Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Será mesmo virtude?

7 Comentários

Fico às vezes na dúvida se a coerência é uma virtude. Aquela certeza absoluta sobre tudo parece-me algo forçado. O natural é hesitar, ter dúvidas, tatear, tentar, retroceder se for necessário. A segurança permanente parece um refúgio de quem aprendeu a andar nos trilhos e tem pavor de se desviar deles. Afinal, é mais fácil caminhar na senda já aberta, já experimentada e, portanto, conhecida.

A dificuldade em aceitar o ponto de vista alheio não é firmeza, senão intolerância. Aprender com as diferenças é sábio, além de ser humilde. A existência inteira é um aprender incessante. Até a morte nos ensina. Ela gostaria que a aceitássemos como fato natural. E não sabemos enfrentá-la, embora seja a certeza única, a mais democrática das ocorrências, pronta a atingir todos nós. Por isso é que somos chamados “mortais”.

Fico às vezes decepcionado, após a surpresa de verificar que profissionais que têm a obrigação de conhecer e vivenciar o princípio do contraditório, mostram-se indignados quando a “sua” certeza não é a do próximo. Preferem conspirar, procurar apoios, evidenciar o absurdo da postura alheia, a repensar o seu próprio ponto de vista. Afinal, todo ponto de vista é uma vista a partir de um ponto. Será que o deles é sempre o certo e o dos demais sempre errado?

Não parecem felizes os inflexíveis. Ao contrário daqueles que ousam. Em todas as áreas, a ousadia oferece emoções que os “política e absolutamente corretos” não experimentam. Vivem a sua vidinha blindada, amparada pelas certezas inabaláveis, olhando o outro com inexplicável ressentimento. É pecado mortal não pensar igual?

O fenômeno não é novo. Talvez exista desde que o homem foi criado. Com suas misérias e fragilidades. Que o diga o polêmico Gregório de Mattos, o grande intérprete e tradutor cômico-poético das nossas mazelas particulares e sociais, das nossas contradições, enfim.

Ele traduziu o negativo deste Brasil de hipocrisia e maledicência, bem sintetizado em seus versos: “Eu sou aquele que os passados anos/Cantei na minha lira maldizente/Torpezas do Brasil, vícios e enganos”. O que mudou do século XVII ao XXI? Apenas as tecnologias, o avanço da ciência, a rapidez nas comunicações. O material humano continua sofrível, miserável, patético!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

7 pensamentos sobre “Será mesmo virtude?

  1. Dignidade X Indignação

    E se a felicidade é o resultado das minhas ações para tornar a mim e ao outro mais virtuoso? Assim, pode se confundir a felicidade com amor (a si e ao próximo)? E se o mesmo? Então, se o temp(l)o é abstrato, a felicidade (amor) é perpétua(o) para o virtuoso?

    Cansados estamos de nos indignar, precisamos é nos dignificar.

    Se Cristão, não acreditamos na ressurreição da carne? Qual o propósito de nós mesmos senão construir o nosso futuro?

    E se todos os políticos tem sido vaiados quando o reconhecem, que autoridade tem? E se esse ainda sim é bom?

    http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,haddad-e-vaiado-em-musical-na-vila-olimpia-imp-,1698563

    Perdemos valores? Como salvar-nos?

    E os magistrados? Qual seu papel senão equilibrar?

    Não é a necessidade de justiça que forma o Estado? Ele não é o oculto que decide o equilíbrio para que não haja tais despautérios?

    Sinal de que as decisões que tem sido tomadas são incorretas?

    Quando vamos acordar para realidade? Quando nossos poderes já estiverem arruinados (para o que se caminha)?

    Quando criamos um filho, impomos nossa autoridade para que cumpra e se desrespeitamos as nossas próprias regras eles não vêem sentido no cumprimento pelo exemplo. Quando adolescente, se o respeitamos ao longo de sua infante trajetória, nos seguem pois vê(e)m (`)as nossas boas razões (ações) concretizadas. E se não há respeito? Se não há o respeito, há a necessidade do filho no enfrentamento do pai para que este torne-se melhor (aludimos a LUTA PELO DIREITO – Ihering), apenas um ser apático e infeliz que só aceita o que lhe foi imposto ou o violento criminoso. Qual a escolha do pai?

