Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Sociedade superficial

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Nossa era pós-moderna, pós-positivista, pós-dever só não chegou à pós-pobreza. Esta continua presente, seja sob a forma da indigência material, seja travestida de miséria moral. Houve o esvaziamento da esfera pública, o descrédito em relação a toda atuação estatal, a emergência de uma cultura narcisista e egoística. A invisibilidade, paradoxalmente, ocupa cada vez maiores espaços. O outro é objeto da nossa indiferença, muito além e acima, em termos depreciativos, do nosso desprezo.

O que interessa é a busca incessante do próprio interesse. O outro é um problema exclusivamente alheio. Não me afeta. A consecução do conforto e do bem-estar se sobrepõe a qualquer preocupação com o semelhante. As relações refletem o descompromisso. Acabaram as grandes amizades, as ligações consistentes entre pessoas do mesmo tronco familiar, que atravessavam gerações. Hoje tudo é soft, é light, é tênue, é leve.

Experimente-se relatar uma situação calamitosa, seja no plano da intimidade afetiva, seja no terreno das enfermidades. Enquanto houver a atratividade do curioso, do folclórico, do picante, existirá atenção. No momento em que a narrativa se ancorar na melancolia do sofrimento, na miséria, no lastimável, o empenho se esvairá. “Cada um com seus problemas”. “Já carrego a minha cruz”. “Não dou conta nem das minhas vicissitudes, como conseguiria cuidar de flagelos de outrem?”.

Os mortos desaparecem. Saem de cena e desabitam a memória. Poucos os que se recordam deles. “A vida continua”. Somos levados a assumir a rotina, de repente os que deixaram a aventura terrena já não fazem falta. Um e outro ainda reside no coração dos pais, dos filhos, dos irmãos. Menos um pouco na consciência dos viúvos, a comprovar o ditado “viúvo é quem morre”. Esse um dos prismas de uma sociedade que anestesiou os valores, chegou a amputar alguns, tenta ressuscitar outros. Mas tudo muito superficial, epidérmico, periférico. Leve, incolor, inodora e insensata a nossa maneira contemporânea de conviver.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 28/05/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Sociedade superficial

  1. Querido dr Renato Nalini, seu texto tocou-me profundamente. Ao mesmo tempo deu um alivio em meu coração. Pensava que eu fosse alienígena por me entristecer com a artificialidade de coisas tão importantes para a nossa vida como Família, Amigos de coração e diversão que realmente tragam prazer individual, não um lazer consumista obrigatório. Um exemplo bobo: gostávamos de viajar para conhecer pessoas e lugares, sentir cheiro e habitos de um lugar difetente. Se vou para Minas ou Miami, o gostoso e sentir o lugar e relacionar-se com pessoas. Hoje vemos no entanto as pessoas ao voltar destas viagens e eu ansioso pergunto: como foi a viagem? O que fez de gostoso? E a resposta vem robotizada e em série: comprei tudo de última geração. Se quer citam uma praia difetente, um costume diferente. Para não crescer tanto o assunto me sinto um romântico incorrigivel não apenas no sentido carnal mas também no sentido humano.

  2. Verdade! A dor alheia tem sido vista como uma doença contagiosa; aquela que todos correm para não se contaminarem. Óbvio que quando não estamos em um bom dia, e se não pudermos agregarmos uma fala otimista àqueles; temos que ter cuidado. Mas, o cuidado é pela alma aflita; para talvez, não piorar a situação daquela. Agora ouvi-lo, como não? Talvez só o que precise naquele momento.

    Penso que o melhor remédio para cuidar de nossas aflições, é se entregando ao cuidado da dor do mundo. Melhor antidepressivo. Ocupados, não pensamos nas nossas, e certamente perceberemos um irmão com aflições bem mais carentes que as nossas, e ao socorre-lo, somos gratos antecipadamente, já que certamente, o nosso socorro também virá de cima.

    Nunca entendia como conseguem fingir não ver a dor alheia, até que uma amiga psicóloga, uma vez me disse: não é que fingem Camila; eles simplesmente não sentem. E aí, fica fácil passar por eles não verem nada. Não sentem nada. E é Verdade, não?!

    E com tantas campanhas e discursos em prol do bem, decoram a teoria, e vestem a moral, ética, caridade quando conveniente, como se fossem maquiagem, para parecerem mais munitinhos a uns, ou a eles próprios.

    Esses dias levando filhota de trem em um festival – Lolapalloza; ao entrar no trem, me deparei com um casal, e um menino de mais ou menos 9anos, sentado com algumas sacolas. Estava frio, e ele de chinelo, bermuda e regata. Sua carinha era tristonha demais. E eu me retorcendo, e o meu namorado, me reprendendo por olhar, já que me conhece, e me segura, pois tem medo de represálias… Mas, não me aguentei e comecei o papo com o garoto. Lhe mandei um sorriso, e perguntei o seu nome. O Rodrigo, desconfiado, e com uma vozinha brava, respondeu. Perguntei se ele estava triste, e respondeu que sim. A mãe disse que ele estava com dor de cabeça. Perguntei pra onde ia. Ele disse que para casa. Perguntei onde estava antes. Ele disse que no farol vendendo balas. Perguntei se faturou muito. Ele olhando para os pais, respondeu que não e que estava bravo porque queria comer um pedaço de pizza, mas o pai disse, que o dinheiro só dá para o arroz e o leite da irmã. Perguntei o que ele tinha para me vender. Ele disse que tinha acabado os pacotes. E eu: que pena! Mas não vamos deixar de fazer negócio. Pago antecipado a bala, e quando voltarmos a nos ver, você me entrega ela, certo? Ele: mas você mora onde? E se a gente nunca mais se vê ? Eu: vamos, o mundo é grande e ao mesmo tempo pequeno, e o importante agora é a gente comer essa pizza. E ele abriu o sorriso. Dei a ele e pedi a mãe, que o deixasse comprar um pedaço de pizza. Que entendia a dificuldade, mas que ela abrisse uma exceção, já que era meu convidado, mas não podia levá-lo naquele instante. A mãe meio emocionada disse que levaria ele na padaria.

