Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A fábula das abelhas

3 Comentários

Nossos dias se prestam à releitura de clássicos que, mesmo escritos há séculos, guardam pertinência com a situação brasileira. Foi em 1714 que o médico holandês Bernard de Mandeville escreveu sua “A fábula das abelhas, ou vícios privados, benefícios públicos”. É a metáfora à Inglaterra da época.

O escritor enxergou uma contradição no Reino Unido. O Império “onde o sol nunca se punha”, a nação hegemônica em economia e poderio naval, era pátria de um povo insatisfeito. Havia uma cobrança pela ética, pela solidariedade, pela fraternidade esgarçada.

Comparou a Inglaterra a uma colmeia bem sucedida. Pujante, próspera e bem governada. Invejada e copiada por outras colmeias. Não faltavam empregos, mas as abelhas não estavam contentes.

Embora boa parte delas fosse egoísta, corrupta e aproveitadora, todas elas eram míopes. Não conseguiam enxergar que o esplendor econômico da colmeia resultava de seus vícios e taras.

Clamavam por uma sociedade liberta de vícios. Tanto insistiam que Júpiter acaba por perder a paciência e as atende. Expulsa a má-fé, a hipocrisia e toda sorte de vícios de suas vidas.

A consequência inicial é um sentimento compartilhado de vergonha. Qual Eva e Adão surpreendidos a desobedecer ao Criador, cada abelha reconheceu o seu passado condenável. Sabia de seus erros e defeitos. A conversão resultou em uma verdadeira revolução.

Devedores pagaram suas dívidas, ofensores pediram perdão, ladrões devolveram o produto do furto ou roubo. Então esvaziam-se os tribunais. Sem clientela, a advocacia desaparece. A inveja, a cobiça, a traição e a maledicência somem. Já não são necessárias as terapias e seus profissionais ficam desempregados.

Sem corrupção, a política se reduz a quase nada. O consumo é desestimulado. A iniciativa privada se ressente. Há uma depressão generalizada: queda sem precedentes na economia e pasmaceira existencial.

Moral da história: é impossível usufruir do conforto do capitalismo e preservar inocência e pureza.

Riqueza e virtude seriam incompatíveis? Como é que Mandeville aplicaria a fábula a um país onde a riqueza do povo minguou e os maus exemplos continuaram a florescer?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/05/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “A fábula das abelhas

  1. Boa tarde, Prezado Professor e Dr. José Renato Nalini, que excelente análise, embora deveras estarrecedora, da nossa condição capitalista, onde a moeda determina o nosso comportamento. Parabéns!

  2. Não digo sobre o capitalismo em seu sentido técnico, mas tenho a certeza de que a moeda de troca ou a troca valorada feita na maneira de escambo remonta as nossas origens, a posse de aptidões individuais e a possibilidade de sua permuta ou compartilhamento para o progresso comum, não tenho duvidas mostra a maior aptidão do homem para seu progresso; Assim, de outra forma não consigo compreender a realidade pratica do comunismo, a não ser pela grave crise de um momento historio bastante particular e peculiar na historia da humanidade, afinal o comunismo achata o coletivo, em prol do estado soberano e opressor que garante a igualdade pela base, porem garantindo a sua sobrevivência e certa paz ao animo de acirramento garantido aqueles que progridem nos escalões dos cargos estatais. Porém novas aventuras se apresentam na historia do homem: Quem diria por exemplo que a informática, suas interfaces de contato e comunicação, seriam até mais importantes para o desenvolvimento nacional do que o petróleo ? Mesmo assim ainda não soubemos a dar garantias e tratamentos individualizados a cláusulas pétreas com a saúde, a educação, a previdência, e passamos a entender certas empresas como se fossem organismos estatais, e estas empresas devem ser cobradas para que auxiliem no desenvolvimento porque muitas vezes praticam atos como maquinas capitalistas prejudicando o próprio sistema responsável pela sua manutenção.

  3. Sabe Renato,ainda somos uma jovem nação sofrendo as dores do aprendizado. Nossa cultura foi herdada de nossos colonizadores portugueses que na época eram o reino mais atrazado da Europa.O patrimonialismo era lugar comum como é entre nós até hoje. Mas estamos dolorosamente aprendendo e creio que vamos melhorar a partir das próximas eleições. Grande abraço e sucesso em seus novos e desafiadores caminhos.

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