Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Últimos desejos

2 Comentários

Lucy e Paul se conheceram no primeiro ano de Medicina em Yale. Ele era um dos melhores alunos da classe e, há quinze anos, já se interessava por bioética e pertencia a um grupo de estudos dedicado a esmiuçar o tema e suas perspectivas. Paul era tão admirado, que uma rifa com finalidades filantrópicas incluiu como prêmio um encontro com ele. Quem ganhou a rifa? Lucy, é claro.

Apaixonaram-se e se casaram. Eles terminaram a medicina e trabalhavam juntos. Paul se tornou residente-chefe no hospital da Universidade Stanford.
De repente, ele descobriu estar com câncer, que afeta 0,0012% das pessoas com sua idade: 36 anos. Foi aí que acordou para a insuficiência das estatísticas.Mandou um e-mail para o melhor amigo, contando estar com câncer terminal no pulmão. “A boa notícia é que já vivi mais que Emily Brontë, John Keats e Stephen Crane; a má notícia é que não escrevi um livro nem tenho um filho”.

Houve tempo suficiente. Eles encomendaram Cady, que nasceu antes do pai morrer. Ele escreveu o livro, chamado “O último sopro de vida”, cujos direitos já foram vendidos para mais de dez países e no Brasil foi editado pela Sextante.
Não parou de escrever, depois de ter conhecimento da enfermidade. Em janeiro de 2014, publicou no “New York Times” um artigo em que contava sua epopeia e indagava: “Quanto tempo ainda tenho?” Não sabia, mas contava com mais catorze meses.

Nos últimos trechos, tinha de usar luvas para digitar no laptop, já na cadeira de rodas. Pois a quimioterapia rachara suas impressões digitais. Sempre manteve a esperança, palavra que “surgiu na língua inglesa cerca de mil anos atrás, denotando uma combinação de confiança e desejo. Mas o que eu desejava (viver) não era aquilo sobre o que eu estava confiante (morrer)”, escreve ele.

A jovem viúva continua a exercer a medicina no mesmo hospital, conciliando a vida profissional com os cuidados devotados à filha e constantemente respondendo a mensagens dos leitores do livro, que se emocionam com o relato e querem saber mais detalhes sobre o jovem neurocirurgião que gostava de biologia, bioética e filosofia. Lucy perguntou a Paul Kalanithi – este o seu nome, da etnia hindu – “Você acredita em Deus?” Ele respondeu ser o mesmo que acreditar no amor. A resposta, para ambas as questões, “sempre seria sim”.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 09/06/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Últimos desejos

  1. SIM, obrigada pela poesia de seu texto. Abraço

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