Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Líderes para o século XXI

A única certeza neste século é a incerteza. Não há prognósticos certeiros. Tudo pode ser inesperado. Além disso, o consenso único é a absoluta falta de consenso. Ninguém é o dono absoluto da verdade. Basta uma afirmação e a negação vem a galope. A juventude precisa estar preparada para o surpreendente, para o inesperado e para o incrível.

Em tal cenário, como formar lideranças capazes de assumir os desafios de uma sociedade cada vez mais complexa? O líder não é aquele que tem brilho e sedução e atrai, em virtude disso, uma legião a segui-lo. O líder é alguém intelectualmente preparado, provido de competência emocional e social, que cuida de sua saúde e que resolveu o problema da transcendência.

O preparo intelectual não é a coleta e memorização de informações. Saber procurá-las é mais estratégico do que decorá-las. O mundo hoje sofre de inflação de informações, algo tão nocivo ou até mais do que a falta de informações.

A aprendizagem pela ação é uma turbina de preparo. Enfrentar, ousar, por a mão na massa ou pisar o chão da fábrica. O mundo não é para os covardes.

Competência emocional é saber se relacionar com outras pessoas. O mundo é o espaço da diversidade. Ninguém é igual a ninguém. Nem mesmo os gêmeos univitelinos. Por isso, o treino para a compreensão e para a tolerância é fundamental. Se conseguir o cultivo da compaixão, melhor ainda. Entender o outro, suportar suas idiossincrasias. Aprender que todos somos incompletos e irritantes. Isso facilita a vida social. Além disso, nos torna mais humildes e pacientes.

Cuidar da saúde física e mental é imprescindível. Alimentação adequada, exercício físico e relaxamento. O corpo é uma máquina que precisa e merece cuidados especiais. O líder que perde a saúde por não saber trabalhar não tem verdadeira liderança.

Por último, o verdadeiro líder não tem problemas em relação à transcendência. Milita a sua crença, ou vive tranquilo na sua descrença.

O importante é saber responder: “Por que nasci? O que se espera de mim durante estas décadas que me foi dado viver? Para onde irei quando morrer?

Quem souber manejar essas quatro dimensões tem tudo para exercer saudável liderança. E o mundo precisa cada vez mais de líderes confiáveis.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 29/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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O que governa o mundo?

Para grande parte dos pensadores, o interesse é que governa o mundo. Mas há quem não pense assim. Shaftesbury, por exemplo, acredita que uma observação atenta descobrirá que paixão, humor, capricho, zelo, sectarismo e mil outras peças têm parte igualmente considerável nos movimentos do mecanismo.

Todas as ações da vontade têm causas particulares. Como identificá-las? A filosofia kantiana se baseava na convicção de que as ações humanas provinham de ponderação ética. A razão seria o instrumento de aferição entre os diversos sentimentos colidentes.

Já os chamados “filósofos da suspeita”, na linguagem de Luc Ferry, dentre os quais Nietzsche e Freud, adotam como princípio de análise o pressentimento de que, por trás das crenças tradicionais, que se pretendem nobres, puras e transcendentes, há sempre interesses escusos, escolhas inconscientes, verdades mais profundas e frequentemente inconfessáveis.

Na verdade, o ser humano só age por paixão. A razão seria escrava desse intenso sentimento que faz a roda do mundo girar. É o que se extrai de Rousseau, ao detectar que a vida em sociedade é o registro da busca de prover o necessário e então o supérfluo.

Em seguida vêm as delícias, depois a riqueza, os súditos, os escravos. Não há um momento de descanso. Quanto menos naturais e prementes as necessidades, mais aumentam as paixões e a vontade de satisfazê-las. Como se domestica uma paixão? Para Agostinho e Calvino, o Estado é o repressor das paixões. Mas como cumprir sua missão, se o governante é também movido por paixões? Reprimir paixões parte do pressuposto de que a ética se sobreponha aos impulsos. Por isso é que o Estado é impotente para reprimir os instintos, as paixões e os desvarios.

A alternativa é acreditar que a sociedade possa atuar como agente de transformação, como veículo civilizador, em lugar de ator da repressão. É por isso que a educação se torna o motor da conversão de uma coletividade movida por paixões, em uma sociedade que saiba se sacrificar para que o bem comum, o interesse coletivo ou a vontade da maioria seja respeitada.

Essa a crença que legitima a continuidade das políticas públicas: a fé, nem sempre inabalável, de que a sensatez prevaleça e afaste o descontrole, do qual só poderá resultar prejuízo para todos.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 26/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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O que se sabe?

No mundo das incertezas, há certezas incontestáveis. Uma delas a da relevância do professor. Carreira que persiste a despeito das dificuldades, mercê do verdadeiro heroísmo daqueles que se realizam ao transformar pessoas. O mestre é um artífice do futuro. Ele molda as crianças, fazendo com que elas explorem suas potencialidades e cresçam até à plenitude possível. Ao transformar as crianças, o professor transforma o mundo. A profissão professor é a mais prestigiada no Primeiro Mundo. Há uma disputa renhida pelas vagas na formação do Magistério. Um exemplo é a Finlândia, que descobriu há muito tempo que ser professor é a profissão do futuro. Pois o futuro depende apenas do conhecimento. E quem detém o conhecimento é o professor.

