Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A Igreja do diabo

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É o nome do conto que Machado de Assis escreveu há 132 anos e narra a intenção do demônio de ter também uma Igreja. Ressentido quanto à multiplicação de templos, todos eles voltados à latria, pensou que o grupo dos já por ele conquistados poderia cultuar o Príncipe das Trevas.

Foi conversar com Deus a respeito. Pedir licença, pois não desconhece quem é que manda. Volta à Terra e começa a arrebanhar os que preferem exatamente o inverso das virtudes cristãs. “Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas e, assim, também a avareza”. Enfim, tudo ao contrário do que prega o catecismo.

Havia um lugar muito especial para a fraude. Para o diabo, enquanto o braço direito do homem é a força, seu braço esquerdo é a fraude. E há muitos canhotos no mundo!

Antecipando-se quase século e meio de uma situação lamentável, porém aparentemente entranhada nos hábitos humanos, o “bruxo do Cosme Velho” relata como é que o demo enxerga a venalidade. A venalidade é o exercício de um direito superior a todos os direitos. “Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo?

O diabo fez funcionar sua Igreja e a ela aplicou toda a sua inteligência e todo o seu empenho. Não são poucos. Afinal, ele é príncipe das milícias celestes, embora expulso do Paraíso. Sua maior façanha é fazer a humanidade acreditar que ele não exista.

Só que ele se frustrou. Alguns de seus fiéis continuavam, às escondidas, a praticar as virtudes cristãs. Foi reclamar a Deus, que respondeu: “Que queres tu, meu pobre Diabo? É a eterna contradição humana!

Graças a isso, ainda existem políticos honestos, pessoas idealistas, desapegadas e generosas. Desistam os maledicentes, pois a humanidade é assim mesmo: heterogênea, complexa, mesclada de todos os matizes.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 19/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “A Igreja do diabo

  1. Engenhosa lembrança de um conto do “bruxo de Cosme Velho”. Parabéns, Secretário.

  2. A genialidade de Machado de Assis ainda me espanta.

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