    E quando uma nação (representada pelos poderes (pai) desrespeita as próprias regras? E quando os capitães da nau usurpam nas brechas? o que se torna regra?

    A violência, pela humanidade, é que deve nos solucionar (como proposto pelos conflitantes – excerto de palestra de Ferry) ou a sabedoria (forma como aplicamos a inteligência, através da experiência – inclusive alheia) deve fazê-lo? A inércia ou devaneios o que solucionam?

    Sem sombra de dúvida que a segunda hipótese é a da razão imediata. A primeira sinal de uma grave doença, a terceira abraço voluntário a ela pelo fracassado.

    Qual sanidade há em escolher-se doente? Razão?

    Até quando elogiaremos essas loucuras (Erasmo)?

    O cristão é o que senta à frente ou atrás?

    “Três âncoras deixou Deus ao homem: O amor à Pátria, o amor à liberdade, o amor à verdade. Cara nos é a Pátria, a liberdade, mais cara; mas a verdade, mais cara de tudo.
    Damos a vida pela Pátria. Deixamos a Pátria pela liberdade. Mas à Pátria e à liberdade renunciamos pela verdade. Porque este é o mais santo de todos os amores.
    Os outros são da terra e do tempo. Este vem do céu e vai à eternidade…”
    (Ruy Barbosa)

    E quando se ama o todo?

    A Harmonia é fazer para os outros tudo aquilo que desejamos para nós mesmos. A religião assim ensina. Jamais humilhemos ninguém, busquemos a virtude no outro e a paz reinará nesta bela terra. Se for esse teu objetivo, já és cristão. Se não o for, já não deve fazer parte da eucaristia, da divisão do pão, mesmo que o mundo que Ele construiu seja para você não será esse merecedor de todas as glórias, pois inapto, mas ainda com sua função. É imperioso que enxergue: só o verbo constrói. Fazendo-nos cegos nada fazemos a não ser tapar nossas deficiências com uma peneira. Nos movamos adiante cheios de luz, pois o que há em si é também do anterior (pai, filho e espírito). O que há em ti? O que (não) abraças?

    Se não nos atentarmos e agirmos agora, na justiça já implementada pelos antigos e que demoramos séculos para resolver, corremos sério risco de que a violência se torne regra pelos maus exemplos que os Poderes nos tem oferecido, pois natural que o fraco imite o mais forte, ainda mais quando há necessidade e a consciência do desrespeito. E quando milhares tem sido mandados embora? Esse é o plano do governo, fazer-nos revoltos? Não é seu dever promover nossa paz?

    A indignação é sentimento odioso, pois não há o ato para fazer valer o que se pleiteia. É a inércia consumada e o não manifesto é como sentar a família ao lado de um barril de pólvora e aceitar o pavio aceso.

    Dignificar a si não é também dignificar o outro? No que lhe parece melhor? Indignar-se ou dignificar-se?

    E quando a metafisica encontra o Direito é que entendemos as razões dos Cristos ou seu contrário, dependendo a cada individuo suas escolhas. Do sentimento para o externo (Platão) ou do externo para o sentimento (Aristóteles)?

    Para nós não há diferença.

    Escolhemos pelo bem e pelo amor da vida que é o Direito. Ação. Pedido. Filosofia. Tudo que se complementa.

    Havia prometido a mim mesmo não mais falar e deixar a consciência julgar, mas de que adianta ficar indignado com a demora se não manifestamos.. se não falamos o que sentimos? Deixar o pavio aceso? Sair de perto do barril e abandonar a familia?

    Esses são os infelizes, os que não se conhecem e que incapazes de agir melhor.

    De que adianta esperar se atrasados estamos? E quando os Poderes não tem o Poder de realizar o bem? De que nos servem?

    O que abre a possibilidade para fazer? A humanidade merece mais…

    E por uma sociedade invertida, por escolha de “doutos”, sentimos em tudo ataques.

    Alimentar a falta de cultura e de educação é não acreditar em si.

    E quando alimentamos a injustiça, o que assumimos?

    O que será de nossos filhos e netos?

    E de nós mesmos?

    Nâo é a imortalidade construída nos atos? Continuidade?

