Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Desarmar a consciência

4 Comentários

O Brasil da violência é também a República do Estatuto do Desarmamento. À época da edição da lei cujo objetivo era desarmar para reduzir os eventos letais e as lesões causadas por arma de fogo, já se discutia a opção polêmica. Existem os que defendem o porte e o uso de revólveres e similares como instrumento de defesa pessoal. E com boas razões. Há os que são contra as armas. Dentre estes me incluo. Nunca hesitei em afirmar que algo destinado a matar sequer deveria ser produzido. Sei da resistência a essa tese e respeito quem pensa assim.

O que me leva a refletir sobre o assunto é a permanência de problemas que precisam ser enfrentados de maneira mais consistente. Continua-se a matar. A grande maioria dos homicídios é praticada com arma de fogo. Está em vigor o Estatuto do Desarmamento ou não? Como é que estamos cuidando de fazê-lo uma das leis “que pegam”, numa República em que ainda existem leis que “não pegaram”? Será que a intensificação da apreensão de armas não poderia reduzir o número de portadores desses instrumentos mortíferos? Será que a destruição mais rápida das armas apreendidas não diminuiria os furtos ou roubos de grandes quantidades nos depósitos que ainda existem e cujo controle é sempre falível?

São paliativos, que na verdade não eliminam a miserável condição humana de atuar como agente eliminador do semelhante, pelos múltiplos motivos que levam alguém a matar. O melhor seria semear a cultura da pacificação, do convívio harmônico, do respeito pelo próximo. Só que ninguém é detentor da receita de fazer com que as criaturas se reconheçam como seres de igualdade ínsita, identicamente merecedores de tratamento condigno com o status de única espécie racional sobre o planeta. O essencial seria o desarmamento das consciências, para que o primeiro sentimento em relação ao outro fosse o reconhecimento da comum fragilidade de todo e qualquer efêmero peregrino de uma existência que não alcança dez décadas, salvo em raríssimas exceções.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 18/06/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Desarmar a consciência

  1. Presidente José Renato Nalini, parabéns pelo artigo — como sempre retratando reflexões oportunas e inteligentes.

  2. Somos atacados com tanta violência e frequência que indefesos vamos aceitando a escravidão.
    A violência praticada pelo poder mata muito mais do que as armas de fogo.
    Neste momento histórico, não há consciência a ser desarmada e sim CONSCIÊNCIAS a serem despertadas!

  3. Ontem, Obama ao falar do massacre em igreja ocorrida na Carolina do Sul, deixou claro o quanto o controle de armas se faz necessário, já que aquele crime, só foi possível devido ao acesso fácil às armas em seu país. Não é a primeira vez que o presidente do Estados Unidos tem de fazer igual discurso. Não é a primeira vez que assistimos crimes semelhantes por lá. E o que mais me admirou neste último, foi a dupla facilidade ao acesso à arma. Seu pai o presenteou, e o que dizer? Onde vamos parar?! Mas a verdade é que não sou à favor da coragem e rapidez no resultado (por vezes sem volta), que uma arma proporciona ao usuário. Melhor que fosse para proteção ou intimidação (polícia ou bandido), mas hoje, com tantas crises gerando tantos desequilíbrios por aí, seus usuários perderam o respeito por ela, extravasam suas frustrações através do poder que uma arma possui.

  4. Presidente Jose Renato Nalini, é oportuno esse texto e essa reflexão. Estamos avançando rumo ao abismo, que já está muito próximo. O que as políticas públicas fizeram a esse respeito? Quem são os personagens dos discursos inflamados de outrora que não vemos mais? Quem cobrou as promessas de autoridades e
    políticos? Essas pequenas e simples perguntas poderão gerar respostas mais simples ainda.
    ass: Oswaldo – cidadão de sp

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