Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Colher de pau

5 Comentários

A culinária ganhou espaço nas salas de aula. Há muitos colégios que investem nessa nova estratégia de aprendizado. Para os educadores, a pedagogia da experiência é saudável. A criança vê a farinha se transformar em pão, bolacha ou bolo. Os legumes se converterem nas especialidades das várias cozinhas. Além de estimular o gosto, trabalha-se com todos os demais sentidos: cores, cheiros, texturas.

Incentiva-se a alimentação saudável, numa Pátria que, de tanto imitar os Estados Unidos, já tem sua infância obesa. Redescobre-se a alegria do trabalho com as mãos, redescobre-se o artefato, pois hoje tudo vem pronto e congelado. Os cuidados com a higiene e a segurança, por obrigatórios, treinam a criança para um desempenho sensato da maturidade.
Além do mais, é um exercício de solidariedade. Cada qual se encarrega de uma tarefa, um ensina para o outro, gestos de cooperação podem se repetir em casa. Pois aquilo que o aluno aprendeu na sala de aula é capaz também de replicar no âmbito doméstico.

Até mesmo o aprendizado matemático vai ganhar reforço. Frações, unidades de medida, calcular o que significa um quarto de xícara, o que são duzentos gramas de um ingrediente, muitas as opções possíveis. É a aritmética aplicada à realidade, não distanciada em fórmulas que não atraem a atenção dos mais inteligentes e dos hiperativos.

A escrita se desenvolve também, porque a receita vai ser transcrita e, com isso, treina-se o idioma. Tudo é muito bom para aproximar a escola de uma vida concreta. Todos sabem que a educação é a vulnerabilidade mais evidente da República brasileira. A integralidade dos nossos problemas recai na inconsistência do projeto educacional. A escola sem atrativos, desalentadora, de mera transmissão de conhecimentos que devem ser memorizados e nem sempre são úteis, é também um dos motivos que afastam a criança e o jovem de um consistente treino para o convívio. Ensinar a cozinhar supera o desânimo que impregna alunado e corpo docente.

Assim se deveria fazer em relação a outros temas: agricultura, marcenaria, noções básicas de eletricidade, consertos dos objetos cotidianos como torneiras, dobradiças, uso de ferramentas e outros. Educar é fazer com que se desenvolva a autonomia. Não é isso o que estamos assistindo. O resultado está no pífio índice obtido pelo Brasil no cotejo com as nações realmente civilizadas.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “Colher de pau

  1. Bração Zérenato. Alunos do Padre Paulo de Sá Gurgel o saudam. Saudades.
    Taturanaviralata

  2. Republicou isso em Roberta Otanie comentado:
    Aqui no Japão já se aprende a cozinhar desde cedo nas escolas. Cozinhar é apenas uma das várias atividades que existem na escola japonesa. Admiro muito a dedicação que existe para ensinar as crianças e os jovens neste país, digno de imitação.

  3. Aqui no Japão já se aprende a cozinhar desde cedo na escola. Cozinhar é apenas uma das várias atividades que existem na escola japonesa. Admiro muito a dedicação que existe para ensinar as crianças e os jovens neste país, digno de imitação.

  4. A arte de Educar.
    Se nossa Nação fosse tão prodigiosa em Educadores como o é na produção de corruptos estaríamos bem perto do Japão por exemplo.
    Legislou-se ambientalmente para as gerações futuras porém negligenciaram a Educação.
    Assim como respondido ontem no Roda Viva o Ilmo Sr. Ministro da Educação continuará com a mesma cartilha.
    ..Nóis pega o pexe.!..

  5. Verdade Dr. Nalini. Perfeito! O supermercados têm de um tudo hoje e, essa variedade, tem deixado as crianças cada vez menos saudável – comem tudo industrializados, e por vezes, nem a caminhada até o mercado fazem para buscar o que querem. A praticidade tem gerado crianças obesas.

    Muito bom escolas e pais estimularem essa ida à cozinha. Além de cozinharem, aqui em casa, ensino arrumarem a baguncinha. Não importa se o pai tem condições de ter domésticas, babás; temos que educar o filho para o mundo. Ensinar o básico. Vejo minhas tias que residem hoje uma em Lugano e a outra Estavayer-le-Lac; elas me contam da educação madura por lá. Eles não têm uma doméstica em casa, tão-somente uma faxineira paga por horas e, as crianças passam aspirador, botam a louça na lavadora, descem com o lixo ou com roupas na lavanderia do prédio. E olha que os estudos por lá é puxado, mas, eles têm suas responsabilidades domésticas. Aqui, sabe Deus o motivo, parece que vê isso como humilhação, pobreza sem fim… e nobreza, é ficar batendo o sininho para o mordomo vir com o que precisam em mãos. Eu não gosto disso. Até pq, não sabemos o dia de amanhã.

    Esses dias li a respeito da motivação daquele crime onde o engenheiro Waldo Wunder, do RJ, que sem coragem em contar para família de sua falência, deu fim a todos em 2003. Ele não queria aceitar de jeito nenhum a ideia de regredir. Pense?! Do que vale tudo isso…? Nem à pobreza chegariam. Mas se sentiu humilhado. Faz um ano que me mudei de um bairro que vivi 23 anos de minha vida e lá, assisti cenas semelhantes no bairro do Paraíso. Morava de frente ao antigo prédio do prefeito, ali na Rua Afonso de Freitas, e como mãe tinha um comércio na rua, ouvia e via homens e mulheres beirando à loucura, pois não aceitavam sair da grife e ir para uma loja magazine. Dando calotes às diaristas, ao invés de erguerem as mangas e fazerem sua própria faxina. Perdendo o imóvel por dívidas de impostos. Condomínios atrasados, mas, conversavam com mãe como se estivessem ainda milionários… até serem cobrados das contas penduradas e não pagas. rs. Os zeladores dos edifícios que comentava à mãe a quem ela poderia fazer fiado ou não. Pense?! E os filhos? Sofrerão mais ainda ao terem que viver a realidade desconhecida. Não foram ensinados.

    Eu fui criada ao modo antigo. Mãe do interior de SP e pai do Nordeste, para eles, bonito era a menina saber cuidar da casa, filhos e marido. rs. Acho que ambos, meninas e meninos devem saber, mas, agradeço a educação. Hoje, morando sem eles a um ano, não passo apuro. Lavo, passo, faxino, cozinho de um tudo… Meus minutos de beleza eu mesma que faço (dificilmente vou a salão). Filhota brinca que sou culpada por desemprego do país, pois roubo o emprego de todo mundo aqui em casa. rs. Mas, não tenho soberba ou me sinto humilhada em fazer de um tudo. Gosto da economia, já que lá se foram 1/3 de minha vida, mas tenho muita disposição ainda, coisa que não sei se terei pelo dois à frente, é melhor cuidar do futuro!

    Agora, falando das escolas, eu tenho sobrinha que é bolsista no Pueri Domus. Fico boba com o padrão aplicado de ensino por eles. A mãe dela é professora de química lá, e além de me contar do ensino de primeira, vejo que eles preparam pessoas mais humanas em todos os sentidos. Esses dias sobrinha veio passar o fds comigo, pois precisava aprender a fazer coxinha para comercializar na escola. Tinha que arrecadar um soma em dinheiro para um projeto social em uma comunidade próxima à escola. Achei lindo e uma boa ideia para irem além do aprender para si, vendendo e arrecadando fundos para algum projeto social. E lamento as escolas públicas não conseguirem dar conta de copiarem esses bons exemplos.

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