    Tártaro ou Olimpo? Está em vossas mãos, pois no purgatório já nos encontramos há tempos. Não bebamos da água do Lete, pois o esquecimento do que se passou é senão retrocesso absoluto, saber que ainda nada sabe e que não conhece a ti mesmo é pena perpétua que só pode ser solvida pela lembrança (livro) e, ainda que inevitável por Cronos, é mais dura se não descobrimos que todos nascemos para fazer o bem uns para os outros e evoluir em conjunto, ainda que hajam entre nós o que escolham as chagas, morrer para nascer de novo em seu próprio caos – baratas -.

    Chegamos a essa conclusão, ainda que não absoluta, tem seu fundamento nas mentes mais brilhantes da história: Felicidade é o resultado das minhas ações para tornar a mim e ao outro mais virtuoso. Se o temp(l)o é abstrato, a felicidade é perpétua para o virtuos, pois ainda que sabedor de sua ignorância dará o máximo de si para solucionar-nos com a finalidade de darmos novos passos adiante: eis o filosofo, juiz de si, imortal.

    Só a verdade libertará essa nação. Amor triplo, pelo(s) Cristo(s) e sem castas, munidos do transporte e das idéias.

    Dignificai-vos. Amai-vos.

    Ordem e progresso. Luta pelo Direito.

    Ame(´)m.

  2. Esse é o legislativo dos sãos? http://g1.globo.com/espirito-santo/noticia/2015/05/restaurantes-do-es-sao-proibidos-de-deixar-sal-em-mesas-partir-de-julho.html

    Nem mais escolha sobre o sal ou água o homem tem?

    • Caríssimo Wellington.
      As vezes me questiono que terra de cegos onde vivemos, cujos habitantes recusam até a cura da visão.
      Sou crítico contundente do Estado e de partes de seus tecnocratas do baixo escalão e principalmente dos políticos de profissão que não servem a nação e que não sabem ou não querem atender o Cidadão com dignidade, respeito e Urbanidade.
      Minha indignação é tão profunda a ponto de plagiar aquele delator do mensalão que disse a um certo par, que aquele…. provocava -lhe ou despertava-lhe os sentimentos mais primitivos…..más ali era um diálogo entre o ruim e o pior ou o sujo falando do mal lavado.
      Aplacado a ira me controlo para não me igualar descendo àquele patamar.
      Ser chato passa a ser virtude também., fazer alguém cumprir a mais elementar das obrigações é preciso um esforço descomunal a ponto de dizer a um servidor: Eu pago seu salário, cumpra sua obrigação! Ou perguntar se ele leu o Estatuto a que ele se obrigou cumprir.
      Como dignificar e reconstruir estes seres?

  3. Tinha lido esse texto, e estava doida para comentar sua perfeição. Mas, iniciei a semana com algumas tristezas, me faltou tempo e cabeça para escrever… mas vamos tentar nesta manhã de feriado aqui SP.

    Mas é uma virtude? Talvez. Não é uma virtude? Talvez também. Certíssimo a dúvida, pois do contrário todo o texto perderia seu sentido.

    Quem sabe o problema viva hoje nesse mundo prático, onde cada vez mais, temos os rótulos para classificando pessoas e consequentemente, condenando-as com sentenças prontas – generalizando, ao invés do estudo individual e mais dedicado a partir de cada circunstância pessoal?

    A coerência pode ser ou não uma virtude. Depende da situação. Haverá casos que não serão mero refúgio, e sim, muito bem-vinda, como a de andar nos trilhos do respeito aos contrários da vida. Ser coerente neste caso, me parece coerente.

    Importante será se respeitar e respeitar a todos. Pouco entendo essa necessidade gratuita de atacar ou diminuir desrespeitando a visão contrário do outro. Em alguns casos, não são totalmente tão opostas assim… desmembro (por ter paciência ao ouvir – o que tem faltado) e encontro bastante pontos positivos dentro daquela totalidade que desprezo. E como julgar a visão alheia? Quem sabe não é tudo um grande equívoco? Ou quem sabe, não são bem esses pontos que denominei como positivos, que o outro vem se amparando esse tempo todo, sem ter uma visão além e que já possuo. Ou, quem sabe ele enxerga o além, algo que ainda não enxerguei, por isso a necessidade de atenção, sobretudo respeito.