    Saindo dali e olhei pra filha e disse: Hj vc postou no seu instagram, que trabalhou muito para comprar o seu ingresso para este show que lhe custou R$ 480,00, um único dia. E se você não estivesse trabalhando, como antes, e se merecesse, a gente realizaria à sua vontade. Ostentou como se tivesse fazendo muito… Que muitos eram filhinhos de papai… E você era a guerreira. E realmente, admiramos você correr atrás de seu desenvolvimento, e ser ‘gente que faz’, mas… olha o que vimos ali! Trabalhou o dia todo para comprar comida. Ela envergonhada disse: verdade coruja (Meu apelido, rs.)!

    Já o Elias, teceu suas criticas. Disse que os pais são exploradores e que não devia ter dado dinheiro. Eu calma disse: tinha que tentar. 50% de chance dele comer esse pedaço de pizza. Agora se não comer, a ‘esmola’ não é nada. O dinheiro se acaba em segundos. Nem só de pão, vive o homem. Neste caso, nem só de pizza (rs.). Só de olhar para ele e conversar, pôde sim tê-lo feito melhor. Ele até sorriu. Ele mal olhava para os outros. Cabeça baixa. E olhou! Conversou! Quanto aos pais, não podemos julgar.

    Meu pai saiu do sertão de Pernambuco com uma bermuda, camisa estilo volta ao mundo, rs. Meu avô nunca foi explorador. Pai sempre conta a história de que o seu normal, era pés descalços para não gastar os chinelos hawaianas – que ainda não eram às legítimas, rs. E quando ia à cidade, para não passar vergonha no centro, carregava os chinelos na mão pelo caminho (assim não gastava), e quando perto, punha nos pés. Pense? Meu avô não conseguia melhores oportunidades, e aceitou que alguns de seus filhos homens, e ainda menor, viessem para cá tentar a vida! Deu muito certo! Não só dava o básico a ele na época, como aos meus avós. Painho foi faxineiro, zelador até virar empresário. Teve uma cantina italiana, Spago Ristorante na região de Perdizes; teve bar e hoje, tem uma empreiteira há mais de 20 anos e há um ano, fez o de ‘volta pra minha terra’ (rs.), já que precisa ter uma vida mais tranquila. A minha tia, também ‘pé no chão’, já foi, e está hoje gestora do município de meu pai, João Alfredo/Pe. Bom, o trabalho só fez deles melhores. E não vejo o meu saudoso avô como um explorador. Não podemos julgar, embora há… Há de um tudo e mais um pouco por aí.

    Esses dias li por aí algo como: hoje, todos sabem o preço de tudo, mas o valor de nada. Eu agradeço ao meu pai, e minha família que me ensinou passou valores. Sobretudo, a olhar gente como gente. Pobre é gente. Rico é gente. Trato igual. Sem deslumbres ou diminuições. Todos filhos do mesmo Deus, inclusive eu.

    Títulos ou bens, não definem pessoas melhores. Títulos definem um bom profissional, mas não um bom coração e ser humano. Bens, esses são confortos. Bom ter conforto, mas hoje, cada vez mais são usados não para nós, mas para outros. Para impressionar, competir, a famosa éra da ostentação. Melhor que ficassem só na declaração de imposto de renda, e os títulos, arrolados a cada currículo profissional. Rs.

    A sociedade realmente se anestesiou dos valores, chegou a amputar alguns, e tenta ressuscitar outros. E quem sofre com isso tudo? Quem ainda os têm e não abre mão. Quem é sensível e mesmo com tantas contrariedades, injustiças e violências; o coração bom, ainda que agredido, não se revolta, e sim chora por sentir dor. Chora por não entender o motivo de tanta agressão gratuita. Mas o mundo está impessoal mesmo. E isso explica muita coisa! No final, vemos que é nada conosco, e tudo com eles. Conflitos internos, e uso muito a frase: perdoa, ele não sabe o que faz. E realmente, se soubesse, não faria. E nessa hora, um olhar egoísta será bem-vindo, já que a dívida é do agressor, e não nossa. Como Chico Xavier disse: “Fico triste quando alguém me ofende, mas, com certeza, eu ficaria mais triste se fosse eu o ofensor… Magoar alguém é terrível!”

  3. “As pessoas esquecerão o que voce disse, as pessoas esquecerão o que voce fez…
    Mas elas nunca esquecerão….Como voce as fez sentir.

    Chico Xavier.

    • Bom dia Sr. Ariovaldo!

      Verdade! Temos muita responsabilidade em nosso dia a dia, a partir de cada coração que cruzamos em nossa vida.

      Boa semana!
      Que o Criador ilumine os passos do senhor, rumo à vitória de suas tarefas e decisões.
      Abraço,

      • Bom Dia Camila, Obrigado, tire o Sr. apesar de meus 53 sou um jovem que quer ser tratado por voce. Boa semana a voce e aos seus!
        Abraço fraterno.

    • Bom dia Ariovaldo!

      Ok! Coloquei em atendimento aos que meus pais me ensinaram, mas, autorizando, só Ariovaldo! rs.

      Obgda! Excelente terça-feira!
      Igual abraço fraterno.

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