Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Todos pela educação

Venho repetindo, qual mantra, que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade. O apelo destinado àqueles que ainda não participam desse projeto de Nação é para que se conscientizem de que sem educação o Brasil não se desenvolverá. Educação consistente, bem planejada e melhor executada.

Já existem passos importantes que a sociedade civil ofereceu à causa. Um deles é o movimento “Todos pela Educação”, fundado em 2006, cuja missão é contribuir para que até 2022, ano do bicentenário da Independência, o País garanta Educação Básica de qualidade para todas as crianças e jovens. Congrega pessoas de bem e de boa-fé. Apartidário, plural, despertou o interesse daqueles que podem e sabem fazer a diferença.

Produz conhecimento, fomenta e mobiliza. Desenvolve três áreas que funcionam de maneira interligada e complementar, baseada em cinco metas, cinco bandeiras e cinco atitudes. Mencionemos brevemente o conteúdo das cinco atitudes, das cinco metas e das cinco bandeiras.

As cinco atitudes são: 1) valorizar os professores, a aprendizagem e o conhecimento; 2) promover as habilidades importantes para a vida e para a escola; 3) colocar a educação escolar no dia a dia; 4) apoiar o projeto de vida e o protagonismo dos alunos; 5) ampliar o repertório cultural e esportivo das crianças e jovens.

As cinco bandeiras: a) melhoria da formação e carreira do professor; 2) definição dos direitos de aprendizagem; 3) uso pedagógico das avaliações; 4) ampliação da oferta de Educação Integral; 5) aperfeiçoamento da governança e gestão.

E as cinco metas: 1) toda criança e jovem de 4 a 17 anos deve estar na escola; 2) toda criança tem de estar plenamente alfabetizada até os 8 anos; 3) todo aluno precisa estar com aprendizado adequado ao seu ano; 4) todo jovem de 19 anos tem de estar com o Ensino Médio concluído; 5) investimento em Educação ampliado e bem gerido.

O importante do “Todos Pela Educação” é que todos, sem exceção, podem colaborar com essa verdadeira cruzada que, bem-sucedida, mudará o destino das crianças e, ao obter esse resultado, mudará os destinos da Nação. O Brasil precisa do trabalho, do esforço, do sacrifício e, principalmente, do carinho de todos.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 27/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

 


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Ainda existe poesia

Antigamente as crianças aprendiam a declamar. Não havia apresentação escolar ou mesmo festa de família em que alguém não fosse chamado a recitar poesias. Eram comuns até mesmo as grandes declamadoras, matronas que mereciam aplausos em solenidades e que encantavam as plateias com sua verve, impostação, capacidade mnemônica e talento.

Poesias havia que arrancavam lágrimas. Outras produziam risos. Os poemas líricos e idílicos provocavam suspiros. Em síntese, a poesia habitava todos os lares. Era um sinal de distinção saber declamar. E não eram apenas as meninas. Jovens rapazes também se esmeravam ao decorar peças de bastante dificuldade e que reproduziam na inteireza, sem titubear, sem hesitar, sem olvidar qualquer parte do texto.

Naquele tempo não havia televisão, nem internet, nem redes sociais. Foram elas que sepultaram a poesia? Não. Por incrível que pareça, a poesia não morreu. Ela continua a existir. Primeiro, porque a beleza ainda tem lugar no coração dos homens. Segundo, porque poesia é um jorro incessante e insuscetível de paralisação, desde que surja numa alma sensível. Se possível, apaixonada.

É saudável constatar que em alguns nichos ela continua presente. Clubes de poesia, Casas de Poetas, Movimentos poéticos ainda congregam abnegados que escrevem e declamam e publicam. E não se recusam a prestigiar espaços onde a poesia é bem recebida e pode se abrigar.

Como seria bom que todos os pais incentivassem seus filhos a ler poesia, a declamar poesia e a escrever poesia.Como seria maravilhoso se todos os professores se empenhassem na disseminação de uma cultura poética, a celebrar os grandes nomes da poesia universal, que merecem cultivo, reverência e honras. E que se cuidasse de semear a imaginação para que novos poetas germinassem desse encontro mágico entre a poesia e seu amante.

