Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Enterrando nossas mães

6 Comentários

Em 17.11.2015, serão dez anos sem a presença física de minha mãe, Benedita Nalini. Não há dia em que não a ouça. Chego a adivinhar o que ela me diz a cada fato ensejador de alguma reflexão. Orfandade não tem idade. É o que se descobre a cada dia, quando somos obrigados a enterrar nossas mães.

Tenho vivenciado esse triste acontecimento com relativa frequência. Não consigo deixar de me condoer profundamente com os órfãos que ficam. E essa dor é ainda mais forte quando tive contato com as mães que partiram.
Foi o que senti ao acompanhar Zézinha, a Maria José mãe da Bia Estrada, com quem convivi um pouco, mas de quem aprendi a gostar bastante. Alegre, desenvolta, falava o que pensava e me identifiquei com ela. Coerente até o fim, fez de sua vida um hino à independência.

Dois dias depois, levava ao nosso Cemitério Nossa Senhora do Desterro D.Irene Naves Dal Santo, mãe do Chico, da Ana Maria, Maria Helena, Lúcia e Ig. A doce D. Irene. Sempre tranquila, sempre acolhedora, tão maternal para todos os que dela se aproximavam. Viveu cercada de carinho propiciado por seus filhos e netos, além da legião de amigos construída durante toda uma vida discreta e recatada.

Poucos dias me separaram da partida de Lilia Calichio Ladeira, mãe da Badete, da Cacaia, do Neto e do Paulinho. Um encanto de pessoa. Alegre, simpática, sempre me devotou especial afeição. Era a minha “madrinha” quando namorava Eliana Castiglioni, época de adolescência, de sonhos e de angústias.

As mães partem e deixam o vazio imenso no coração da gente. Quando perdemos a geração mais próxima, aquela que virá a seguir é a nossa. Chega a nossa vez, queiramos ou não.

Os netos podem sentir a perda, e creio que sentem; mas têm o anteparo dos pais. Há uma geração ainda a separá-los de suas mães. Nem sempre conseguem apreender a tristeza dos pais que se tornam órfãos. Somente poderão senti-la quando, infelizmente, a vivenciarem. E isso, se Deus permitir que a ordem natural das coisas aconteça: mães e pais querem ser sepultados por seus filhos. Não admitem a hipótese que sequer tem nome, de terem de enterrar seus descendentes.

Quem não tem fé precisa ter uma força imensa para suportar o inevitável e o irreversível. A dor inenarrável de enterrar nossas mães.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Enterrando nossas mães

  1. Presidente José Renato Nalini, ao lê-lo, senti minha saudosa mãe ao meu lado.

  2. Enterrar minha mãe é até hoje algo inconcebível e inaceitável para mim.
    Mesmo pq, já vinha do óbito de uma irmã aos 49 anos com carcinoma e meu pai apenas 15 dias antes da mamãe.
    Só me recordo qdo minha única irmã, que sobrou da família, veio avisar para ir-me despedir de minha mãe.
    Eu fiquei tão estagnada e perguntei as pessoas ” como uma filha despede de uma mãe”.
    Tal ato, até hoje, é irracional para mim. É selvagem demais esta dor.
    Mas na fé em Cristo eu mantive-me em pé de 2006 até hoje.

  3. Dor insuportavel sao palavras singelas para o tamanho da tristeza que é perder uma mãe e virar orfã. Quando sua razao de ser era ela.

