Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Bela colheita

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O filósofo polonês Leszek Kolakowski (1927-2009) era um pensador que levava o mal extremamente a sério. Concluiu que Marx se baseara numa premissa equivocada ao acreditar que todas as limitações humanas tinham suas raízes nas circunstâncias sociais. Ao contrário, Marx havia “negligenciado totalmente a possibilidade de que algumas fontes de conflito e de agressão pudessem ser inerentes às características permanentes da espécie”.

Em 1987 fez uma palestra em Harvard, num evento realizado logo após a publicação de sua obra “Principais correntes do marxismo”. O título da conferência era “O demônio na História”. Houve um afluxo enorme de interessados. Todos queriam ouvir sua voz e assistir ao vivo o espetáculo de ironia e consistente argumentação. Pensavam que o título da fala era metáfora. Mas não era: ele falou, exatamente, do papel do demônio na História.

O demônio, o diabo, Satã, Lúcifer, o “maldito”. O Príncipe das Trevas, expulso do Paraíso e, desde então, ceifando almas que pensam que ele não existe. Para Kolakowski, “o mal não é contingente, mas um fato obstinado e incontornável”. E o mal inexplicável é a empresa do demo. Faz bela colheita nestes tempos.

Muitos dos acontecimentos chocantes, inacreditáveis, que fazem desacreditar da racionalidade humana, para Kolakowski são típica produção demoníaca: “o demônio é parte da nossa experiência. Nossa geração viu o suficiente dele para levar extremamente a sério a sua mensagem”.

É óbvio que essa vertente da personalidade de Leszek Kolakowski não foi explorada, nem nos substanciosos necrológios publicados quando de sua morte, aos 81 anos. Para Tony Judt, “não é de surpreender. A despeito do fato de que grande parte do mundo ainda acredita num Deus e pratica a religião, intelectuais ocidentais e comentaristas públicos dos dias de hoje não se sentem à vontade com a ideia de uma fé revelada.

A discussão pública do tema se coloca de forma desconfortável entre uma negação excessivamente autoconfiante (Deus com certeza não existe e, de qualquer maneira, é tudo culpa Dele) e lealdade cega. Que um intelectual e erudito do calibre de Kolakowski tivesse levado a sério não apenas a religião e as ideias religiosas, mas o próprio demônio, é um mistério para muitos dos leitores que, apesar disso, o admiravam, sendo algo que preferiam ignorar”. E você, o que acha?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 01/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Bela colheita

  1. Acompanho as publicações de Dr. Renato há alguns anos. Tanto que mantenho um arquivo exclusivo com o seu nome, para me deliciar com a leitura das suas verdades, sempre que preciso de introspecção.
    Sou sua fã pelo que pensa e age. Pela sua ética, pela sua fé, pela sua conectividade ao construir tantas pontes, pela sua simplicidade sendo tão nobre e Excelentíssimo.

  2. Três táticas do pai da mentira: negar a existência de Deus, negar o amor de Deus e negar sua própria existência.

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