Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Grande lata de lixo

1 comentário

As cidades contemporâneas se converteram numa enorme lata de lixo. A metáfora é de Zygmunt Bauman, o filósofo da sociedade líquida, em que tudo o que era sólido se liquifez. Um dos exemplos é a migração em massa, fenômeno global causado por forças globais.

Não foram os prefeitos que criaram esse movimento de pessoas em busca de pão, teto, água limpa e emprego. As pessoas foram postas em movimento pelo impacto de forças globais. Estas é que as privam de seus meios de subsistência e as obrigam a deslocar-se ou morrer.

É um problema imenso. Todo planejamento é posto por terra. A imprevisibilidade, a improvisação, a falta de estrutura e de condições para atender à demanda crescente e cada vez mais revoltada. A causa é global, nenhum o controle do prefeito sobre a movimentação. Mas o problema tem de ser resolvido, para o melhor ou para o pior, no local.

A total ausência de planejamento fez com que as cidades brasileiras fossem caóticas. Cresceram como enfermidade. Atingiram a metástase. E a indignação encontra como alvo o exercente de função pública. Geram o fenômeno da antipolítica, uma espécie de rejeição e náusea perante um relacionamento fragmentado. Constata-se verdadeira aversão da cidadania pela política.

Só que a rejeição à política é perigosa. Ela pode resultar em populismo e nacionalismo, que sujeitam a sociedade cidadã aos mais devastadores desvios. A partir da rejeição da política – campo minado, refúgio de gente pouco séria, coisa suja – não é raro surgir a exaltação de figuras carismáticas e capazes de atrair a atenção e a afeição das massas.

Justifica-se a invocação a um homem forte, suficientemente apto a assumir a desencorajadora tarefa de endireitar as coisas. A História mostra que sempre há um homem providencial pronto a intervir quando a relação entre o Estado e a cidadania está deteriorada.

Isso é o que Zygmunt Bauman detecta: os laços entre o Estado e o cidadão são enfraquecidos, a sociedade perde coesão e se torna líquida. Ouvem-se os ecos do fim do Estado. Há uma perda dos vínculos sociais. Cresce o desânimo, o desalento e a falta de esperança.

Não é missão apenas dos que estão na política partidária reforçar valores e mostrar caminhos. É questão de sobrevivência da civilização. Há sinais perigosos no horizonte. Quem duvida disso?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 05/06/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Grande lata de lixo

  1. Realmente, Secretário, é uma questão de sobrevivência da civilização. Parabéns pelo excelente texto.

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