  4. Adoro quando nos escreve um pouco do senhor. Fica ainda mais lindo de se ler e emocionante!

    A minha primeira perda doída foi a de minha vó materna. Até hoje, sinto-a. Quando ela adoeceu, veio para SP se tratar, e eu, me ofereci para ser a responsável por leva-la em suas consultas. Era muito nova. Adolescente de uns 18anos. E me recordo que madrugava com ela, e ia com vontade, mas com uma preguiça natural de quem tinha que acordar às 5:00 hs. rs. Me lembro que chegávamos no hospital HC, vó preocupada comigo, sumia enquanto ficava na fila. Voltava com o meu café e um lanchinho. Comia sentindo o amor e gratidão naquele pacotinho. Lembro que na noite que entrou em cirurgia, eu só rezava dizendo a Deus que se a deixasse (mesmo sabendo da gravidade e das possíveis sequelas), prometia que nunca mais teria preguiça de acordar as 5:00 hs., bem como, poderia cuidar dela se ficasse em estado vegetativo. Pense no meu egoísmo? Na época tinha muito pouco conhecimento da doutrina kardecista que hoje mais que sigo, vivencio. Hoje, um bocadinho mais madura, entendo melhor tudo. Vejo que ela não estaria feliz. Pessoa ativa como era, não seria feliz com tantas sequelas, mesmo tendo eu para animá-la diariamente como havia prometido a Deus.

    Hoje a morte não me assusta mais… mas, confesso que peço a compreensão de Deus, para que Ele me deixe ao menos, até os 30 anos de minha única filha. Ou, até que ela tenha uma família constituída que a abrace, como eu a abraço nestes quase 19 anos de vida dela. Por ser mãe e pai (afetivamente e materialmente desde do nascimento) da MAITÊ; penso que super protegi, engessei-a demais… E necessitaria de mim para estar mais segura no seu dia a dia.

    Bom, mas Deus terá que me deixar um pouco mais que uma década, rs. Ela Com 18anos, não quer saber de namorar (nunca namorou ou ficou como dizem a garotada). Já conversamos e não tem vocação religiosa, o que me tranquilizaria se seguisse. E diz quer cuidar de seu futuro profissional, viajar e nem pensar em trazer filho neste mundo louco. Pense?! E eu louca para ser vó, já que com 34 anos, já não teria tanta facilidade para ser mãe.

    Mas os que me conhecem, me rotulam como mãe. Acabou que adotei muitos filhos pela vida. rs. Sou aquela que todos contam o segredo. A primeira da família a ser avisada de tudo para pedirem conselho. No final, tenho primos e amigos que adotei. Bem como, um irmão mais novo (por parte de pai) e sobrinha que ajudei criá-los.

    Quanto à minha mãe, infelizmente não sei como será a dor dessa perda. Nunca pudemos ter uma relação de mãe e filha. Quando criança, já sentia sua rejeição. E quando adulta, eu e todos, pudemos confirmar. Mas a amo! Me esforço fazendo a minha parte de filha, e me preocupo, cuido, e óbvio que quero ela bem e presente entre nós por muito tempo. Sei que tudo na vida tem uma explicação. E não questiono. Suporto. E agradeço, pois nasci no lar que precisava ao meu desenvolvimento nesta vida, e ela, enquanto pai trabalhava pelo sustento, ela me proporcionou o básico para minha sobrevivência. Agradeço. E embora nunca tenha me dado amor, eu não consigo devolver desamor a ela. Sei que deve ser algo que esta vida não explica. E a perdôo.

    Já o meu pai, esse sempre foi o meu herói! Posso não ter tido uma mãe, mas tenho um pai que vale por mais que dez mães juntas. rs. Perdê-lo, seria muito complicado. Para os dois! Estaríamos em sintonia para sempre… mas dô lado de cá, queremos mais… Queremos ver a pessoa, abraçá-la… Ele subindo, tudo complica. Hoje morando em outro Estado, já está difícil. Reza para que eu desista de ser corajosa me virando em SP, e vá com minha filha para Recife. rs. Foi pra lá e montou nossos quartos na esperança de irmos um dia. Viveu por mais de uma década em meia separado de fato com minha mãe, mas dividindo o mesmo lar para não perder a convivência com os filhos. Até meus 32/33 morava com ele. É um pai e tanto! Perdê-lo, seria perder a presença física de um pai, anjo de guarda, pedacinho de Deus em minha vida. Por mais que creia que ficará bem e me guiada à distância, nunca quero pensar nessa partida. Mas um dia, sei… Assim será.

  5. Professor penso que esse afeto unico deva ter um encontro mesmo depois deste, pois é muito amor né?

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