Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Aposentar é morrer?

6 Comentários

O Brasil tende a ser uma República de aposentados. Pessoas de todas as idades se aposentam. Um paradoxo é o de que os poucos que não gostariam de se aposentar são compulsoriamente desligados do serviço público.
Mas não se estanca a contínua defecção daqueles que, mesmo tendo idade e condições físicas e mentais, preferem partir para o chamado “ócio com dignidade”.

Mas a vida do aposentado não é aquela maravilha. Uma pesquisa do IBGE realizada em 2013 constatou que 46% dos beneficiários do INSS dependem de parentes para custear suas despesas pessoais.

25% são obrigados a exercer alguma outra atividade para complementar sua renda.

28% sobrevivem de caridade. Qual a percentagem de quem consegue se manter na mesma condição de quando se encontrava na ativa? Somente 1%. Isso mesmo: um por cento. Um em cada cem aposentados consegue subsistir com os proventos da aposentadoria.

Isso mostra quão vulnerável é o sistema previdenciário no Brasil. Um sistema deficitário, pois é crescente o número dos que já não trabalham e reduzido o número dos que contribuem para realimentar a Previdência.

Nutri a esperança de que a chamada “compulsória” cederia ante argumentos econômicos. Um dia chegará e não haverá dinheiro para pagar os proventos e as pensões. Mas a irracionalidade atende ao reclamo dos jovens, que acreditam continuar moços para sempre.

A compulsória, também chamada “expulsória“, é objeto de escárnio. Tanto que a tentativa de se prolongar a vida ativa do funcionário público é chamada “PEC da bengala”.

Diante desse quadro, resta a todos se preparar para a aposentadoria. Existe até um programa que tem esse nome: PPA – Preparação Para Aposentadoria. Ele começa com educação financeira. A aposentadoria deve ser sustentável. Deixar o trabalho é o momento que reclama visão real do futuro.

Fala-se em depressão pós-aposentadoria, porque há pessoas que não se prepararam. Embora se tente propagar que “há vida depois da aposentadoria”, a realidade mostra que muitos se sentem perdidos.

A depressão é uma doença grave. Aposentar-se não precisa significar uma abreviação para a morte. Pode ser apenas uma outra página existencial. Desde que saibamos enfrentar o “day after”.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Aposentar é morrer?

  1. Realmente, Presidente José Renato, tudo que o senhor disse é a pura verdade.

  2. Aposentar é morrer? Aposentar é findar uma vida de labor que lhe agradava, porém estressava tbem.
    O acordar cedo, pegar a condução para se dirigir ao trabalho onde encontrava pessoas e colegas agradáveis e outros nem tanto.
    Tínhamos que dar conta de “nosso” serviço, pois “apenas nós” sabíamos executar tão bem.
    É exatamente aí que mora o perigo.
    Não terei mais um trabalho à dar conta em X tempo.
    Entrei para a fila dos sem obrigações…e daí a alguns passos da INUTILIDADE.
    E, não venham com argumentos infantis e chatos, de que posso usar minha inteligência, meu viver em filantropias…
    Eu nasci para ajudar, pouco importa se detonei-me debruçando sobre familiares enfermos, pinçando suas dores físicas e psíquicas.
    Foi qdo eu e mais um milhão de pessoas, descobrimos os esportes, exercícios físicos inteligentes e voltamos a ter nosso trabalho à mesa e que só eu posso executa-lo.
    Com corpo ativo, saudável, a mente resta serotonizada…rs…e assim voltamos a atuar em outras frentes de trabalho que nos engrandecem.
    Que este comentário sirva de norte aos ex aposentados,hoje em “síndrome da inutilidade”

