Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Energia para a vida

Somos o que comemos é uma frase que já foi muito repetida. Aparentemente, somos ruins. Ou seja: comemos mal. Há uma geração obesa que não reflete saúde. Houve um tempo em que “gordura era formosura”. Hoje, gordura significa alto colesterol, pressão alta, problemas circulatórios e cardíacos. Potencialidade de morte mais próxima do que gostaríamos.

O mundo come mal. Além disso, desperdiça muita comida. Há gente que se diz educada e tem os olhos maiores do que o estômago. Lotam seus pratos e depois destinam ao lixo alimento que falta para saciar a fome de bilhões de humanos em todo o planeta.

Numa de minhas viagens pelo interior, parei num restaurante simples, de beira de estrada. Havia um aviso: “Quem deixar resto no prato: multa de 8 reais”. Acho educativo. Quanto a mim, sou de um tempo e de uma geração em que de tudo o que se servia, tinha de se dar conta. Não havia isso de deixar comida no prato. Dizem que os restaurantes de quilo aumentaram a dimensão dos pratos porque sabem que os olhos constituem a porta de entrada para os comilões. Quase não sobra lugar para a gula dos que não se incomodam de pagar e não consumir.

As porções francesas sempre foram módicas. No Brasil, há um exagero. Na Europa, compra-se um bife, duas batatas, uma cebola. Aqui, é tudo para durar bastante. Grandes estoques, que depois são dizimados pela data de validade.

Desperdiça-se também ao deixar de lado partes valiosas de frutas e legumes. Sabe-se que a casca da batata é nutritiva. Assim como a casca da banana e a da melancia e a do abacaxi. Mas, inclementes e perdulários, não sabemos aproveitar a vitamina que aumenta os resíduos sólidos e custa dinheiro para ser recolhida e destinada aos superados “lixões”, coisa de País de quarto mundo, em rápida caminhada rumo ao quinto.

Tudo isso é muito oportuno em tempos de carestia, quando a mesa do pobre encolhe e sobram ofertas nas prateleiras dos supermercados. Superada a fase da condenação de alimentos como o ovo, o café, o vinho, resta consumir mais verde, intensificar o cultivo dos orgânicos e reviver a ascese: ou seja, comer apenas o indispensável para fazer a máquina funcionar. Nada em excesso, já diziam os gregos. E eles sempre tiveram razão.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Esquizofrenia suicida

O Brasil é o único País que comemora “redução do desmatamento” como se fora uma vitória. No ano passado, destruiu-se uma quantidade de árvores correspondente a quinhentos Maracanãs. Este ano, a destruição decresceu: foram apenas quatrocentos e noventa! Aleluia!

Não há inocentes nessa área nevrálgica e da qual depende a sobrevivência das futuras gerações. O governo desmata, o empresário desmata, o cidadão desmata e até o índio desmata. A PUC do Rio de Janeiro apurou que a devastação cresce na pequena escala. É o proprietário de um imóvel que usa a motosserra para acabar com as árvores que o “atrapalham”.

O desmatamento pulverizado é o maior atestado da ignorância do brasileiro. Mesmo na situação atual, em que ele sente a falta d‘água e se vê obrigado a restringir o consumo, continua a dizimar a natureza.

Para a crise que começou há vários anos, a solução a longo prazo é a restituição da mata ciliar. Aquela que, arrancada, faz minguar o curso d‘água. Mas fala-se em obras, fala-se em contingência e em aumento da tarifa. Não vejo um projeto de reposição da mata ciliar ou de restauração da enorme dimensão do sistema Cantareira que desapareceu diante da ganância e ignorância do mais nocivo animal que habita a Terra: o próprio homem.

As crianças deveriam ser lembradas, todos os dias, de que dependemos de água para viver. Deveriam ser incentivadas a formar mudas, a plantar árvores, a cuidar delas. A respeitar a água e a percorrer espaços em que ela ainda existe, para verificar o quão mais saudável é o ambiente quando esse líquido se faz presente.