Mas é importante que o professor também se conscientize de que os tempos mudaram. E continuam a mudar, acelerada e permanentemente. Ele precisa mergulhar no fluxo de conversações para detectar o que a infância e a juventude melhor assimilam em nossos dias. Uma geração plugada, antenada às redes sociais, que já nasce com “chip“, necessita de uma atenção muito mais detida. O ensino já não pode ser a transmissão estática do conteúdo, mas é urgente fazer com que ele se conecte com a vida real. Daí pelo menos quatro eixos no ensino/aprendizado: aulas dinâmicas, com inovação, domínio de vários espaços ou dimensões e conexão com todos os conteúdos.

O presente reclama um ensino híbrido, mediante a resolução de problemas. Acabou-se a tranquilidade. A curiosidade é impulsiva, às vezes até agressiva. Há de se ter presente a urgência de se estabelecer diálogo proficiente entre mestre/aluno, mestre/família, mestre/sociedade, mestre/demais parceiros da educação. Os instrumentos de aprendizagem devem ser flexíveis e adaptáveis à mutação profunda com a qual nunca estivemos em contato tão direto como no nosso tempo. Mas é um tempo desafiador, estimulante e pródigo em surpresas, criatividade e empreendedorismo.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 26/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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A fábula das abelhas

Nossos dias se prestam à releitura de clássicos que, mesmo escritos há séculos, guardam pertinência com a situação brasileira. Foi em 1714 que o médico holandês Bernard de Mandeville escreveu sua “A fábula das abelhas, ou vícios privados, benefícios públicos”. É a metáfora à Inglaterra da época.

O escritor enxergou uma contradição no Reino Unido. O Império “onde o sol nunca se punha”, a nação hegemônica em economia e poderio naval, era pátria de um povo insatisfeito. Havia uma cobrança pela ética, pela solidariedade, pela fraternidade esgarçada.

Comparou a Inglaterra a uma colmeia bem sucedida. Pujante, próspera e bem governada. Invejada e copiada por outras colmeias. Não faltavam empregos, mas as abelhas não estavam contentes.

Embora boa parte delas fosse egoísta, corrupta e aproveitadora, todas elas eram míopes. Não conseguiam enxergar que o esplendor econômico da colmeia resultava de seus vícios e taras.

Clamavam por uma sociedade liberta de vícios. Tanto insistiam que Júpiter acaba por perder a paciência e as atende. Expulsa a má-fé, a hipocrisia e toda sorte de vícios de suas vidas.

A consequência inicial é um sentimento compartilhado de vergonha. Qual Eva e Adão surpreendidos a desobedecer ao Criador, cada abelha reconheceu o seu passado condenável. Sabia de seus erros e defeitos. A conversão resultou em uma verdadeira revolução.

Devedores pagaram suas dívidas, ofensores pediram perdão, ladrões devolveram o produto do furto ou roubo. Então esvaziam-se os tribunais. Sem clientela, a advocacia desaparece. A inveja, a cobiça, a traição e a maledicência somem. Já não são necessárias as terapias e seus profissionais ficam desempregados.

Sem corrupção, a política se reduz a quase nada. O consumo é desestimulado. A iniciativa privada se ressente. Há uma depressão generalizada: queda sem precedentes na economia e pasmaceira existencial.

Moral da história: é impossível usufruir do conforto do capitalismo e preservar inocência e pureza.

Riqueza e virtude seriam incompatíveis? Como é que Mandeville aplicaria a fábula a um país onde a riqueza do povo minguou e os maus exemplos continuaram a florescer?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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A Igreja do diabo

É o nome do conto que Machado de Assis escreveu há 132 anos e narra a intenção do demônio de ter também uma Igreja. Ressentido quanto à multiplicação de templos, todos eles voltados à latria, pensou que o grupo dos já por ele conquistados poderia cultuar o Príncipe das Trevas.

Foi conversar com Deus a respeito. Pedir licença, pois não desconhece quem é que manda. Volta à Terra e começa a arrebanhar os que preferem exatamente o inverso das virtudes cristãs. “Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas e, assim, também a avareza”. Enfim, tudo ao contrário do que prega o catecismo.

Havia um lugar muito especial para a fraude. Para o diabo, enquanto o braço direito do homem é a força, seu braço esquerdo é a fraude. E há muitos canhotos no mundo!

Antecipando-se quase século e meio de uma situação lamentável, porém aparentemente entranhada nos hábitos humanos, o “bruxo do Cosme Velho” relata como é que o demo enxerga a venalidade. A venalidade é o exercício de um direito superior a todos os direitos. “Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?

O diabo fez funcionar sua Igreja e a ela aplicou toda a sua inteligência e todo o seu empenho. Não são poucos. Afinal, ele é príncipe das milícias celestes, embora expulso do Paraíso. Sua maior façanha é fazer a humanidade acreditar que ele não exista.