  3. Nunca achei que esperar fosse dor tão lacerante. Sempre tive a paciência como virtude, mas e quando esta se torna Tortura psicológica? Imagine para o cidadão que depende daquilo para a vida… Ou que briga pelo que batalhou toda a vida? Processos que duram 10 ou 15 anos para serem solvidos ante burocracia. Bens dilapidados pelos safados… Ficam para filhos e netos… Funcionários públicos não pagos pelo Direito que deveria lhes assistir, outro exemplo. Não consigo compreender: Quando a justiça é injusta consigo mesma, que valor tem? Vamos fazendo outras coisas, com as crenças abalroadas “day after day”. Um monte de falácias de técnicos, atécnicos, que deixam a humanidade de lado, sendo máquinas ao invés de homens, quando era para se defender a ciência, A Maior das sociais (naturais, emocionais) e humanas (razão). Esperando, esperando, esperando e nada acontece… O ministro Joaquim, que é um grande falastrão, com todo respeito, nos decepcionou. Na hora de tomar as decisões que importavam (MI 6389 – IGF, principalmente sobre Igrejas, Bancos e grande mídia), “afinou”, passou a bola para outro, aposentou, e, pela demora ante os recentes debates do Senado – que já duram 27 anos, sabemos de quem defendem os interesses. O mais experiente (MI 6499), diz ter pena da Dilma, quando se tem a chave nas mãos para solução. E alguns apenas fingem esquecer em acordos simbólicos. O magistrado, quando tem o que se lutou a uma vida inteira para conseguir, passa a outro a tocha… Assim aconteceu a 2000 anos e se vivermos nisso, de passarmos a tocha, nada nunca se concretizará. O “day after” só vem quando chega, enquanto isso, podemos planejá-lo, mas não sabemos como vamos encará-lo até que vivido e se com as nossas experiências seremos os mesmos: precisamos fazer a que fomos designados, HOJE. Da vida aprendi que só podemos saber como vamos reagir a algo quando este algo acontece ou não acontece. Empirismo, na busca do máximo e quando for o mínimo, vemos que devemos trocar os valores, pois a regra da sobrevivência é do mais adaptado, ainda mais quando tentam nos passar a perna os queridos pelas (des)ilusões do justo. O que devemos nos tornar? Retornar ao animal ou ir avante?

    Também seremos a maioria idosos e por isso precisamos nos preparar: http://www.brasilescola.com/geografia/envelhecimento-populacional.htm

    Aposenta-se aquele que não gosta do que faz ou aquele que deixou de ter coragem para os trabalhos? (Des)ilude-se? Sempre pode voltar a conciliar ou realizar outros trabalhos (exercitar a arte, p.e.), hoje, como fazem alguns dos grandes doutos, na busca da justiça e da beleza (equilíbrio) até o fim, lhes dando motivo para vida longa. Aos que apenas pensam, sempre terá aquele tormento de como poderia ter sido se eu tivesse feito aquilo e será novo tormento a cada nova história. Retorno eterno até que enfrentado. Na era da ignorância e das inversões, (não) ficar satisfeitos e apenas aguardar (os estalos ou) a morte é se portar como um animal doente, a espera de um milagre ou de que alguém venha em auxílio. Os cavalos coxos se sacrificam. Os bons, ainda que coxos, levantam-se novamente, ainda que seja só para procriar.

    Não nascemos apenas para trabalhar e morrer, mas para viver e evoluir, do social para o indivíduo e do indivíduo para o social. Só é possível com dignidade (que engloba respeito).

    A defecção se dá pelo descrédito das instituições. E o caos se origina pela essa falta de razão e emoção.

    Voltemos ao que é milenar:

    O que é “dar a Cesar o que é de Cesar”?

    O que nos parece a passagem dos templos mercantis? O que fez Jesus (ao) chutar o pau da barraca?

    O que no hemisfério norte é diferente do sul?

    O Constituído em palavras é dever do Estado, que para essa finalidade foi consentido (Ver exemplo emblemático de John Lackland), assim como todas as coisas. Ao trabalho pelas aptidões e pelo necessário.

    Qual o teu propósito? E em vida laborativa?

    Ser para-raio, é sinal de dever a ser cumprido, a assunção de força para dar movimento ao que crê.

    Esquece tuas palavras ou apenas o papel não é utopia?

    Antecipar-se só é benéfico quando não se deixa de fazer o que deve ser feito hoje.