Os pais deveriam acordar para a gravidade da situação e fazer um esforço para mudar seus hábitos. Adotar espaços ociosos perto da casa e chamar a comunidade para formar ali um bosque. Plantar uma árvore em frente de casa e mantê-la como tesouro incalculável. Mas o que se vê, ao menos em regra, é o pouco-caso, a insensibilidade, a indiferença.

Será que estamos mesmo tratando de uma espécie racional? Ou fomos todos acometidos de uma esquizofrenia suicida, que levará conosco todos os nossos descendentes?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Faltam óculos ou colírio?

É difícil acreditar que pessoas aparentemente lúcidas não se compenetrem de que a situação brasileira precisa de tratamento de choque, não de paliativos. O que ocorre com a Nação é muito mais grave do que a microcrise no âmbito doméstico. Mas guarda similitude. Quando se gasta mais do que se recebe, o remédio é deixar de consumir. É refrear as despesas, é cortar na carne e procurar otimizar os recursos. Mas não é o que está acontecendo. Palavrório, interpretação variada, crítica e mais crítica. Mas de concreto, o que se fez?

É o momento de enxugar o Estado. Mas enxugar mesmo, não ameaçar e retroceder. Toda a população já percebeu que o Governo é um lobo faminto que suga, exaure a saúde do contribuinte e não se satisfaz. Ninguém desconhece que nossos preços são muito maiores do que os oferecidos a estrangeiros onde o controle sobre a volúpia tributária é eficaz, porque sob controle de uma cidadania protagonista. Aqui, investiu-se na infantilização de pessoas que só têm direitos, mas não assumem suas obrigações. Tudo tem de ser oferecido gratuitamente por um Estado-babá que já faliu. Não tem mais condições de nutrir as expectativas de quem não foi preparado para o trabalho, para o sacrifício, para o desempenho autônomo. Só se sabe reivindicar, exigir, boicotar quando desatendido em seus reclamos, na insaciabilidade de quem aprendeu a consumir como se fora primeiro mundo.

Um choque de verdade faria bem a todos. Assumir protagonismo cívico. Cair na realidade: o Governo não terá mais condições de oferecer tudo o que prometeu. Cada qual tem de procurar o caminho da sobrevivência, que passa pelo trabalho duro, pela economia forçada, pela redução de gastos e pelo empreendedorismo. Não há mágica num estágio calamitoso como o da nossa economia, sem perspectivas políticas de consenso, sem o espírito de sacrifício, há muito abandonado na ilusão de que o Governo é onipotente e tem cofres inexauríveis.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 24/09/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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A podridão humana

Ninguém pode recusar os benefícios da informática, da eletrônica e das redes sociais. Permitem-nos a comunicação instantânea com qualquer pessoa e em qualquer parte do mundo. Mas tudo tem ao menos dois lados. A mesma teia propiciadora de contatos afetivos é aquela que nos enreda em triste situação.

A comprovação de que a miséria humana está em todos os espaços, em todas as gentes. Nós, adeptos da web, agora temos de nos acostumar com a presença crescente da “dark web” ou da “deep web”. A chamada “deep web”, a rede profunda, é a parte da internet insuscetível de ser detectada por buscadores como o Google, porque não tem links direcionados a ela.

Serve para ocultar, intencionalmente, os sites que pretendem continuar anônimos, para melhor ferir o semelhante. Esta parcela é chamada a web escura: não é acessada pelos navegadores tradicionais. E para que servem deep e dark wesbs? Para vender maconha (31%), remédios proibidos (21%), LSD, metanfetamina, cogumelos, heroína, sementes e videogames (5,3% cada um desses “produtos”).

Mas não é só. Essas redes escuras e profundas também estão à disposição de quem quer contratar assassinos, por 45 mil dólares. Um estupro fica mais barato: 7 mil dólares. Surras para deixar uma pessoa paralítica está à disposição por 30 mil dólares. A pedofilia também navega pelo mundo dark, inclusive mediante o uso do “crowdfunding”, ou vaquinha virtual.

