Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A inutilidade do saber

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O saber não ocupa lugar. Todos já ouvimos isso quando crianças. Por que aprender? Para enxergar melhor, para entender o mundo, para adquirir conhecimento, para não ser um autômato, um robô, um marionete. Mas há muita gente que considera inútil o aprendizado de alguma coisa que não resulte em rendimento. Nem tudo é dinheiro nesta vida. Tem de haver lugar para o prazer, para o deleite, para a busca gratuita, mas gratificante, da sabedoria.

O professor Nuccio Ordine, preocupado com a predominância do utilitarismo estrito, aquele que prega a valia exclusiva do que lucra e a vedação de tudo o que não produz dinheiro, escreveu um livro: “A utilidade do Inútil – Um Manifesto“. Entrevistado por Úrsula Passos (FSP 6.3.16), ele explica o motivo pelo qual o conhecimento pode ser uma resistência a essa visão utilitária que inibe a busca espontânea do saber. Há três motivos que justificam a utilidade do conhecimento considerado inútil: primeiro, é que com dinheiro se pode comprar tudo. Mas o conhecimento não. Depende da vontade e do esforço de quem quer conhecer. O segundo é que a cultura acrescenta algo a mais ao patrimônio intelectual de quem aprende. Quem compra troca o dinheiro pela mercadoria. “Mas, todos os dias, nas escolas do mundo todo, há um pequeno milagre. Posso ensinar sem perder o que ensino e, ao mesmo tempo, posso aprender com meus alunos“. O terceiro, quase consequência do segundo, é autoexplicativo por um eloquente, embora singelo exemplo: dois estudantes levam para a escola uma maçã e trocam entre si os frutos. Voltam para casa, cada um com uma maçã. Mas se cada qual sai com uma ideia e troca a sua com a do colega, voltarão com duas ideias cada qual.

A cultura é um bem que enriquece todos os protagonistas. Por isso o empenho do verdadeiro educador, no sentido de fazer com que a criança e o jovem aprendam com prazer, com alegria, com satisfação. Tenham noção de que estão a cada dia mais ricos, por conhecerem realidades que antes das aulas não conheciam. A educação brasileira não pode dispensar os mestres apaixonados. É a paixão que faz a professora permanecer no Magistério, a despeito das dificuldades e da falta de reconhecimento. Mas a obtenção desse reconhecimento deriva exatamente da boa formação do alunado, que saberá reconhecer o valor de quem abriu seus olhos e fez com que ele entendesse melhor o mundo e seus desafios.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 31/03/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “A inutilidade do saber

  1. Os que gostam de aprender e se motivam pela simples questão, aprender, tem a oportunidade de se tornarem empreendedores – Israel, pequenina como o é, tem o mesmo número de starts-up que a América – porque? porque além de uma altíssima qualidade de ensino, as pessoas gostam de aprender e porque gostam, tornam-se criativas.

  2. Eu entrei na faculdade de Direito e aprendi muitas coisas, para não acabar como marionete. Aprendi inclusive, que sendo uma pessoa que passou pela cirurgia de retirada de um órgão, o estômago, sou agora diferente das demais pessoas, seja pela ausência do órgão ou pelas modificações óbvias da perda. Entretanto, o Tribunal de Justiça parou no tempo ao se limitar ao Decreto 3.298/99 para enquadrar as pessoas deficientes, contrariando até a Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, dispositivo acima do referido Decreto. Para que serve o conhecimento,se acima deste está o PODER?

  3. Bom dia, Dr. Nalini, gostei no seu artigo a última parte, ou seja, “Mas a obtenção desse reconhecimento deriva exatamente da boa formação do alunado, que saberá reconhecer o valor de quem abriu seus olhos e fez com que ele entendesse melhor o mundo e seus desafios.” Eu sempre disse que se o professor formar um bom aluno, no futuro ele será um dos que valorizarão todo o trabalho dos educadores, ao passo que um aluno mal formado, mesmo que vença na vida, não dará o mesmo valor. Isso é essencial!

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