Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Complexo de vira-lata

4 Comentários

O brasileiro exagera no complexo de vira-lata. Verdade que, ultimamente, não temos muito do que nos orgulhar. Mas há motivos de sobra para agradecermos à Providência termos nascido aqui e não em terras mais turbulentas. A desigualdade é evidente, muita gente vive em estado de indignidade, a maioria é egoísta e insensível. Mas, pelo menos, não temos terremotos como o que atingiu o Nepal, nossa violência ainda está longe daquela do Oriente. O terrorismo não chegou a este Brasil como já atormentou tantos outros Países.

Mas parece que essa mania de se autodepreciar é característica humana, independentemente de nacionalidade. Seria interessante a releitura de “O Defensor – Tipos Variados”, de G.K. Chesterton, o autor de “3 Alqueires e 1 Vaca”, livro no qual o pensador observa a tendência ao choramingo, ao lamento, às lamúrias contínuas, sinal que persegue tanta gente desagradável. Na visão de Chesterton, parece injusto que “a humanidade se ocupasse perpetuamente em chamar de más todas aquelas coisas que foram boas o suficiente para tornar outras coisas melhores, em eternamente chutar a escada pela qual subiu”.

Tudo o que o homem já produziu durante sua jornada pelo Planeta oferece alguma lição. Chesterton confessa haver investigado “os montes de entulho da humanidade” e encontrado “tesouros em todos. Descobri que a humanidade está ocupada, não incidentalmente, mas eterna e sistematicamente, em jogar ouro na sarjeta e diamantes no mar”.

É uma reflexão que todos podemos fazer. A despeito de termos nascido neste hemisfério e não noutro, nesta época e não em era distinta, as limitações naturais não constituem obstáculo a que cresçamos, nos desenvolvamos e atinjamos a perfectibilidade na plenitude possível.

Recusar os benefícios recebidos, nossa vida – verdadeiro milagre – a saúde, dádiva generosa, poder mudar o destino próprio e o daqueles que dependem de nós é prêmio que precisamos agradecer a cada dia que nos é dado permanecer neste plano existencial.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 07/05/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Complexo de vira-lata

  1. Belo e animador artigo.
    Já escrevi em V. página acerca da força do consciente coletivo.
    Podemos até despertamos bem, mas ao ligar a TV, acessar a Internet ou até ligarmos o rádio do carro, todo nosso bem estar cai por terra, a negatividade suga nossa energia, minando-nos.
    Exatamente agora, ao fazer este singelo comentário, na TV passa o Jornal Nacional.
    Todas as notícias são carregadas de negatividade.
    Maior índice desemprego, alimentos mais caros, enfim todas notícias apontavam para o caos me esperando na porta de meu apartamento.
    Essa corrente de notas pessimistas nos levam ao desânimo, minam a vontade de lutar, de crescer em qualidade…
    De repente, tive uma conscientização.
    Eu estou bem em minha vida profissional e familiar, por que devo ficar triste e deprimida com notícias que ouvimos e já vêm com conotação masoquista, já que o ibope carece.
    Minha secretaria residencial tem um padrão de vida satisfatório, filhos estudando, casinha propria…
    Nem tudo está perdido, como nem todas as famílias estão com seus membros desempregados e ou envolvidos em drogas.
    Paremos de pensar com os olhos de outrem, vamos cuidar de nosso próximo, e não deixar de sonhar que, com boa vontade, ética, equilíbrio emocional, teremos tudo para sermos felizes.
    Vamos inverter este tal consciente universal, positividade no ar é o meu desejo.

  2. Brilhante como sempre Dr.!

    Brinco que pessoas assim, me dão preguiça. Evito-as (quando não estou em um dia bom), pois sugam toda minha energia, e ainda saio sem convencê-las do quanto realmente são felizes e nem percebem.

    O imediatismo tem feito pessoas viverem cada vez mais o tal do “piloto automático”. Esses dias ouvi um neuro explicar disso. Do quanto nosso “HD” tem trabalhado e, armazenamos de um tudo ao cérebro. Por vezes nem ele “guenta” deixando de registrar, dada insignificância que demos a algum passo, esquecendo de estar ali quando ali, e não na lua. rs. Pouco verdadeiramente se sentem e no automático, tudo tende a estar cada vez mais egoísta e ingrato a tudo que o Criador diariamente nos oferta.