Pessoas se unem e cada qual fornece uma parte do dinheiro que será utilizado para a criação de um site especializado em prodigalizar pedofilia entre os enfermos que a ela se dedicam. O maior problema de tudo isso é que as operações não são rastreáveis, como na internet. À medida em que a informática avança, também se especializa a maldade humana, pois a podridão faz parte desta miserável natureza.

Não há prenúncio de mutação genética hábil a fazer do ser humano aquele bom selvagem, o homem idílico de Rousseau, pronto a auxiliar o seu semelhante e a fazer o bem. Na verdade, parece que Hobbes é quem estava com a razão: o homem é o lobo do homem. E, pior do que isso, é um lobo sujo, pervertido e cruel.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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O centenário de d. Yolanda

Hoje, exatamente hoje, 17 de setembro de 2015, Yolanda Pierruccini Martins completa seu centenário. Com saúde e sob assistência contínua e carinhosa de seu filho José Eduardo, o médico “Penaforte”, que vem a ser meu amigo, antes de ser meu cunhado, pois casado com minha irmã Raquel.

As conquistas da medicina propiciam evidente acréscimo na longevidade. Dentro em poucos anos, haverá muitos centenários comemorados em vida, e não como celebração pelos cem anos de alguém que já partiu.

À evidência, viver muito não oferece apenas alegrias. É assistir à partida de seres queridos. D. Yolanda perdeu o marido, José Penaforte Martins e também seu filho caçula, José Roberto, além de todos os irmãos: Renato, Renata, Alice, Pia. Perdeu sobrinhos: Armando e Elcio Guerrazzi. Perdeu amigas e amigos. Faz jus ao brocardo: “Viver muito é colecionar perdas!”.

Mas os desígnios da Providência são insondáveis. Alguns morrem cedo. Outros têm uma vida mais longa. Para os crentes, não há espaço para lamentações. Todos temos nossa missão e, enquanto vivermos, é preciso aguentar a cruz, o peso das atribulações, bendizer à Providência que nos concedeu o bem da vida e prosseguir. Enquanto há vida, há esperança.

Muita gente nasceu em 1915 e poucos conseguiram chegar a 2015 com vida. Meu pai, Baptista Nalini, nasceu em 26/11/1915. Mas partiu há muitos anos. Morreu em 1992, de tristeza por haver enterrado o filho caçula, João René, morto em 1989.

Famosos e anônimos nasceram em 1915. O Ministro José Geraldo Rodrigues de Alckmin, tio do governador Geraldo, a atriz Ingrid Bergman. Edith Piaf, Orson Welles, Goffredo da Silva Telles e tanta gente mais.

Mas nasceu também Yolanda Pierruccini, que foi professora e educou gerações de jundiaienses. Viu Jundiaí crescer e se transformar. Os costumes se deteriorarem. A educação se vulgarizar. A cidade ficar menos civilizada. O centro perder sua feição nobre e se tornar mais padronizado e feio, como ocorreu com tantas outras cidades. Mas está viva, graças aos cuidados de seu filho médico, José Eduardo Martins, exemplo de respeito aos pais. Quando tantos preferem os asilos, ele mostra que é possível ter perto de si aqueles que nos deram a vida e aos quais devemos gratidão e afeto. Parabéns, D. Yolanda!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Poupatempo fúnebre

Todos temos de morrer. Inevitável. Por isso a ojeriza de quase todos ao pensar na morte. Ela é ocultada, escondida, não se pode falar nela. Mas talvez fosse melhor encará-la. É o que faz o Marquinhos da Funerária, hoje Presidente da Câmara da Estância de Itu. Sua história de vida é comovente. Chegou a Itu sem conhecer qualquer pessoa. Seu pequeno filho Igor faleceu e teve de ser enterrado diretamente na terra. Não havia dinheiro para adquirir um caixão. A provação o fez comprometer-se a trabalhar para que ninguém mais passasse por tristeza tal. Cuidou primeiro do cemitério daquela heráldica cidade, berço da convenção republicana. Elegeu-se vereador. Interessou-se pela modernização do serviço funerário.