O mundo ganharia colorido, seria mais terno e amorável, se a ira cedesse o seu lugar para uma poesia. Romântica, Épica, Folclórica, Histórica, Política, Étnica. Ou poesia sem qualificação. Mera poesia. Poesia mesmo. O mundo precisa de mais poesia e de menos incompreensão.

De mais amor, menos violência. De esperança, não de desalento. A poesia é remédio para o mal-estar civilizatório que angustia a todos e que dá a sensação de que a humanidade regrediu e menospreza o grau civilizatório que tanto demorou a conquistar.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

 


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Lâmpada mágica ao alcance de todos

Todos conhecem a estória de Aladim e sua lâmpada mágica, a atender desejos que estão na inconsciência coletiva de todos os tempos. Há inúmeras versões dessa fábula que nos transporta à concretização de sonhos utópicos ou considerados impossíveis. Mas é bom lembrar que nem sempre tais anseios estão efetivamente distanciados da realidade. Existem algumas “lâmpadas mágicas” acessíveis, disponíveis e ao alcance de quem tiver vontade de realizar projetos aparentemente difíceis.

Uma delas é o aprendizado do inglês. Pesquisas mundiais mostram que a proficiência em inglês significa 57% mais possibilidade daquele bom emprego, disputado por muitos e alcançado por poucos. Na Índia, os cursos de inglês atingem grupos de um milhão de pessoas! Para o brasileiro que está a estudar, nos três níveis de ensino, a questão de escala é muito séria. Aproximamo-nos de 50 milhões de estudantes. A Secretaria Estadual de Educação paulista está empenhada em disponibilizar o inglês para toda a sua rede, inclusive para os profissionais de ensino, pois há uma profusão de métodos exitosos para facilitar o ensino e o aprendizado da língua de Shakespeare. Mas também o idioma de Faulner, de Whitman, de Poe, de Bob Dylan, do Sting, da Madonna, de Elton John e outros stars bem conhecidos pela juventude brasileira.

Cumpre investir em escala, multiplicando as fórmulas de aprendizado, inclusive com a intensificação do uso do EAD – Ensino à Distância. Favorecer a divulgação do idioma através de projeção de filmes, concursos de redação, de poesia e de música, intensificar a conversação, e também coibir o “stop and go”, ou seja, o começa e para, tão comum para quem inicia um percurso rumo ao domínio de outra língua. O importante é que na rota de construção de um Brasil mais rico e mais integrado ao mundo civilizado, o inglês é um companheiro inseparável das novas gerações. É a chave que abre o mundo a esplêndidas oportunidades de um futuro prazeroso. É nossa “lâmpada de Aladim” movida a entusiasmo, esforço e vontade firme.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 24/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Horizonte infinito

A educação é a principal questão brasileira. Se enfrentada com clareza, coragem e objetividade, a maior parte dos problemas que afligem a Nação teria sido solucionada. Educação integral reduz a violência. Alguém civilizado não se torna santo, mas ao menos desenvolve freios inibitórios que geram convívio formalmente polido. A redução da violência retrairia o ritmo crescente na edificação de presídios e de estabelecimentos destinados à recuperação de menores infratores.

Educação melhora a saúde. Quem estiver preparado saberá prevenir males evitáveis, cuidará do corpo e da mente. Não serão necessários tantos hospitais, unidades de atendimento, pronto-socorros e similares.

O trânsito flui melhor com pessoas educadas. Não estou dizendo “escolarizadas”, mas formadas em sensatez, prudência e sensibilidade. O meio ambiente ganhará parceiros conscientes. O território minado da política partidária, hoje tão desacreditado, ganhará consistência. Uma boa educação cuidará de oferecer à nacionalidade uma cidadania pronta a assumir seus deveres e, portanto, muito mais apta a participar da missão de edificar a Pátria justa, fraterna e solidária prometida pelo constituinte de 1988.

