Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Como é o paraíso

5 Comentários

Pensar na morte é coisa que se não faz com a frequência com que ela nos acompanha. Não temos intimidade com a única certeza inquestionável nesta nossa efêmera caminhada. Só sabemos que vamos morrer. Melhor não deter outras informações: quando, de que forma, com sofrimento ou de repente. Mas quem se deteve a enfrentar o tema, sem dúvida já pensou o que nos espera depois. Dá para imaginar o que é a eternidade? A ausência de tempo? A inexistência de relógio?

O poeta Francis Jammes (1868-1938) se converteu em 1905 ao cristianismo e, a partir daí, sua obra se torna profundamente religiosa. Tem um conto sobre o paraíso que é ingênuo e delicioso. Começa assim: “O poeta fitou os seus amigos, seus pais, o padre, o médico, o cãozinho, presente no quarto, e morreu“. Tinha 18 anos. Viu-se no Paraíso e não se surpreendeu. Reecontrou tudo o que amara nesta terra. Foi convidado por sua mãe a jantar com Deus, no caramanchão do jardim do Paraíso.

Não estranhou que Deus se vestisse “como os pobres das estradas, os que trazem um pedaço de pão num alforje, e que os juízes fazem deter à porta das cidades e meter na prisão, por não saberem assinar o nome“. Triste imprenssão tinha o escritor sobre a Justiça francesa de sua época! O jantar foi servidopor legiões de anjos. A mesa cresceu e a ela tiveram assento os seus avós, e os pais de seus avós, e todas as gerações anteriores.

Até os animais que possuíra participaram do banquete. Tudo muito simples, muito natural, como devem ser as coisas de alguém infinitamente justo e infinitamente bom. O certo é que mesmo as pessoas mais próximas não voltam – ao menos no meu caso – para contar como é o “outro lado“. Temos de nos satisfazer com a fé. E somos frágeis, ilimitados, pretensiosos, arrogantes. Ambivalentes, quando não polivalentes. Mudamos de opinião. Cedemos à dúvida sistemática. Ela nos lança na “noite escura“, da qual só os santos conseguiram se liberar.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 25/06/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “Como é o paraíso

  1. Presidente, o senhor como sempre falou e disse.

  2. O que são os santos senão homens iluminados? Significa que jamais tenham pecado? Os nossos entes queridos o que espera(va)m de nós (onde quer que estejam)? E os que virão? A morte, em minha crença, é apenas uma passagem para uma outra circunstância, dependente da que realizamos agora e assim é para muitas religiões. Amor aos atos.

  3. Caro Nalini: Deus realmente te deu vários dons. Ninguém consegue pensar, escrever e provocar a reflexão profunda na mente dos outros, mesmos os incrédulos (que não é o meu caso), sem que esteja fora desse mundo terreno e enfraquecido de fé. Parabéns mais uma vez. Que Deus abençoe a sua mente e a tinta da sua caneta.

  4. Neste tema “Como é o paraíso” e sem interrogação, podemos ir ao infinito e muito mais além.
    Já questionando: Porque haveria de ser ou existir?
    Creio não haver nada a ser salvo ou liberto.
    Se pensou Shakespeare que: Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia” talvez sem ter os conhecimentos científicos de hoje sobre o universo, o que pode haver entre as galáxias, as estrelas, os planetas?
    Seria o universo multilateral expandindo e desdobrando-se em ciclos em que chegamos e partimos circunstancialmente….
    Fico por hoje com Fernando Pessoa-: O zero é a maior metáfora. O infinito a maior analogia. A existência o maior símbolo.

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