, de envergonhá-lO. Sempre digo que adoro espalhar o meu português ruim, mas que a conexão para os textos, é a do coração. Algo que sinto, como senti, e nem sempre o que é ou foi… Cuidado! Mas, de toda sorte, sei pedir desculpas em caso de esquecer a importância do não julgar. Agora pra falar, graças Ao Bom Deus, a timidez me salva! Ainda bem! rs. Mas escrever é uma terapia, como se o cérebro voltasse a ficar alinhado, e o “hd” menos cheios de porcarias… E com a globabalizacão, tudo vire um poste, texto a ser compartilhado.

    • Cara Camila, expressou meu sentimento também, mas a nossa franqueza e sinceridade agride a muitos e não precisamos revidar, continuemos assim, nos expressando livremente em nosso eterno aprendizado.

  2. Excelente texto e sem motivo para confetes, faço minhas as suas palavras. Pois quantas vezes encantei e decepcionei-me com o caráter de alguns indivíduos, de todas as idades, origens e formações neste labirinto de redes!

  3. A presunção da boa-fé demonstra que o amor é inerente ao humano, algo que se constrói. Assim podemos ver nos nossos próprios relacionamentos e nas revoluções. Ainda que hajam discussões, busca-se o bem das partes com as palavras, o reconhecimento de si e das ações, então (`)a(s) mutação(ões). O homem só é o lobo do homem porque o Leviatã assim o faz, até que em paz. Prefiro ver a visão de Hobbes como uma análise de si mesmo, em todos os desvios e acertos de caráter, com as construções (suas) a seu tempo. Certo estou que tendemos sempre a evoluir (senão não haveria razão no Direito). Cada qual em sua busca, os Darwinianos dizem que os sobreviventes são os que se adaptam, mas para esta, a ação reiterada deduz-se nas históricas transformações e o homem, em sua razão (,e) máxima(s,) reconhece os pontos do passado para caminhar para o futuro. Aceita-se o que se é, age para mudar ou o mundo o muda. Kakodaimons e Eudaimons, já tratavam os socráticos e os pitagóricos sobre os “anjos” e, no entanto, mais próximos da razão, Nietzsche e Levi (em minha interpretação) também nos revelam que estar além do bem e do mal é amar o próximo como a si (Jesus). Não são necessárias fogueiras, apenas reconhecimento dos erros e o passo adiante. Aproveitar o que é bom, perdoar, confiar uns nos outros, mas não sermos inertes ou inocentes (Rousseu – Discurso sobre a Origem das Desigualdades). O mártir nos demonstra que há necessidade do exemplo, que nos fundemos nos bons para que não tenham de ocorrer de novo. Precisamos dar passos no mundo real, pois ter iniciativas quanto as redes (vide iniciativas como o #humanizaredes) e não com a matéria (Aristóteles) é viver em um mundo fantasioso, tal qual do mito da caverna (Platão). Essa é uma das ressonâncias mórficas (Galileu) que devemos evitar, pois nada arquiteta-se se não for pelo tangível. Deixar as boas possibilidades de lado é se entregar ao caos, pois desorganizados e inertes, apenas no consumo pelo consumo, somos inviáveis. Compartilhemos as boas ações, pois das más temos certeza que há muitos inconscientes (animais) que realizam sem noção do que se está a formar ou a ser conivente com. Re-educados sejam e, mais duramente, os que sabem. Construir a idéia: Fundamento da existência: Evoluir. Na era da evolução tecnológica com (r)aç(/z)ão de neandertais, precisamos ir avante. A vontade da Constituição é a do coletivo, não realizá-la é penalizar-se como homem. Pelo que deve ser alcançado: Ordem e Progresso, o signo que levamos na testa. O debate sempre é enriquecedor e apreciamos mais quando fundados. Maiores são as ações – estas nos tornam imortais: ações em vida. Estimular uns aos outros, esta é a gentileza e a coragem de reis e dos grandes homens. Quão mais alta a responsabilidade, mais penosa a idéia até que concreta (conhecimento é faca de dois gumes, aproveitamos ou nele nos perdemos). Não vivamos uns para atacar os outros ou para passar em branco, mas sim para exaltar o que realiza(mos), cada qual em seu(s) trabalho(s), do mais simples ao sofisticado, sem ego ou orgulho, pois todos iguais e cheios de amor: Namastê.

  4. Dr. José Renato Nalini, confesso não assimilei seu texto…talvez não esteja nos meus melhores dias.
    Mas há um ponto que devemos esclarecer, as
    redes sociais, até ouso dizer, o Facebook , nada mais é que a nudez do consciente coletivo.
    Antes falavam deste fenômeno como algo satânico, poderes extras sensoriais.
    Mas sempre foi uma capacidade da psique de alguns humanos, em captar pensamentos, escritas, obras e muitas vezes, serem reproduzidas fielmente por outro ser, muito além de continentes separando-
    os
    Posso estar escrevendo em seu Blog, único que atende meu intelecto enérgico, e de repente, captar na linha do consciente coletivo, e adicionar expressões que não faria.
    Tive um postagem unicamente escrita por mim, via android, onde horas depois, ao lê-la, não identificava o escrito com meu eu.
    Sou contraria a tudo que possa ser espiritual, tudo advém da psique, e esta sim sofre alterações, já que ligada a neurotransmissores que mexem com nosso bem estar, refletindo em mil reações positivas ou negativas.
    Vamos tirar crenças deste povo inculto, e ensina-los que os comandos de nosso corpo físico, mental e emocional restam à nós mesmos, basta apenas sermos apresentados aos mesmos.
    Maledicência: ato de dizer mal, maldizente.
    Maldizente: difamador, pessoa que fala mal dos outros.
    Creia Exa., o consciente coletivo está tão carregado de negatividade que totalmente inconscientes, podemos ser difamadores em algum momento.
    Daí estudos apontando o Facebook, espaço de postagem de figuras amplas, tenha levado ao acentuado número de depressões entre jovens que, na pureza da idade, acreditam que a outra tem tudo aquilo que expõe em fotos.

    ★Como eram sadias nossas mentes qdo das antigas conversas na calçada, ao cair da tarde….

  5. O ser humano precisa de muitos freios. Os internos, mais importantes, deveriam ser desenvolvidos desde o início da vida, para torná-lo um ser humano social. Os externos mostram-se necessários para coibir as falhas do interno. Como toda novidade, o mundo da internet ainda precisa caminhar muito para se tornar um ambiente mais saudável, onde as pessoas entendam que existem consequências. Adoro a liberdade que a internet proporciona, onde todos temos espaço para nos manifestarmos. Agora é aguardar que se torne um ambiente mais civilizado e cordial. Já poderia ser se cada um pensasse antes de escrever e dar enter.

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