    Carpe Diem = Aproveite o tempo.

    Ensinai, fazei discípulos. Dá Valor em Vontade, não só pelos cristãos, mas pelo mundo (homem) que está a se degenerar.

  4. Peguemos um trabalhador braçal por exemplo, que trabalhou desde os 14 anos em serviços insalubres e ou periculoso.
    Aposentará precocemente, mas não terá saúde para desfrutar de sua aposentadoria; seus joelhos doerão muito, suas pernas ficarão arqueadas, sua pele divulgará uma idade maior ,seus pulmões e rins trabalharão nos limites, seu coração estará enfraquecido.
    Sonhou todos os dias com a aposentadoria pois para ele era o descanso final, não usaria mais uniforme, não bateria cartão de ponto não temeria perder o emprego.
    Acordaria mais tarde,tomaria um café mais preparado, almoçaria com a família, faria passeios, visitaria parentes e amigos, iria pescar, iria ver o mar as montanhas.
    Tinha muitos planos e achava que já tinha sofrido muito, não seria merecedor de mais castigos; não que considerava trabalho castigo, o castigo era aquele imposto pela inflação que nunca lhe permitira fazer uma poupança para a velhice e velhice seria para ele os 70 anos!
    Pagou aluguel a vida inteira, educou seus filhos em casa e nas escolas públicas proporcionou-lhes escolaridade.
    Pregou a moral os bons costumes, transmitiu e ensinou caráter, honestidade e todos os valores que formam um homens de bem.
    Quando o dia chegasse, compraria uma casinha para sair do aluguel, um carrinho popular.
    A tragédia logo se abateu sobre ele o FGTS remunerado vergonhosamente perdeu muito o poder de compra, se tivesse escolha com clareza não optaria pelo fundo, faria uma poupança, perderia muito também, mas menos.
    Passados os primeiros anos a tristeza tomou seu corpo e mente, ganhou peso, precisou de uma bengala, óculos e o que recebia do INSS comprava cada vez menos.
    Logo o benefício não dava para as compras do mês, e pros remédios.
    Não conseguia mais ver TV pois as notícias de violência e corrupção machucavam profundamente.
    Não conseguiu renovar sua CNH, resignado vendeu o pois é.
    Cancelou seu plano de saúde., seu seguro de vida, encerrou a conta no banco, vendeu aos poucos seus pequenos pertences.
    A doença o pegou, foi convencido que uma prótese resolveria seu problema, mas teria que pagar por fora, dispensou, preferiu sofrer calado.
    A doença novamente o chama e desta vez, sai do hospital para o velório.
    Deixou uma viúva com uma pensão já corroída, uma casinha sem manutenção.
    Fui chamado para avaliar a casa para vendê-la.
    Ao chegar em minha casa entristecido li o Blog “Aposentar é Morrer,” confesso que chorei.
    Este é Brasil que os trabalhadores constroem; que os políticos desfrutam e que os corruptos destroem.

