Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Era de se esperar

4 Comentários

Conforme se previa, os colossos estruturais edificados para a Copa do Mundo estão produzindo o efeito esperado: enormes prejuízos. Muitas dezenas de milhões acumulam nos dois últimos anos e representam um testemunho a mais da imprevidência brasileira.

O Brasil se comporta como aquele pobre que não quer admitir sua miserabilidade e quer se mostrar remediado para os mais ricos. Gasta sem pensar, para “fazer bonito” e depois seja o que Deus quiser… Lembra bem os apuros em que se meteu o anfitrião do filme “Passagem para a Índia”, não querendo frustrar seus convidados.

Agora estão aqueles imensos espaços condenados à ociosidade. Custando dinheiro ao povo sofrido. Sem perspectivas de aproveitamento útil. Mas restam opções. Oferecê-los à iniciativa privada que sobrevive quando o governo não atrapalha. Alugá-los às confissões religiosas que propalam reunir milhões de pessoas em busca da transcendência, já que a vida real está muito triste.

Promover grandes concursos de ginástica, de banda, de conjunto de rock, rave, punk, música sertaneja, música caipira, ballet, artes marciais, etc. etc. etc. Se tudo isso não der certo, haveria a possibilidade de sua destinação para abrigar os arquivos mortos da Justiça brasileira. Experimentem apurar quanto é que o povo paga para guardar processos findos. Só em São Paulo, são quase cem milhões de processos, que merecem tratamento mais privilegiado do que as pessoas. Pois há inúmeros seres humanos morando em palafitas, sob viadutos, nas praças públicas e nos desvãos dos logradouros. Enquanto isso, os processos habitam ambiente climatizado, armazenados em caixas metálicas e localizados por robôs. Primeiro mundo para papel sem serventia, quinto mundo para as pessoas.

Resta ainda a conversão de todos esses estádios em enormes circos. Retorno à época do final do Império Romano, em que o populacho se satisfazia com o “panis circensis”, para não prestar atenção ao que ocorria na gestão da coisa pública. A única diferença é que o pão está começando a faltar na mesa do pobre. A inflação, que uma geração não chegou a conhecer, está à vontade, embora maquiada, a tirar alimento dos hipossuficientes. Em compensação, há muito espaço e muitos atores para prestigiar as artes circenses.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 21/01/2016
JOSÉ RENATO NALINI é desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Estádio de Brasília Imagem: https://pixabay.com/

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

4 pensamentos sobre “Era de se esperar

  1. Realmente, Secretário José Renato Nalini, foi uma inconsequente aventura.

  2. Caro Renato, realmente uma tragédia esperada por quem tem um olho ,basta um, para identificar os desmandos do governo que está nos levando rapidamente para o quarto mundo. Uma tragédia……

  3. Exmo. Sr. Doutor Nalini

    A Secretaria de Educação de São Paulo não poderia ter pessoa tão talhada para o mister, quer por ser um homem das letras; quer por tratar-se de um ser humano enorme (filosoficamente).

    Se Vossa Excelência me permite, gostaria de saber qual seria seu posicionamento, como grande jurista que é, se os Delegados de Polícia, achando que suas funções são pouco nobres, pleiteassem que nos inquéritos policiais, após o relatório já oferecessem a denúncia? Mais ou menos como anseia a milícia estadual com o ciclo completo. E o senhor foi concorde conforme visto em vídeo nas redes sociais.

    Se o senhor, preparadíssimo e profundo conhecedor do sistema de justiça criminal, agasalha essa sanha que, sinceramente, só pode
    partir de pessoas que ingressaram na dita corporação equivocadamente, ou como dizem metaforicamente altíssimos mandatários, querem ganhar no tapetão aquilo que não foi possível por falta de qualificação escolar (ser portador do curso de bacharel em Direito), sinto que faltou ao então Presidente do Egrégio Tribunal de Justiça, melhores e maiores detalhamentos da situação da Segurança Pública em São Paulo.

    A Polícia Militar tem homens valorosos. Tem seus afazeres imprescindíveis para a manutenção da ordem pública. Quando não o faz, evidentemente que a polícia investigativa submerge num mar de notícias crimes que, infelizmente, não serão esclarecidas à míngua de recursos humanos.

    O senhor, caso queira se aprofundar no tema, procure saber os cargos vagos na Polícia Civil. Quanto cresceu a população do estado de 1970 para cá e quanto cresceu o quadro de policiais civis. O senhor, sensível, pode ir às lágrimas.

    Por derradeiro, deixo meu mais sincero voto de sucesso nessa nova empreitada, difícil, mas não para seres humanos com a magnitude de Vossa Excelência.

    Cordialmente

    Luiz Eduardo Pascuim

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