    No final enxergaremos razões a todos. Afinal, todos têm lá suas formas de serem felizes e, importante será deixar a presunção de lado; aquela de acharmos que entendemos e sabemos tudo, já que o tudo, é bastante ilimitado…, logo, como conhecer do infinito?

    Sabemos o que queremos pra nós. O que nos serve. O que nos faz bem. E ainda assim, mais ou menos… Vamos aprendendo aos poucos, mas nisso, podemos ousar um pouco. Trata-se de nossa história, e é dela que temos que cuidar, não a do próximo. A nossa história preencherá a nossa vida. A do outro é com outro, e é isso que têm sido difícil muitos entenderem por aí. Vão analisar vidas alheias para verem se acham suas felicidades.

    Menos vaidade, carência afetiva, agressividade ou divisão. Mais compreensão, e menos vaidades. Não é à toa que quando recebo elogio de um amigo; aceito desacreditando, ou melhor, escuto como referência do que ainda vou ser… mas ainda estou na luta! Sei que ainda não sou… São meus amigos. O amor tem dessas coisas. Tipo cego. rs.

    No fds, desabafei escrevendo sobre isso, do quanto a guerra que muitos estão tentando travar é com eles mesmo. Buscam afinidades para não serem contrariados. Se sentem os certos, e só querem pessoas à altura do seu certo em suas vidas. Cada vez há mais há grupos fechados. E eu observo, analiso essa divisão, mas não me excluo. Entro e me apresento com o meu nada seja onde for, e no final, adquirimos humildade, e sobretudo, maturidade!

    Há os que dizem que não querem se contaminar com que não creem, mas, somos adultos, e se seguros de nossas convicções; preenchidos com nossas felicidades; respeitaremos a felicidade do outro, bem como, nos respeitamos.

    No domingo escrevi em forma de desabafo:

    Às vezes percebo pessoas extremamente carentes de um tudo, e que, ao invés de resolverem suas pendências suprindo essas necessidades e adquirindo maior maturidade, não, vão em busca de que o outro preencha-as, o que dificilmente acontecerá.

    Numa única fala amiga da outra pessoa; com um único igual pensar, já acham que encontraram sua alma gêmea (amizade ou namoro), idealizando e por conta de tantas expectativas, se decepcionando ao perceberem que todos os seres são únicos, e por isso, pensarão diferentes em algum momento da vida – embora realmente, tenham algumas afinidades.

    E aí vai… A religião que não é mesma. A escolha musical. Prato preferido etc. Descobertas são feitas, e a partir delas, a pessoa que jurava ter encontrando um alguém que valia a pena se relacionar; por intolerância ao diferente, passa reavalia-la, julgando-a imperfeita demais, não sendo mais digna de sua cia.

    Mas de quem é a culpa/erro de não ter mais união entre todos? Penso que a negligência é de quem idealizou criando tantas expectativas nada maduras, inventando uma perfeição! Isso é relacionar? Me parece que não. Parece viver à procura de um clone – de um alguém igual a si, para não precisar ser contrariado e só reverenciado. Ou ainda, talvez queira um cúmplice, um ser sem opinião, e que concorde com tudo da pessoa!

    É nas diferenças que aprendemos o melhor de nós! Até com os errados, aprendemos muito! Reforçamos o certo, e aprendemos o que não queremos ser, pois vivemos o quanto doloroso foi ser vítima do errado. Sim, o contrário também me fascina! Me misturo. Escuto-o. Respeito, mas sobretudo, aprendo demais!!!

  4. Com toda certeza a coerencia nem sempre e uma virtude, e, cada vez mais tem se afastado de ser uma qualidade para ser um pessimo exemplo de como nao saber dialogar com o proximo. Hoje, talvez, a maior qualidade para um bom dialogo e justamente nao ter ideias prontas, fixas, como bem expressou ao afirmar sobre o pensar politicamente correto. Penso que a essencia do bom dialogo e a criatividade nata que todo ser humano tem de improvisar, e para isso e necessario justamente ser livre de ideias prontas, preso a dogmas inabalaveis, isto gera, sem duvida, uma ideia absolutista do mundo e nos faz nao aceitar que o outro pense diferente de nos.

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