Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um caos vital

6 Comentários

A mutação contínua é inevitável. Nosso corpo se altera a cada momento. Mal se nasce e se começa a morrer. As células se renovam e acompanhar seu ciclo vital no microscópio evidenciaria espetáculo indescritível.

Por que o medo da mudança? Por que a resistência a ela? A zona de conforto é desconfortável para a lucidez. A releitura de Nietzsche, o provocador, pode ensejar sadia reflexão: “é preciso ter ainda um caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela que dança”. A maior parte do comodismo tem ojeriza ao “caos dentro de si”. Prefere a inércia e a segurança das antigas convicções, às quais o espírito já se amoldou.

O artista possui sensibilidade hábil a conviver com o caos. “Prefiro ser metamorfose ambulante a ter aquela velha certeza sobre tudo”, já se proclamou.

O mundo jurídico vive o desafio de solucionar questões novas à luz das verdades congeladas. Quantos anos passarão antes de nos convencermos da insensatez de distribuição eletrônica de questões idênticas a dezenas de julgadores diferentes? Em nome de uma desejável imparcialidade, faz-se de alguns julgamentos uma rotina, com a substancial reiteração de teses, cuja variação é epidérmica. Pequenas alterações de vocabulário e de estilo. Mas a conclusão é a mesma.

Não parece mais lógico detectar o surgimento de uma controvérsia que pode ser sazonal e, após breve debate, responder por atacado ao questionamento? Quanto se pouparia de tempo, sempre escasso e de dinheiro, mais escasso ainda, se os núcleos temáticos merecessem tratamento homogêneo?

Os esforços levados a efeito nos Tribunais Superiores ainda não produziram o resultado que se anseia, porque há uma demora no enfrentamento. Centenas de hipóteses são afetadas por repercussão geral e o ritmo para decidi-las ainda não coincide com as expectativas da sociedade, aflita por orientação consolidada.

Um universo chamado a auxiliar a população a navegar pela turbulência da pós-modernidade – essa a missão da Justiça – não pode permanecer tranquilo e ignorar que tudo passa. As coisas relativas têm o seu tempo. Não precisam se eternizar.

Adiar o encontro com as exigências contemporâneas é fabricar um deserto de confiabilidade. Voltemos a Nietzsche: “o deserto cresce; ai daquele que oculta desertos“.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Um caos vital

  1. Belíssimo texto. Parabéns Presidente José Renato Nalini.

  2. A adversidade seguramente nos leva a maturidade, más não podemos permanecer lá aguardando o momento de agir.

  3. Mudando de pato para ganso, Vosso colega de trabalho Excelência , de notório saber jurídico, sem sobra e nem sombra de dúvidas está nomeado como preconizado aqui neste blog e comentei que era líquido e certo.
    Causa-me estranheza parte da imprensa achar que o Senado ia produzir outra perola de maldade, atirando nos próprios pés; venceu com larga vantagem.
    Brilhará como poucos no Olimpo, esperamos porém que não nos deixe na escuridão apagando nossos candieiros.

  4. É um misto desanimo, medo do progresso, e uns “do contra” por natureza (pessoas negativas).
    Mas de toda sorte, as críticas nos impulsionam. Sejam as produtivas que nos auxiliam complementando/consertando o projeto inicial. Ou mesmo, aquelas que nada acrescentam, mas ao final, nos perceberemos melhores e bem mais fortes, graças a perseguição daqueles que só dão valor ao resultado positivo.
    Vai na fé do que acredita. Quando tudo estiver melhor do que propôs, será aplaudido e reverenciado, tenho certeza!
    Enquanto isso, força e o Criador te guiando ao melhor a nós! Amém, amém.

  5. Parabéns pelo texto! Fiquei feliz por ter encontrado este blog, cheio de ideias com as quais me identifiquei! Sou sua seguidora doravante!

  6. No caos vital nos aprendemos, desde as primeiras aulas de filosofia, que ele é necessário, assim como seu contraponto, a ordem. A humanidade segue evoluindo entre avanços e retrocessos – como se fosse possível outra forma e não é. Desde Karl Marx, quando se consagrou a dialética, assim ficou estabelecido. Ocorre que entre o Caos e a Ordem, na segunda esquecemos e ocultamos os avanços do desertos, e no Caos, nos esquecemos, e ocultamos os avanços do Positivismo. Ficamos transitando nestes dois extremos, desde nosso nascimento até nossa morte. Na verdade qual a pergunta óbvia a nos indagar? Já que as coisas são assim, relativas, transitórias, o que nos cabe fazer? Esta resposta serve individualmente a cada um, a cada indivíduo, a cada sujeito dono de seu destino, mas não seria de bom alvitre indagar-se haveria uma regra geral para que todos seguissem? Um norte? Uma orientação? O norte que deixo, dentre de minha formação, é a luta à desistência, o amor ao ódio, o respeito à liberdade do próximo ao egoísmo, a honestidade e a humildade à ganância e à mentira, a fé ao ceticismo, o sacrifício e a bondade à violência e à guerra. Como se vê são todas questões do campo da Ética, e, por as serem, elas, em meio à toda esta transitoriedades, sempre estarão permeando o universo do pensamento, e influenciando nas decisões dos indivíduos, e, orientando o ser em sua infinita mutação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s