Educar no século XXI é muito mais do que propiciar vagas em escolas. A universalização no acesso à educação formal praticamente foi atingida. Todavia, resta enorme caminho a percorrer, até se faça da escola – de todas as escolas – o ambiente de aprendizado de vida.

Não basta – embora necessário – transmitir conhecimento à infância e à juventude. A cultura acumulada em milhões de anos da História nunca esteve tão disponível e acessível. O notável e surpreendente avanço das tecnologias da comunicação e informação tornaram o mundo um objeto a ser apropriado por todo aquele que tiver interesse, curiosidade intelectual e acesso a qualquer dessas bugigangas eletrônicas disponíveis: Iphone, tablet, computador, e o que mais vier.

Educar significa habilitar o ser educando a se servir do acervo de informações de maneira a tornar sua vida prazerosa, além de propiciar a ele o sustento próprio e daqueles sob sua dependência.

Quem se devota à educação o faz por amor, senão a tarefa é insuportável. Mas a paixão pelo ensino implica em sacrifícios. É preciso estar alerta para as profundas mutações por que passa o mundo. Em todos os setores, mas, principalmente, no âmbito dos valores.

A circuitaria neuronal das novas gerações é digital, enquanto aquela da maior parte dos profissionais da educação ainda continua analógica. Isso cria um descompasso que só pode ser superado com enorme esforço.

Algo que o educador tem de ter em mente é o de que não se pode prever como será a escola daqui a 20 anos. Só se pode garantir que não será como a escola de hoje.

Grande número de profissões que ainda constam do cardápio oferecido ao alunado está em processo de extinção. Estamos formando profissionais para misteres que ainda sequer têm nome. Daí o incremento em alavancar competências não apenas cognitivas, mas também socioemocionais. Quem se conhece bem pode avaliar as condições ideais para se relacionar com o próximo, intensificar as relações com a natureza e enfrentar a questão da transcendência. É preciso encontrar respostas para o inesperado, para os desafios e para a incontornável necessidade de mudar de rumo quando o panorama o exigir.

Se as incertezas estão em cada curva, o convite a encará-las e superar as dificuldades é estimulante. Vive-se uma era cujo signo é a velocidade e a obsolescência. Ambas nos atropelam. Mas sobreviver com esperança é o que nos mantêm animados e a caminho de um horizonte sedutor e infinito.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 18/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Tem de ser ousado

A reforma política é a mais urgente deste País. Não é possível contar com quase quarenta partidos, todos eles dependendo do Fundo Partidário, num momento em que há milhões de desempregados e outros milhões que já deixaram de procurar emprego. Acomodaram-se em casa de parentes – o fenômeno da “volta ao ninho”: filhos separados retornam ao convívio dos pais. Ou passaram para a informalidade.

Segundo consta, o Fundo Partidário era de R$ 300 milhões enquanto as empresas podiam doar. Passou a R$ 900 milhões neste período em que se vedou a contribuição empresarial, pois ela teria alimentado propinodutos e outros ilícitos. Para o ano que vem, pensa-se em algo como R$ 2 bilhões e 700 milhões. O Brasil aguenta esse custeio?

Além da cláusula de barreira, da vedação à reeleição, da adoção do voto distrital misto, seria muito interessante se permitisse a eleição avulsa. Aquela que dispensasse filiação a partido político. Mas essa ideia é uma utopia. A nossa política não permitiria a participação de “outsiders”. Outras ideias podem ser postas em prática e acredito que representariam economia real.

As eleições representam um dispêndio considerável. Convocação de inúmeras pessoas – alguns milhões – para os serviços de preparação e para o funcionamento das zonas eleitorais no dia reservado à coleta da opinião do eleitorado. É preciso transportar e alimentar estes que prestam serviço gratuito. Os dias seguintes são de folga para quem trabalhou. Como não há almoço grátis, alguém paga a conta. Como é o povo que paga a conta do “Programa Eleitoral Gratuito”. Gratuito para quem, cara pálida? As concessionárias de TV e rádio têm custos. É o governo que paga ou deixa de ganhar, abatendo da tributação que recai sobre essa atividade lucrativa.

