Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Governar é gerir escassez

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Que o digam os atuais gestores da coisa pública. Nunca houve suficiência capaz de absorver os imprevistos, os aditivos, as urgências advindas de vicissitudes normais. Há cansaço de material, há paredes que caem, telhados que fraquejam. Equipamentos que já deram tudo de si. E o Erário tem de ter verba disponível para atender às emergências.

Mas, para isto, contava-se com o excesso de arrecadação. Afinal, a sexta economia mundial, aquela que conseguira num curto espaço de tempo eliminar a miséria, acabar com a dívida externa, descobrir o pré-sal, podia se dar ao luxo de esbanjar. Só que a conta chegou. Neste 2015, a face desesperada do improviso, do destempero, do despreparo, incompetência e outros caracteres da hegemonia, mostrou suas cores tétricas.

Onde buscar recursos, se a iniciativa privada é tolhida por rede burocrática só menor do que a prepotência dos agentes de autoridade? Já não existe mais o que criticar. Todos à espera de uma definição, de um rumo, de uma meta. Sem isso, o capital disponível e que tem interesse no Brasil não virá. Todos sabem o que deve ser feito. Por que não se faz? Os otimistas dizem que já enfrentamos crises semelhantes e delas saímos.

Alguém muito erudito e respeitado disse um desses dias: “Estamos melhor do que na década de sessenta/setenta. Naquele tempo, chamávamos um militar. Agora chamamos um juiz!”. Com isso, quis dizer que as instituições funcionam e que não há clima para golpe antidemocrático. Mas os pessimistas dizem que esta crise é pior. A oposição não se une. Parece ratificar o que se afirma que Getúlio Vargas teria dito uma vez:

O Parlamento tem idiotas. Mas a população também conta com idiotas e precisa ser representada”. Só que ele não poupou também o Executivo. É célebre o seu asserto: “Um Ministério tem muitos incapazes e outros capazes de tudo”.

Por isso é que o povo tem de se conscientizar de que o governo é ferramenta, é instrumento, não é nem pode ser finalidade. Se a população se transformar em cidadania, ela saberá cobrar daqueles que atuam em seu nome, decência, hombridade, trabalho e devotamento à causa pública. Todavia, se assim não for, o que podemos esperar desta República tão combalida?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Governar é gerir escassez

  1. O ESTADO DIVINO

    Ainda não completou dois anos que o Secretário, Dr. Nalini, escreveu tão primoroso artigo. Em novembro deste ano fará dois anos e ele continua atual como nunca. Estamos em meados de 2017, e os fatos apontados pelo Secretário de Educação, na época Presidente do maior Tribunal de Justiça do mundo, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo são tão atuais que nos deixa assutado, tudo continuo do mesmo jeito. As mesmas resistências. As mesmas ideias de Estado. Do Estado provedor de tudo. Do cidadão bebê. O cidadão que acha que tudo deve chegar a ele de graça, quando vota, espera de graça, uma contrapartida. O Eleito, que confirma ao eleitor que cumprirá sua promessa, com os recursos do Estado, que são de graça. Todos dissimulados, acreditando na própria mentira que criam para si mesmos, que tudo é de graça, que tudo pode ser de graça mesmo. Ó eles não sabem o que falam…Acho que o Brasil foi tão cristão na sua raiz, mas tão cristão que acabou vendo o Estado uma instituição divina, sagrada, e aos que se prontificam a compor ele são seres divinos, anjos de céu, capazes de tudo para todos. Brasil para Todos, isso é um slogan de propaganda, Pátria Educadora, outro slogan, e tantos outros que já apareceram…Até quando os brasileiros vão continuar com esta ótica de Estado que dá tudo de graça? Até quando?

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