Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Ecologista precoce

6 Comentários

Estamos acostumados a dizer que a ecologia é uma questão recente. Não havia consciência ambiental até há poucas décadas. Só na segunda metade do século passado foi que a humanidade se apercebeu do maltrato contínuo em relação à natureza e da exaustão dos recursos naturais.

Mas as pessoas de visão sempre foram sensíveis e tentaram cuidar do ambiente à sua maneira. Já tive oportunidade de mencionar a consciência ecológica de José Bonifácio de Andrada e Silva, tanto em Portugal, como no Brasil. Também vi na obra de Eça de Queiroz, principalmente em “A Cidade e as Serras”, um libelo a favor do campo.

Agora tomo conhecimento da postura de Mário de Alencar, filho de José de Alencar segundo ocupante da Cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras, um ecologista precoce na literatura brasileira.

Moradores da Tijuca, então uma exuberante mostra da hoje destruída Mata Atlântica, o pai já era um fanático pela paisagem. Escreveu para seu amigo Machado de Assis: “Finalmente estava eu na Tijuca… A natureza a colocou a duas léguas da Corte, como um ninho para as almas cansadas de pousar no chão. Aqui tudo é puro e são. O corpo banha-se em águas cristalinas, como o espírito na limpidez desse céu azul. Respira-se à larga, não somente os ares finos que vigoram o sopro da vida, porém aquele hálito celeste do Criador, que bafejou o mundo recém-nascido. Só nos ermos em que não caíram ainda as fezes da civilização, a terra conserva essa divindade de berço. A Tijuca é um escabelo entre o pântano e a nuvem, entre a terra e o céu”.

O filho só poderia ser um entusiasta da nativa beleza carioca. Queria ficar para sempre na Tijuca, reunindo seus amigos: “Passou o dia 30 comigo o nosso Capistrano e almoçamos à sombra da velha jaqueira. Eu pensava com saudade nos outros amigos que eu desejava reunir aqui, para dar-lhes o gozo de uma temperatura de primavera, ao tempo em que lá embaixo ardia a canícula do areal…E seria perfeito o meu isolamento da cidade“.

Cada vez mais utópico sonhar com um locus amoenus, em contraste com o locus horribilis das cidades. Sujas, caóticas, violentas. O Brasil já foi muito melhor!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Mata, Floresta, Tijuca, Rio de Janeiro Imagem: http://www.freeimages.com/

Mata, Floresta, Tijuca, Rio de Janeiro
Imagem: http://www.freeimages.com/

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Ecologista precoce

  1. Caro Nalini, poderia publicar seu artigo no Portal Ambiente Legal? ( http://www.ambientelegal.com.br )
    Forte abraço!
    Antonio Fernando Pinheiro Pedro

  2. Professor embora não fui vosso aluno, tiro daqui sempre um aprendizado.
    Vosso texto me lembrou Olavo Bilac, que escreve um anúncio para um amigo vender um sitio,e que nos remete a observação por outros ângulos e nos faz mudar certos pontos e quebrar paradigmas.
    Sonhar com um lugar aprazível, será sempre possível, o difícil está em conseguir transformar esse Locus Horrendus ou Horribilis em um lugar melhor.
    Acho que foi difícil pinçar alguns ecologistas ou ambientalistas precoces mesmo com toda vossa bagagem literária.
    Como técnico presto serviços vendendo produtos que não tiveram tratamento ambiental adequado, apenas o cumprimento legal., os empreendedores e ou proprietários de imóveis usam cada centímetro permitido no direito da propriedade como se pregava antigamente …estendendo sua propriedade do céu até o inferno…embora o conceito mudou, a cultura geral ainda não.
    Os mecanismos legais, aqui mesmo neste mini-Estado, pelo conceito do Estatuto das Cidades, não conseguem equilibrar o meio ambiente com a função social e econômica da propriedade.
    Sim! o Brasil já foi melhor., excluso a palavra “Muito”
    Talvez porque a informação, a educação não chegava., estávamos espalhados, fazendo a nossa parte., em quanto nossos Governantes….lembrei de Chico Buarque “Vai Passar”…Num tempo, página infeliz de nossa história…..(que se repete hoje em escala exponencial)
    Hoje temos a informação na velocidade da luz,a educação cerceada e não temos recursos financeiros porque eles foram desviados e mal geridos e o pior, foram escancaradamente roubados!
    Ou será que nosso saudosismo de que vivianos num Brasil Muito melhor , era porque estávamos numa zona de conforto e alheios ao que acontecia ao nosso redor?
    Negligenciaram gerações e os custos financeiros e sociais estão sendo acumulados, impossível aceitar e entender essa conta que nos é enviada pelos 27 Governadores somado o DF, 5.570 Prefeitos, 51.819 Vereadores, 1.059 Deputados Estaduais, 513 Deputados Federais e 81 Senadores, 39 Ministros a Presidente e seu Vice.
    A população poderia reeditar inversamente aquela campanha de 50 anos atrás, “Doei ouro para o bem do Brasil” assim: a população daria para eles (parlamentares) uma pulseira de metais reciclados com os dizeres: “Devolvemos um ano de nossos rendimentos parlamentares para o Bem dos Brasileiros” (deve dar uns 20 bilhões de reais)! e destiná-los a educação.
    Como numismata, ainda guardo um daqueles anéis, que me da uma pista da ousadia daquela ministra em bloquear dinheiro e a população não se rebelar.
    Perdoe-me Vossa excelência mais uma vez a minha falta de moderação nos comentários em exercício da liberdade de expressão neste espaço democrático.