Só que ele se frustrou. Alguns de seus fiéis continuavam, às escondidas, a praticar as virtudes cristãs. Foi reclamar a Deus, que respondeu: “Que queres tu, meu pobre Diabo? É a eterna contradição humana!

Graças a isso, ainda existem políticos honestos, pessoas idealistas, desapegadas e generosas. Desistam os maledicentes, pois a humanidade é assim mesmo: heterogênea, complexa, mesclada de todos os matizes.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 19/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Juízo e solidariedade

A crise que o Brasil atravessa era previsível. Dentro e fora do País ela foi reiteradamente anunciada. Quem se detiver a ler dois livros importantes, verá que todos os avisos foram endereçados, mas não foram ouvidos. Francis Fukuyama, o historiador que anunciou “o fim da História“, coordenou a obra “Ficando Para Trás – Explicando a Crescente Distância entre a América Latina e os Estados Unidos“. Foi publicada em 2008, no auge da crise que afetou o Império hegemônico do norte.

Talvez a explicação esteja na origem. Os “quakers“, quando deixaram a Inglaterra e foram para a América, levaram os ossos dos antepassados e a vontade de criar uma Nação. O Brasil sempre foi um quintal de onde tudo se extraiu, nada se trouxe. Foi um acaso histórico o corretor de rumos: a Corte Portuguesa teve de fugir de Napoleão e se instalou na Colônia em 1808. Mas àquela altura, havia Universidades em toda a América espanhola e o Brasil não podia ter ensino superior. Nem gráficas, nem imprensa. Mentalidade colonial se manteve no decorrer dos séculos. Tudo tem de vir da metrópole. Não há iniciativa, não há empreendedorismo, não há vontade de mudar. O hábito é exigir que a metrópole atenda às reivindicações e reclamos.

O outro livro é “Por que as Nações Fracassam“, de Daron Acemoglu, do MIT – Massachusetts Institute of Technology. Para que um país se desenvolva, ele precisa de instituições de elevadíssima qualidade, assim como a educação. Precisa de cidadania, que não é apenas ter direitos, mas assumir deveres e obrigações. Precisa de empreendedorismo e a burocracia estiolante inibe quem quer investir no Brasil. Tudo é difícil, tudo é complicado, a lei parece ter sido elaborada para criar dificuldades e a presunção é de má-fé, embora o ordenamento diga exatamente o contrário. Mais do mesmo não vai resolver. O momento é de reflexão, de sensatez, de muito juízo e de solidariedade em relação aos milhões de desempregados, sem perspectiva e sem esperança. Muita angústia ainda no horizonte, antes de iniciarmos o caminho de volta, rumo ao Brasil com que sonhamos.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 19/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Máquina de demolir

A humanidade nem sempre segue a racionalidade. No afã de obter êxitos materiais, agarra-se a uma equivocada noção de progresso. Tudo o que o dinheiro conseguir comprar está à venda. Sacrificam-se os valores, a cultura, os bens intangíveis destruídos pela sanha demolitória.

Não é apenas a demolição física. Esta prossegue com tenacidade. O Brasil não respeita sua jovem História. As cidades perdem seus parâmetros, suas referências afetivas, seus marcos tradicionais. Para quem sepultou riachos, córregos e matou três grandes rios, o que significam edificações de alvenaria? A pior é a demolição moral. A incivilidade é a marca da postura contemporânea. Maus modos, rispidez, grosseria, falta de compostura. Em setores que deveriam funcionar como paradigmas.

Descrença generalizada, acintes, ofensas e maledicência. Presunção de má-fé, enquanto o discurso e o ordenamento prestigiem formalmente a boa-fé. O inocente é sempre chamado a fazer a “prova diabólica”: provar que não fez. Que não é o responsável por aquilo de que o acusam. O lamaçal ético não respeita ninguém. Bons e maus, honestos e corruptos, todos são atingidos.

Mas tudo tem um termo. Nada dura para sempre. O Evangelho, na sua sabedoria, consagra a lição de que há tempo para nascer e tempo para morrer. E o vendaval que sacudiu as estruturas morais da Nação tende a serenar. Uma pena que deixe rastros e dores em muitos e, principalmente, na alma cívica do brasileiro.

Lendo um dos ensaios do historiador e jornalista Tony Judd, que faleceu em 2010, encontro um trecho eloquente: “O medo é um ingrediente que vem ressurgindo na vida política das democracias modernas. Medo do terrorismo, é claro; mas também, e talvez mais insidiosamente, medo da velocidade incontrolável das mudanças, medo do desemprego, medo de perder espaço para outros numa disputa em meio a uma distribuição cada vez mais desigual de recursos, medo de que cada um perca o controle das circunstâncias e rotinas de sua vida diária”.

Viver com medo é morrer em vida. Deus nos livre do temor e nos dê coragem para enfrentar os próximos tempos, nada alvissareiros, nada promissores.
Resistamos à máquina de demolir nossa moral, pois vida sem moral não é digna de ser vivida.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 15/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.