Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A árvore da intolerância

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O mal-estar civilizatório nunca deixou de existir. O ser humano é uma criatura falível e imperfeita. Nunca está satisfeita. A economia considera natural a sofisticação das necessidades. Estimula as pessoas a perseguirem seus objetivos, a progredirem, a se sofisticarem. Mas a insatisfação permanente é patológica. Não há limite para a ansiedade. Assim que se alcança algo que se quis ardorosamente, cessa o desejo e sobrevém a angústia.

Está lançada a semente para a intolerância. Não se tolera o diferente, não se tolera o original. Não se suporta aquele que pensa de forma diferente. Terra propícia para que o ódio germine e surjam múltiplas manifestações de violência. Violência presente em todos os estamentos, em todas as situações.

A violência não é apenas física. Há violência na indiferença, na insensibilidade, na exclusão. Seres invisíveis são vítimas prediletas da violência. Ou não é violência pular sobre corpos estendidos nos passeios, cuidar de não esbarrar neles e não tomar conhecimento sobre a sua situação de penúria? Não é violência generalizar como viciados, bêbados ou vadios todos os que se amontoam nos cantos imundos da metrópole tão exuberante?

Por que a volúpia ao criticar a minoria, a não compreender que as pessoas são naturalmente desiguais, que a homogeneidade não é característica humana, senão sinal de outros coletivos, quais a colmeia ou o formigueiro?
Qual a explicação para reações agressivas contra pessoas que nada fizeram para agredir os agressores? O que se passa na consciência de quem xinga, vaia, apupa, profere impropérios ou faz zombaria contra certos perfis? Como justificar a crueldade exposta nas redes sociais, onde o aparente anonimato arma de coragem até os mais covardes?

Sob a capa dos mais saudáveis argumentos, a ira santa, a indignação incontrolável diante do descalabro, a urgência de resistir à invasão dos novos bárbaros, exercita-se uma intolerância cruel. A tolerância é vista como fraqueza, debilidade moral, fissura de caráter ou impossibilidade de reagir. A inércia, nutrida de comodismo egoísta, é o fertilizante para a árvore da intolerância. A única protegida pela motosserra inclemente dos dendroclastas.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “A árvore da intolerância

  1. Que texto lindo Doutor!

    Sim, a ansiedade, tem contribuído com seres humanos cada vez mais descontrolados. Gritam e esperneiam como crianças! Mimados, querem o resultado, mas nem sempre esses têm um projeto, ou mesmo analisam das possibilidades para tal resultado. Querem por que querem. E não alcançando seus propósitos, deprimem! Outros, chegam às suas metas, mas, a partir de então, o Universo perde a cor! Tudo fica muito sem graça, se não tiverem, uma nova “corrida do milhão” para os tirarem desta angústia.

    E quando tudo terá fim? Os frutos colhidos não podem ser saboreados pós colheita? O prazer estará em colhe-los, tão-somente? Que sem graça! Só seremos felizes se tivemos tudo o que queremos? Viemos aqui para isso então?! Sei não! Não me convidem para participar dessa crença de que o prazer de ter, seja suficiente para uma vida. Quero ser feliz, tendo ou não tendo realizado os meus desejos e sonhos! E se tendo, usufruir e atingir a verdadeira finalidade de todas as coisas, sem ter de me inscrever nesta competição desenfreada de novas conquistas; sem que haja experimentado do sabor e tenha tido tempo de saborear cada uma delas! Vim para viver. ESSA vida é única! Sairei daqui, só com a bagagem das minhas conquistas morais, sendo nela, que devo um capricho especial na esperança de voltar cada vez menos ignorante e mais racional.

    Com relação a intolerância, embora sensível, procuro não importar (trazer para dentro) a opinião alheia. Do contrário, seguirei louca, sem ser EU, perdendo muito tempo recebendo e analisando alguns EU´S, DESENHADOS por tantos.

    A verdade é que muitos dos seres humanos, vivem de rótulos generalizando aqui e ali, tendo o péssimo hábito de julgar pela aparência. Fui mãe aos 16 anos, e lá atrás, senti o preconceito e a intolerância pesada, mas… comparado a intolerância que vemos hoje, confesso que os agressores do passado, eram uns fofos! rs. Pensavam, apontavam e fofocavam muito… mas agressão verbal, aquela FORTE e DIRETA, era DIFÍCIL. Hoje, escancaram a todos o que não consideram dignos de seu modelo de perfeição.

    E qual o melhor remédio para uma melhor convivência? Será que há um? O bom, seria a CURA do doente, mas… Como sair pedindo a “interdição” de todos? rs. Acho que o desprezo do agredido, e o tempo, estará de bom tamanho para solução de tudo. Não parar para discutir com esses doentes pela falta de amor. Será tempo perdido, e haverá uma contaminação com que há de pior a nós. Me considero sensível e, confesso que já chorei tentando entender a mente de alguns deles. Tipo: o que foi que fiz a ele?! – Mas hoje, choro de forma impessoal. Pelo destino do mundo em si! Onde vamos parar?

    Tenho me assustado demais não com os convencionais ataques invejosos, insatisfação considerada justa e tal… mas o que vem me assustando, é a qualidade desses doentes de hoje. O ódio que eles deixam transparecer em último grau, sem sequer conhecer o íntimo do agredido.

    Não se trata de mera insatisfação raivosa e momentânea. E sim um ódio bem alimentado, que se torna uma obsessão, algo patológico. Só são felizes, com o pior à pessoa, e se sentem realizados em agredi-las tirando-lhes a paz. TRISTE TUDO ISSO. SOBRETUDO PARA os agressores QUE SEM VIDA, seguem sem nada construírem de herança benéficas ao seu futuro próximo. SEGUEM ENGESSADOS NO PIOR! Já os perseguidos, esses seguem seus focos e com a ajuda divina, vão que vão rumo à superação, e cada vez mais fortes, graças aos venenos dos agressores.

  2. A arvore da intolerancia e tb a arvore do medo, do inexplicavel. Vejam o que esta acontecendo hoje no continente Europeu! Alguem conseguiria explicar e dar uma soluçao razoavel ao fenomeno migratorio de centenas,milhares e milhares de humanos de multiplas nanionalidades fugindo desesperadamente de suas tradiçoes, de seu berço, deixando pra tras crianças, mulheres e ancioes? E ja foi dito por uma das varias autoridades dos Europeus: “um fenomeno migratorio sem precedentes!”. O ocidente esta assustado com esta fuga maciça de nacionais buscando paz? Buscando tolerancia? Fugindo de guerras e de intolerancia? Quais as motivaçoes mais palpaveis para compreender o desespero de largar tudo? Sera que para entender e nevessario ir ate la na Italia, Grecia, Macedonia, Hungria, França, Alemanha e Inglaterra e entrevistar? Sera que cada ser humano pode comprender sem precisar estar proximo, ler os noticiarios, assistir na televisao? O que ocorre na Africa, no Oriente Medio, na Euroasia? Por que essa fuga de humanos para o ocidente?Sera que e nevessario para saber, comprender estar no local? Se eu nao for la pessoalmente, eu nao vou entender a real comprençao de tudo? Eu humildemente direi nao sei, porque houve no seculo 20 migraçoes em razao da primeira e segunda guerra, mas sem precedentes esta um mundo conturbado por muitas das razoes, alem da intolerancia, bem apontado no texto de forte conteudo filosofico, de reflexao escrito pelo autor.

  3. Gostei. Muito bem ponderado.

  4. Dentre as florestas do preconceito e da intolerância, há que se plantar mais árvores.
    Dentre os homens há que semear a mudança de hábitos e a reeducação.

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