Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A cada viagem

6 Comentários

Quando viajo de carro, sinto-me sempre em casa. Estou no chão firme. Aprecio a paisagem. Gosto do interior. Ali parece que a crise é menos violenta. É só o governo não atrapalhar que as coisas continuam.

Mas quando viajo de avião, não deixo de pensar que se Deus quisesse que voássemos, nos teria dotado de asas. Assim como fez com os pássaros. Fico pasmo, depois de tantas viagens, com o fato de uma tonelagem imensa pairar no ar. Atemoriza-me atravessar o oceano. Como se fosse diferente cair em terra ou no mar. Talvez a vã pretensão de que em terra é possível reconhecer os corpos, mediante um bom exame de DNA. Já no mar! Que o digam Ulysses Guimarães e Severo Gomes, naquele fatídico voo de helicóptero entre o Rio e Ubatuba.

Quando fui ao Japão, nas vinte e seis horas de viagem, só com a parada em Los Angeles, deixei cartas aos filhos, como se fora despedida. Isso foi em 1995 e, graças ao bom Deus, ainda estou por aqui. Tantos mais moços já se foram!

Mas procuro fazer algumas coisas que poderiam ser feitas após à volta, como se não houvesse certeza nela. Escrever cartões de agradecimento, pagar contas, mandar presentes de casamento. Arrumar um pouco minha mesa de trabalho, que já foi chamada de “buraco negro”… O que ali vai se acumulando, nem sempre depois é encontrado.

Inexplicável essa apreensão, para quem se diz crente. Se a vida não é apenas este angustiante estágio, cheio de incertezas, se não me convenço do “big-bang” e me satisfaço com o design inteligente, por que o receio? Não haverá alguém do outro lado a me esperar? Não reverei as pessoas que amei e continuo a amar, porém que já ingressaram na eternidade?

Mas a emoção é muito maior do que a razão. Somos governados por sentimentos, não pela lógica. E assim vamos colecionando nossas manias, nossas idiossincrasias, nossos temores e inseguranças.

Que extraiamos disso mais humildade. O reconhecimento de nossa fragilidade. A desimportância de tudo o mais que não se contenha no essencial: calma, serenidade, vontade de compartilhar bons sentimentos, para trazer um pouco de paz a este mundo tão conturbado.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “A cada viagem

  1. Presidente José Renato Nalini, as suas palavras sempre nos convidam a pensar na vida e suas implicações.

  2. BOM DIA! SÓ EM FALAR DE SUA INCLINAÇÃO, JÁ O VEMOS DUPLAMENTE HUMILDE. NÃO SÓ A RECONHECE, COMO A EXPÕE. LINDO! GRANDES HOMENS TAMBÉM TÊM ISSO? ME SENTIREI MAIS À VONTADE COM OS MEUS “MONSTROS” AQUI!

    Mas a verade é que realmente temos receios, independente da crença em Deus, Pai Bondoso que só quer o nosso bem.

    Saudoso Chico Xavier, embora conhecedor do melhor que há no outro plano superior, se viu descrente e entregue ao desespero, ao passar por uma forte turbulência, entrando em pânico e gritando por socorro. Seu mentor espiritual o repreendeu pela falta de fé na imortalidade da alma, onde rígido e brincalhão, soltou a Chico, que ele não era um privilegiado e que fechasse a boca! Disse que naquele momento, muitos faleciam e que se assim fosse, optasse por partir com educação e dignidade, ou seja, em silêncio e confortando a todos do avião. E se Chico, por alguns minutos teve medo da morte, como qualquer outro não o ter, não?
    Eu tenho medo por minha filha. Sei que tenho muita gente boa em minha vida, mas a responsabilidade de encaminhá-los é dos pais, e no meu caso, sou mãe e pai, preciso permanecer viva, por mais uns 10 anos no mínimo. Embora maior de idade já, a mãe aqui a engessou demais, superprotegendo-a. Não é mimada; meu amor para com ela, sempre foi um amor exigente, mas, euzinha tomava à frente como se ela fosse um bb, com medo dela se ferir e por não admitir ver a dor do mundo relar nela. Rs. Pense na loucura? Rs. Cada qual com seus “grilos”. Não tem jeito… ou melhor, me redimi nessas coisas de engessa-la, e há uns 3anos atrás, comecei o processo de libertação que tem auxiliado na recuperação do estrago que eu mesma a proporcionei lá trás. Mas, deixa-la hoje, seria cedo demais. Tem muito trabalho pela frente!

    Mas nunca tive muitos cuidados e preparos pensando nisso. E se acontecer, confio no Pai Maior e sei que do lado de lá, estarei tranquila e poderei guia-la. Meu medo é ela não suportar, e se rebelar por aqui. Dar trabalho aos seus anjos, já que aos que ficam, dói mais… mesmo crentes, sua crença maior estará em ver e conviver, não basta a fé que estão bem e no aguardo de um reencontro em um futuro próximo.

    Não me recordo de ter sentido medo da morte durante a minha vida, mas tenho minhas inculcações como todos, acho, as tens! Eu não dirijo – acho que posso cometer um acidente àlguém; não nado – tenho fobia de me imaginar querendo respirar sem poder; não durmo no escuro ou sozinha em casa – odeio a solidão e nenhum raio de luz ao anoitecer; não gosto de ambientes repletos de gente – sensível, as sinto e o que não sinto, presumo sentir (rs); não falo em público – lindo quem assim faz, mas nasci para ser invisível (rs); tenho medo altura – não de avião, mas do cair ser duradouro, me dá vertigem só de olhar para baixo, um sensação péssima; e acho que só. Ufa!

    Terei que ter uma morte tranquila para que seja realmente sem medo então. No final, vejo que não tenho medo de ir, mas de como ir. Não suporto um desequilíbrio de minha alma, sentir m desconforto. Sei que posso supera-los e que tenho feito “corpo mole” com eles. Uma pena, já que esses medinhos terrestres, me atrapalham em vida, já que creio no que Cortella diz: Eu não estou preocupado com a morte, mas com a vida, para que ela não seja banal e fútil. Ou seja, tenho medo de não deixar nenhuma lembrança positiva por aqui, ou chegar lá em cima, repleta de pontos negativos e assistir um filme da minha não evolução perante às lições que tinha de aprender, mas negligenciei e pulando-as.

  3. Dr. Renato, também pago minhas contas quando pretendo viajar.

  4. Só me resta dizer que concordo totalmente.

  5. Precisamos nos conectar com as outras possibilidades de existir.
    A cada viagem levamos menos bagagem e cada reencontro externamos nossa insignificância.
    Diz um amigo que em minha mesa, se perderia até um porta-aviões, mas sempre saberei onde ele está embora não o consiga encontrá-lo no exato momento da necessidade.
    Em nossa última viagem, deixei um carta aos filhos com as instruções em caso de não retorno:
    Como terminar alguns trabalhos, como receber alguns créditos, e o Dr. que deverá cuidar de nosso inventário!
    Se assim continuar, começarei a escrever um testamento!
    Logo desistirei de longas viagens etc.
    A humildade não chegará precocemente a ninguém, mas só a bagagem acumulada e vivenciada de nossos dias é que nos fará dissimular os temores, sorrir mais, sair da zona de conforto social e nos permitir sair do trivial, do cotidiano e enxergar a vida e o mundo de outros ângulos.
    Lembremos de Mario Quintana:
    Um dia…Pronto! me acabo, pois seja o que tem de ser.
    Morrer: que me importa?
    O diabo é deixar de viver.
    Sr. Presidente; seus escritos contribuem para nos alertar para que não deixemos de viver.

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