Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

Egoísmo judicializado

2 Comentários

O excessivo demandismo da sociedade brasileira tem sido encarado sob vários ângulos. Um deles, pouco explorado, é o da falta de solidariedade. Vários exemplos evidenciam a intensificação de um sentimento de busca desenfreada de atender a interesses, benefícios, conforto e anseios, sem a menor preocupação com o semelhante que nunca terá condições de vê-los igualmente satisfeitos.

Veja-se o fenômeno da judicialização da saúde, um dos inúmeros temas em que a Justiça tem sido chamada a intervir. Quem possui condições de ingressar em juízo exterioriza a sua pretensão a um tratamento dispendioso, ou a um remédio importado, a uma internação em outro país. Pensa somente em si, nunca a cogitar que isso tornará inviável o mínimo atendimento a outros igualmente necessitados.

A sociedade brasileira mergulhou num redemoinho crescente de exigências, a confundir desejos, anseios, aspirações e vontades com os “direitos”. Responsabilidade compartilhada com a comunidade jurídica, cuja pregação na era de abundância de benesses ensina a viver a ilusão de que esta inflação de “direitos” é suscetível de satisfação por uma economia frágil e cada dia mais debilitada.

Mas o acúmulo de pretensões judicializadas evidencia o egoísmo de quem acredita que o governo é o provedor onipotente, capaz de transformar poeira em ouro. Quem tem acesso ao Judiciário, quem chega primeiro, leva aquilo que é insuficiente para todos. O atendimento aos que litigam priva todos os demais de mínimos cuidados em relação a direitos de idêntica dimensão.

Uma sociedade madura, que tivesse mais responsabilidades e preocupação com o próximo, se articularia para impedir corrupção, desvio de verba, para estimular o crescimento da atividade geradora de recursos para suprir as necessidades de todos.

É mais um aspecto e este bem negligenciado, da judicialização de todos os assuntos numa República imersa num lamaçal de indefinições e à espera de que o juízo dos lúcidos imponha diretrizes sem as quais não sairemos dessa noite escura de profunda agonia moral.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 19/11/2015
JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Cartório do Fórum João Mendes JR. Foto: Ricardo Lou/TJSP

Cartório do Fórum João Mendes JR. Foto: Ricardo Lou/TJSP

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Autor: Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e Conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

2 pensamentos sobre “Egoísmo judicializado

  1. Presidente José Renato Nalini, parabéns pelas criteriosas reflexões.

  2. Dr. José Renato Nalini, aborda de maneira simples, objetiva e corajosa importante tema brasileiro. Parabéns!!!!

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