Seria interessante converter o voto obrigatório em facultativo. De certa forma, ele já é. Qual o número de votos em branco e nulos somados às abstenções? Basta somar para verificar a representatividade de quem não quis opinar. Além disso, o voto poderia ser exercido pela internet, sem necessidade de locomoção do eleitor até a zona eleitoral. Já existe tecnologia suficiente. E se nós acreditamos na presunção da boa-fé, como o ordenamento prevê, por que desconfiar que haveria fraude?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 20/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Quem escapará da surdez?

Em boa hora se deliberou multar quem produz som excessivo em seu veículo, fenômeno quase corriqueiro nesta era de incivilidade crescente. O som subiu de tom nos últimos tempos. Em todos os lugares. Até em casamentos requintados, chega a hora do “bate-estaca” e que eu chamo de “despedida dos idosos”. Ninguém consegue conversar e aquela percussão que reverbera no tórax deixa um desconforto atroz.

E o que dizer dos “pancadões”, em que o ruído seja a revolta da moral pelo que ali se pratica? O fato é que formaremos gerações de surdos diante da imprudência de se elevar o volume de tudo, como se os tímpanos fossem de metal ou qualquer outro material resistente.

A infância também sofre as consequências desse descaso. Em São Paulo, o programa “Psiu” praticamente sumiu. E é comum nas famílias e na escola, verificar que mais pessoas têm dificuldade de escutar direito. Essa dificuldade pode ser a de saber de onde vem um som, em decorar uma sequência de sons, em diferenciar sons parecidos, em lembrar instruções, em apreciar música, aprender outra língua e dificuldade em concentrar-se. Há quem demore para entender o que é dito e o que está escrito, compreender o que uma pessoa fala quando há outros sons simultâneos, ou a pessoa fala muito depressa ou existem outros falando por perto. Isso é sintoma de dificuldade de processamento auditivo. Precisa de tratamento.

Há dicas para pais e professores. Quando houver crianças com essas dificuldades, o correto é falar devagar e de forma clara, lendo e conversando com a criança, falando com o olhar nos seus olhos, acompanhando a fala com gestos, repetindo tantas vezes quantas for necessário, utilizar frases curtas, sempre que possível, escrever o que foi dito. Também é bom procurar falar com a criança em lugares com pouco ruído. Verificar se ela entendeu, pedindo para ela repetir. Realizar pausas para evitar o cansaço.

Há muita gente que precisa de fonoaudiólogo ou médico especialista. Mas para todas as pessoas, o bom mesmo é ficar livre de carros particulares que parecem carros de som e fugir dos “pancadões”, que além de deixar as pessoas surdas, fazem-nas descrer do estágio civilizatório.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 17/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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O emprego morrendo

xO terceiro trimestre continua trágico para a economia brasileira. Em relação ao segundo trimestre, 963 mil pessoas perderam seus empregos e elevaram para 12 milhões o número de desempregados. Foram extintos 2,255 milhões de postos de trabalho em um ano. O pior resultado já apontado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua. O pior é que o fundo do poço ainda está longe.

Os números não mentem: há 166,499 milhões de pessoas em idade de trabalhar. Mas na força de trabalho de 101,857 milhões, só 89,835 estão ocupados. Há 12,022 de desocupados mais 64,842 fora da força de trabalho. O setor privado é o que registra o maior baque. Tem 34,110 milhões de empregados com carteira assinada e perdeu 1,306 milhões de postos. Os sem carteira assinada são 10,269 milhões e 35 mil foram mandados embora.