  3. A ecologia e biodiversidade sofrem com os dois lados da briga, com os eco chatos de um lado, culpando o progresso, e, do outro lado, fazendeiros, madeireiras e construção civil desmatando de forma desordenada, quando na verdade o bom senso resolveria o problema, temos construções gigantes e áreas totalmente sem natureza que poderíamos encher de unhas de gato e trepadeiras, ambas nascem e vivem muito bem em regiões totalmente sufocadas por asfalto e cimento, e, ecologistas, ao invés de ficar gritando, deveriam encher esses locais destas plantas, que tanto estabilizam a temperatura, como oxigenam o ar, e, na chuva, exalam delicioso cheiro de Natureza.

    E, por outro lado, a lei deve ser clara que em cada construção, edifício ou shopping ou galpão, deve haver uma área grande reservada às árvores e terra, como aconteciam naturalmente em construções, até os anos 70.

    Falando em anos 70, frequentei o litoral norte de São Paulo, antes da construção da Rio-Santos, aquilo era o paraíso na fauna e flora só comparável ao Pantanal. Totalmente destruída pela falta de educação ambiental e a falta de Ferrovias e o endeusamento do automóvel e dos caminhões ao invés da cultura dos trens de carga e dos chiquérrimos trens de turistas que deveriam serem incentivados no Brasil.

    Hoje, sinceramente, acho que já é tarde, pois a Mata Atlântica já está 80% destruída, mas acho que vale a pena ser incentivada as Ferrovias para, talvez, ter algum efeito para o final do século XXI ou XXII.

    Apenas, para terminar o assunto Litoral, vejo, hoje, barbaridades, como em um condomínio que fiquei com câmaras de segurança tentando pegar caçadores de caranguejo e com placas dizendo: “matar caranguejos é crime inafiançável”. Por ironia do destino, na semana anterior a que eu estava, uma Família estava entrando no condomínio, e um assalto tirou a vida de um pai. Tudo foi filmado, o assassino descoberto, e, pasmem, em 24 horas, já estava fora da cadeia. Isso tudo estou falando para mostrar que não existe lógica em nenhum lado.

    Agora, falando da destruição da Mata Atlântica em todo interior do Estado de São Paulo, vemos estradas gigantes, plantações e agora, mais recente, a Cana de Açúcar e o gado foram o golpe de misericórdia na umidade que vinha do interior para a Capital. Tanto que hoje em dia, São Paulo, para não ficar esturricado e mais seco que o sertão do nordeste, temos que ficar rezando para as frentes frias que veem do mar vencerem os imensos bloqueios de seca provocados pelo ar seco e quente que vem do interior.

    E, raramente, o Mar tem vencido a batalha, até os anos 80 tínhamos de cinco a sete frentes frias de chuvas por mês, com duração de três dias cada uma, agora, quando temos uma frente fria em um mês podemos considerar uma vitória, especialmente, entre abril e setembro.

    Que mal do destino nos pregou que estes ilustres escritores, tão belamente lembrados pelo Nobre Ambientalista, não foram ouvidos, verdadeiros futuristas ou visionários, como Julio Verne que previu a ida do homem à lua.

    Se fossemos um pouco mais alfabetizados teríamos feito a Tijuca progredir como era a tendência natural, pelo próprio crescimento do Rio de Janeiro, mas jamais apagar sua floresta e sua beleza nativa, crescendo para o sul do Estado da Guanabara.

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