Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Beleza é sempre possível

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Além de ser fundamental, a beleza é sempre possível. Muitas vezes me indignei – e continuo a me indignar – com a indigência dos enormes conjuntos habitacionais resultantes das várias políticas públicas destinadas à moradia. Direito social explicitado na “Constituição Cidadã”. São casinhas pobres, de uma arquitetura pobre, como se o Brasil não fosse a terra dos Lúcio Costa, Niemeyer, Vilanova Artigas e Paulo Mendes da Rocha, entre inúmeros outros magos da prancheta.

Uma casa encostada na outra, sem jardim, sem horta, sem árvore. A população é condenada a uma promiscuidade geradora de conflitos. Não é decente morar tão próximo ao vizinho que todos os seus ruídos são compartilhados pelos residentes contíguos. Escrevi o livro “Direitos que a Cidade Esqueceu”, também pensando nessa deficiência na estratégia de dotar cada brasileiro de sua casa própria. Ela precisa ser feia, pobre, medíocre?

Não havia tomado conhecimento de que o tema foi encarado com seriedade pela arquiteta Elisabete França, que propõe uma arquitetura de ponta para pessoas de baixa renda. Como superintendente da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2005 e 2012, ela contratou 60 projetos de habitação social e urbanização de favelas, mas não repetiu a mediocridade rotineira.

Ela chamou, por exemplo, Ruy Ohtake, responsável por um conjunto de prédios circulares e coloridos na favela de Heliópolis. Ela encarou o óbvio: habitação social não precisa ser padronizada e com baixo investimento. Acreditou na possibilidade de diálogo entre os artistas e a comunidade interessada, pois há uma abissal diferença entre morar em má arquitetura pública e em boa arquitetura estatal.

Quando merece a atenção da administração pública, o morador se orgulha, resgata a autoestima, compreende o que é pertencimento, passa a cuidar da casa e do entorno. Aquilo que ela conseguiu fazer em São Paulo repercutiu no mundo e ganhou prêmios internacionais. Hoje ela empresta sua expertise aos alunos de Arquitetura e Urbanismo da FAAP e atua como professora de TFG-Trabalho Final de Graduação, no último ano do curso. Sua pregação deu resultados. Há muitos estudos dedicados à urbanização de favelas, habitações de interesse social, retrofits de prédios abandonados na região central. O ser humano tem direito à moradia. Mas ela não precisa ser necessariamente feia, pobre e padronizada.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 11/02/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

 

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Beleza é sempre possível

  1. Pleno de razão, nobre Secretário.

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