São 6,123 milhões de domésticos, dos quais 109 mil foram para rua. Até  setor público, a empregar 11,329 milhões, mandou embora 218 mil funcionários. A visão dos especialistas é tétrica: no momento em que a taxa de desemprego se mantém no maior patamar já detectado pela pesquisa, a alta de inatividade indica desalento. Pessoas desistem de procurar emprego porque não acreditam que possam conseguir uma vaga. O número de inativos aumentou em 1,2 milhões de pessoas e os dados indicam que a taxa de desemprego aumentará até atingir 12,3% no fim do primeiro trimestre de 2017.

Por esse motivo ainda não é prudente comemorar sinais de esperança  pois a retomada do crescimento é algo muito complexo. A recuperação do Brasil levará um bom tempo. Quem tem emprego, tente segurá-lo com muito carinho, pois não há família em que o fantasma do desemprego ainda não assustou. Quem puder, ajude o próximo a atravessar esta fase difícil. O futuro chegou e com ele o desaparecimento de funções e tarefas que podem ser desempenhadas por máquinas. Vamos redesenhar nossa vida e empreender, com criatividade, para sobreviver nesta era turbulenta e incerta.

Fonte: Diário de S. Paulo | Data: 17/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

 


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Violência na escola

Escola sempre foi lugar de aprender. Espaço para a transmissão do conhecimento. Templo do saber, onde infância e juventude passam os melhores anos da existência.

Mas como o mundo é dinâmico, as coisas mudam de forma drástica, os episódios de violência na escola tornaram-se comuns. Pode-se mencionar a incivilidade, sintoma de que as regras de civilidade – conviver em harmonia – foram quebradas. Também o bullying, agressão entre colegas, manifestação sob a forma de ameaças e humilhações constantes, sem que a vítima seja capaz de se defender. Nesse teatro macabro, há três personagens: o agressor, a vítima e o espectador. Por fim, os comportamentos antissociais. A delinquência da depredação, do vandalismo, do dano inclemente causado à coisa pública, aquela cujo dono é o povo.

Cinco vertentes pretendem explicar a origem da violência na escola. A primeira se funda na própria natureza humana. O ser humano é violento, porque aprendeu a ser assim na própria evolução, para poder sobreviver. Exatamente porque o homem é violento e agressivo, que a sociedade procura canalizar esse instinto submetendo-o a controle pela educação, pela moral e pela religião. A segunda associa a violência a fatores de risco, assim como desestruturação familiar, ausência do pai, relações familiares não afetuosas, violência intrafamiliar. Tudo isso transmite modelos violentos como forma de resolver conflitos.

Um terceiro eixo reside na percepção da sociedade e do sistema educativo sobre o que significa violência. Violência é um conceito social e admite níveis de tolerância ou intolerância a certos comportamentos. Depende também do lugar onde eles acontecem. Gritar, falar alto, provocar balbúrdia, desafiar, lutar, são ações toleráveis num ambiente, mas intoleráveis na escola.

A quarta vertente explica a violência como diretamente relacionada ao clima e à organização da escola. Há menos violência quando as regras são claras e justas, a coesão da equipe é consistente, as expectativas de professores e alunos são mescladas por um sentimento de pertencimento à comunidade escolar. Aqui funciona a mediação de conflitos para modificar as lógicas de ação.

Finalmente, a quinta explicação diz com a universalização do ensino e a chegada à escola de novo público, já consciente de que o diploma não garantirá êxito profissional nem estudar significa ascender socialmente. Certos jovens escolheriam ser maus alunos, reivindicando para si um estigma negativo, desencadeador de revolta sem objeto.

Ninguém se ilude com a possibilidade de eliminação da violência na escola. Todavia, é válida a tentativa de administrar agressividade e conflito pela palavra e não pela violência. Controla-se a agressividade mediante incentivo a brincadeiras, a dramatização, a jogos e outras táticas de integração. Simultaneamente, deve-se identificar os fatores de risco e fortalecer os fatores de proteção, atuando junto à família.