    Especialistas em absolverem da vida só o que não deu certo, desenvolvem doenças. Pânico, TOC, crises de ansiedades, invejas patológicas por conta das frustrações vivenciadas. E engessados, não conseguem mudar o foco para um recomeço. Não conseguem resignar e usarem de seus erros e contratempos, ao seu favor.

    Lhes Faltam entusiasmo. Vejo jovens, e já tão pessimistas. Quando começam algo (difícil acreditarem no começo), mas quando começam e falham, não recomeçam. Jogam fora seja o que for (projeto profissional, relacionamentos diversos etc.), pois a culpa é do mundo, e não vai dar certo mesmo. Não conseguem admitir falhas próprias, e o quanto sua plantação está prejudicada antes mesmo da do mundo.

    E tudo anda meio descartável, sem perseverança, graças ao temperamento sem tempero, e a ponto de explodir – ou tudo, ou nada! E assim, a vida segue sem a mínima consciência do real motivo de aqui estarem. Ou seja, da oportunidade de desenvolvimento, e aí, a cada passo e não com um único passe de mágica.

    Eu diariamente repito a mim mesma para não me esquecer que nasci no lar que deveria e precisava para o meu desenvolvimento. Que o Criador meu deu uma oportunidade e tenho que aproveitar! Aproveitar os dissabores revertendo-os em experiência, humilde e maturidade à minha alma, e menos “mimimi”, lamentações ou mágoas.

    Tenho fé que tudo será ponte para o meu melhor, e ao invés de tanta perda de tempo e de vida reclamando da minha origem e dos motivos do Criador não ter me feito uma Gisele Bundchen – rica e linda (rs.), sigo na luta para diariamente encontrar o melhor de mim, e dar um “up” em minha história enquanto aqui estiver.

    Quando vejo os pássaros voando, penso: como são livres! Eles vivem sem as preocupações humanas e acham moradia, se alimentam, ou seja, verdadeiramente vivem… Hoje vejo uns que quando não respiram preocupação, vivem a se queixar. Melhor seria se valer deste tempo para construir e reconstruir = aprender e se desenvolver.

    Como critico o pessimismo, prometo e tento ser melhor, mais otimista com os pessimistas. Para que um dia eles se curem dessa cegueira e voltem a enxergar da beleza de uma vida e o quanto a felicidade está em suas mãos. Só depende de nós! Um passo que for à frente será bem vindo. Já que enquanto houver vida, haverá a possibilidade de assistirmos sim algo melhor nesta vida. Só depende de nós!

  3. Sensacional. Merecedor de publicação.

  4. Se comparar o sentimento da maioria dos Brasileiros em relação ao 1º Mundo,
    não estamos bem colocados em ciência, tecnologia , política e educação etc.
    Demos os piores exemplos ao mundo em diplomacia, economia, cidadania e comportamento.
    As agressões que sofremos diariamente e incessantemente pelas ações e inações governamentais, pelos políticos que enriquecem com a desigualdade social com a certeza de que não lutaremos; nem contra e nem a favor, é que permite e fomenta esses abusos que destrói a capacidade de reação e abala a auto estima dos Brasileiros.
    Contrariando Nelson Rodrigues, em complexo de vira-latas, não gostamos de nos colocar nessa situação, pois o sentimento de inferioridade é muito mais profundo e é exaltado erroneamente e tem suas raízes na formação inicial de nosso povo.
    O que precisamos é de uma reforma mais profunda em todos os setores da sociedade.
    A nação está perdendo muito em moralidade e civismo.
    Civilizações mais adiantadas já fizeram revoluções por questões muito menores do que estas que estamos assistindo passivamente nas últimas décadas.
    Um lugar que se usa e se coloca como regra nacional coisas como: jeitinho, vantagem, improviso, pulo, cortar caminho, carteirada, esquema, contabilidade criativa, pedalada….não pode haver seriedade; General De Gaulle, não disse que esse pais não é serio, foi um Brasileiro que disse em 1962 e serve até hoje!

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