Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Não nos iludamos

2 Comentários

Costumava citar Georges Bernanos por uma frase que passei a repetir com frequência: não existe acaso nem coincidência. Eles fazem parte da lógica de Deus. É a fórmula como Deus surpreende os homens. Versão do conhecido brocardo “o homem põe; Deus dispõe” ou da sabedoria oriental: “os homens planejam e Deus apenas sorri…

Mas comecei a ler um livro panfletário, que Bernanos escreveu para denunciar os horrores da Guerra Civil Espanhola. Ele estava em Palma de Maiorca em 1936 e assistiu à crueldade com que agiam os partidários do Generalíssimo Franco, em busca de inimigos do regime.

Bastava mera suspeição e, sem qualquer distinção de idade ou classe, os apontados eram fuzilados e a seguir incendiados em grandes fossas, de preferência nas proximidades dos cemitérios. O ódio se alastrou e o grupo que era reduzido no início da “Cruzada” foi crescendo e ganhando em desenvoltura. Os relatos são impressionantes. A vida foi trivializada, desvalorizada, a humanidade regrediu séculos em alguns meses.

A observação arguta de Bernanos se espantou com a facilidade com que o denuncismo ganhou força e foi suficiente a uma execução sumária, com o beneplácito da Igreja, que viu nesse movimento uma nova “Cruzada”.

Já estávamos no século XX, para muitos o auge da civilização, com o aprimoramento da técnica, alicerçada em consistente domínio da ciência.

Mas o animal humano ignorou as expectativas e as profecias do planeta pacífico, após o flagelo da Primeira Grande Guerra Mundial e se portou de forma lastimável. A constatação de Georges Bernanos é atual e não pode ser datada ou esquecida. Não serviu apenas para a situação enfrentada pela Espanha, até hoje não resolvida, oitenta anos depois da carnificina.

É que, ao assistir o deplorável comportamento em relação aos conterrâneos, ele advertiu: “O mundo está maduro para toda forma de crueldade, assim como para toda forma de fanatismo ou superstição”. O homem não consegue conservar o controle de certas paixões, uma vez desencadeadas. Foi o que ocorreu, logo em seguida, com o Holocausto. É o que acontece, ainda hoje, com os cruentos episódios fratricidas em muitos lugares do globo.

O terror é a lei que vigora nesses verdadeiros surtos, dos quais não estamos livres no século XXI. A profecia patética não se esgotou com a II Grande Guerra. Ela continua e não há perspectiva alguma de que nos tenhamos livrado da insensatez e da loucura.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 07/02/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Não nos iludamos

  1. CARO DOUTOR NALINI !

    É deixar bem claro o seguinte: “com o beneplácito da Igreja Católica”. Essa “igreja” é responsável por tudo de ruim que ocorrem no mundo, ela é a causadora de de todas as religiões existentes no mundo, pois são todas filhas da grande prostituta profetizada no Apocalipse.

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