Agora realizou o seu sonho. Inaugurou um velório, que tem o nome de seu filho, Igor Viana Rocha e que é um exemplo para todas as demais cidades. Nove salas climatizadas, ambiente agradável, as famílias tratadas com dignidade. Espaço para crianças, fraldário, sala de repouso enquanto o Serviço de Verificação de Óbito realiza a sua tarefa. Tudo foi pensado para amenizar o momento mais triste daqueles que têm de se despedir de um ser querido. E isso é muito sério. Infelizmente, vivemos no mundo da burocracia, em que nem sempre contamos com tratamento humanizado, mesmo nas piores horas a serem enfrentadas.

Já ouvi inúmeras queixas da demora, da rispidez, da complexidade, da dificuldade encontrada por aqueles que precisam sepultar seus mortos. Itu dá um exemplo a todo o Brasil de como cuidar daqueles que precisam de um sepultamento. Por acréscimo, em Itu o enterro pode se realizar a qualquer hora, de acordo com a preferência e necessidade dos familiares. Há cerimônias especiais no Dia das Mães, no Dia dos Pais e no dia de Finados. Neste dia, um helicóptero esparrama pétalas de rosa por toda a necrópole. Da tragédia que o abateu, Marquinhos da Funerária extraiu uma significativa missão: amenizar o dia mais triste na vida daqueles que se separam dos que não poderiam nos deixar.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 17/09/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Acorda moçada

O Brasil criou uma geração acostumada a que tudo “caia do céu”. Palavras mágicas quais trabalho, sacrifício, esforço, responsabilidade, empenho e patriotismo foram esquecidas por legiões. Só que uma hora a onda bate nas pernas e quem não estiver firme será levado.

Há muita gente que se queixa de falta de oportunidade, de sorte madrasta, de governo que não oferece perspectivas. Mas quando se quer algo, de verdade, o panorama pode mudar.

É o exemplo de um jovem americano, Casey Gerald, que fez MBA em Harvard e resolveu “dar um empurrão” na moçada de seu país, para assumir responsabilidades e exercer empreendedorismo.

Sua vida não foi fácil. Nasceu no Texas, foi abandonado na infância pelo pai, usuário de drogas e pela mãe bipolar. Cresceu em zona pobre de Dallas, sob a tutela da avó, que ganhava a vida fazendo faxina. Sabedor de que seu futuro dependia dele mesmo, estudou e entrou na Faculdade de Direito de Yale.

Logo após a colação de grau, conseguiu emprego no Banco Lehman Brothers, aquele mesmo, envolvido na crise de 2008. Viu que um emprego não era tudo. Tinha a vocação de despertar sua geração para um protagonismo transformador.

Não foi a passagem por Yale e Harvard que plasmaram seu intuito. Foi a experiência de vida. Determinação, diz ele, não se aprende em Harvard. Aprende-se quando se é pobre.

Seu primeiro pagamento no Banco Lehman Brothers equivalia a seis meses de faxina de sua avó. Mas ele se sentiu miserável e pensou em redimir outros jovens na sua situação. “Não podemos nos dar ao luxo de esperar que as grandes corporações ou governos resolvam nossos problemas”. A ordem é ser empreendedor e criar oportunidades econômicas.

Ele acredita que alguns dos melhores empreendedores dos próximos 50 ou 100 anos serão jovens de lugares como as favelas brasileiras, que vão acordar um dia e dizer: – “Quer saber? Isto aqui é um saco! Eu vou fazer algo diferente!”.

Ele acredita que as soluções que esses jovens encontrarem para problemas contemporâneos serão melhores, mais interessantes, vitais e urgentes do que as de alguns herdeiros da elite que já receberam tudo pronto.

Ele acredita que a juventude pode mudar o mundo. Para isso, é suficiente um forte encorajamento moral. Acorda moçada! Vai para a luta!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.