  5. Moncher Amis,

    Renato Nalini

    Fico feliz em responder seus assuntos, sempre tão pertinentes. Este em especial, toca muito, pois vivi e vivo esta situação, e, por sorte, tenho outra renda.
    Meu pai se aposentou nos anos 70 com dez salários mínimos, e, mesmo na época, sem muito dinheiro, não cobriria suas despesas, nem as básicas.
    O que nos fez viver melhor que ele trabalhou muito e foi proprietários de hotéis médios no centro de São Paulo, e, consequentemente, deixou alguma herança.
    Minha mãe, meus irmãos e eu sempre trabalhamos no comércio, pensão, restaurante, até fabrica de etiquetas auto adesivas.
    Se minha mão, casada por quase 50 anos, e, responsável pela estrutura emocional e familiar de meu pai, precisasse do dinheiro da pensão, de cara, ela viveria por um ano de favor alheio, ou na rua, pois foi o tempo que levou para o INSS começar a dar os 60% que lhe era de direito, o que já é um absurdo, pois a morte de um usuário do INSS, a queda de 40 % na renda, já mostra o grave defeito da previdência, mas tudo bem.
    E este é um caso de pessoa que tinha renda! Minha mãe jamais viveria com esses valores, pois ao pagar o cada vez mais caro plano de saúde, já ia 80% para ele.
    Como poderia passar um mês, uma pessoa já com mais de 70 anos, com R$ 200,00?
    Portanto, ao imaginar os aposentados e as dificuldades naturais da idade, dores, doenças e etc, mostra o quanto este país é injusto com os seus cidadãos na hora que eles mais precisam.
    Fazem um carnaval do “politicamente correto”, fazem nos crer, com suas leis goela abaixo, estacionamento para deficiente, falsas vantagens em transporte público, como se fossem ao menos razoáveis, ônibus e metrô são proibitivos para idosos, com suas curvas e buracos, quando eu uso, ainda no alto dos meus 50 e poucos anos, sinto-me dentro de um liquidificador, sem contar que as pessoas, para subirem em um ônibus, tem que ter no mínimo abertura de perna de cinco anos de estudo de bailarino.
    Com tudo isso, ver as criaturas abespinhadas brigando, PT x PSDB, provoca-me náuseas…
    O Brasil devia estar lutando pelo fim absoluto da corrupção, e exigir que os impostos suecos cobrados no Brasil fossem repassados para o bem estar de todos, principalmente, para os seres humanos acima dos 70 anos.

    Aurrevoir, Amis Renato Nalini

  6. Professor, Dr. Nalini,

    Sou neto de um dos últimos grandes conselheiros da administração tripartite do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários, pelos idos de 1962 – 1963.
    O convívio com meu avô ensinou a complexidade de todo sistema previdenciário, pois tive acesso a farta literatura sobre o tema e o próprio depoimento pessoal dele.
    É fato que se a expectativa de vida está aumentando no mundo todo, o Brasil não é uma exceção, lembro-me de uma frase de um destes notáveis da administração pública previdenciária, Péricles Monteiro, que dizia que não devemos ficar copiando modelos de outros países, dizia também que a solução para os problemas previdenciários nosso passa pelo nosso exercício de criatividade, de inovação, de adequação à nossa realidade.
    Do meu ponto de vista, desde o momento em que a concepção genética da função previdenciária foi alterada para uma concepção muito mais assistencialista, pouco importando com a relação receita e despesa, contribuição x benefício, que aquela época chamava-se relação mutualística, isso acabou, com a extinção dos IAPs, e a inauguração do INPS (1966) com todo o processo de centralização e concentração da administração previdenciária.
    Não havendo obrigação mutualística, transformando-se os antigos institutos em um único, o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), a própria sigla já diz tudo: princípio principal é a seguridade social – um órgão eminentemente assistencialista.
    Todos os problemas começaram quando esta nova formatação assistencialista impregnou a essência da Previdência que era, na sua fundação, na sua origem, dar, ao fim da vida de um cidadão que contribuiu por anos, uma vida digna, em respeito, justamente aos valores recolhidos durante todo seu tempo de trabalho, por isto, inclusive, o Ministério da Trabalho e da Previdência eram um só Ministério.
    Muitos erros ocorridos hoje quanto ao tão falado “Deficit na Previdência”, foi em função do formato da administração que se inciou nesta transformação dos IAPs em um sistema assistencialista de previdência.
    Motivo Político: desmantelamento dos IAPs, era a de que eles estavam loteados politicamente e controlados por representantes de vários partidos políticos, mas principalmente o Partido Trabalhista Brasileiros, que na época, entre 1963 – 1963 , a Presidente, a Deputado por São Paulo, Sra. Ivete Cândida Vargas, dizia-se na imprensa, ela controlaria parte da Previdência Social dos IAPs de São Paulo, o que nunca ficou provado. É bom que se diga que o dos Industriários ajudou muitos outros IAPs, pois a Indústria, entre os períodos de 1950 – 1960, foi o setor que mais empregou, gerando muito mais contribuições x benefícios.

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