Nas escolas em que se reconhece a pluralidade de significados do termo violência, deve-se estimular a participação da comunidade. Por isso o sucesso do projeto “Escola da Família”, que completou 13 anos em 2016. A mudança do clima escolar vem mediante cooperação mútua, o trabalho em comum, o compartilhamento, o diálogo, a percepção de que há muitas formas de ver as coisas e que todos os pontos de vista devem ser acatados e discutidos. O respeito à diversidade, o exercício do autocontrole, a valorização da reflexão, o pensamento crítico e o respeito às ideias. É urgente desenvolver a empatia, com a capacidade de se colocar cognitiva e sentimentalmente no lugar do outro.

Enfim, como a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade, todos são chamados a coibir a violência na escola, mácula que pode contaminar a sociedade e torná-la mais agressiva do que já é. Aceito ideias e, principalmente, trabalho da lucidez para o adequado trato desse fenômeno preocupante.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 11/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Não ouse prever

O homem planeja e Deus sorri! Ou seja: vãs todas as pretensões humanas de prever o futuro. Voltemos a cinco anos atrás e imaginemos quais teriam sido as nossas previsões para 2016. Alguém teria pensado naquilo que aconteceu em nossa cidade, nosso País, nos Estados Unidos?

A eleição de Donald Trump não foi algo crível por uma considerável parcela da população mundial. Mas aconteceu. E um grande aprendizado pode ser extraído a partir do inesperado. Primeiro, venceu o “outsider”, um empreendedor, um comunicador, um milionário. Tudo, menos um político profissional, desses que são há muito tempo filiados a um partido e disputam todas as eleições.

Há um natural cansaço da política, embora ela seja tão importante. Ainda não se descobriu uma fórmula de coordenar o convívio, senão mediante delegação de poderes a um representante que passa a agir em nome dos representados.

Estes parecem não estar contentes com a espécie de representação que o sistema oferece. Daí a urgência de uma reforma política. Não só nos Estados Unidos, mas muito mais perto de nós.

Outra lição que resulta dessa eleição é que o “politicamente correto”, quando excessivo, causa fratura do material. Daí ter vencido quem prometeu cuidar primeiro de casa, para depois se interessar pelo quintal alheio.

Quem prometeu emprego. Quem prometeu infraestrutura, hospital, escola, mais soldados para garantir a segurança pública. Lembra o provérbio chinês : “quando você quiser reformar o mundo, dê primeiro três voltas dentro de sua própria casa”. A vocação de tutor da Democracia Universal, assumida por inúmeros governos, deixou os americanos à deriva, com os dolorosos vestígios da violenta crise de 2008, cujas cicatrizes não foram sanadas.

O que aconteceu em grande escala nos States pode ser interpretado como tendência mundial, até para o microcosmos do pequeno município.

Um prefeito, por exemplo, deve ser um bom síndico. Síndico atento do condomínio ampliado que é a comunidade citadina. O povo quer seriedade, trabalho, administração eficiente. Não é necessário grandes novidades. Os discursos grandiloquentes já não convencem. O arroz e feijão bem temperado já satisfaz quem está desgostoso com promessas irrealizáveis.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 13/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Humana ganância

Os gênios da literatura conhecem bastante a alma humana. Sabem que o ser racional é ganancioso e narcisista e que tem enorme apego pela matéria. Páginas eloquentes a respeito dessa característica tipicamente nossa, privativa da espécie considerada a primícias dentre os viventes.

Lembro-me de um conto de Eça de Queiroz, narrando que três irmãos, ávidos por fortuna, encontram um viajante que carrega um tesouro e cai na desgraça de contar a eles o que leva consigo. Arquitetam matar o afortunado e melhor o fazem. Enquanto dividem o resultado do latrocínio, encarregam o irmão mais novo de buscar comida e bebida.

Ausente o caçula responsável pela aquisição, deliberam matá-lo para que o dinheiro se reparta pela metade, em lugar de três porções. Quando o irmão retorna, é morto pelos outros dois. Entregam-se, então, ao consumo do farnel. E percebem que o vinho comprado pelo morto fora envenenado. Perecem os três, diante da cupidez.

Também li que um casal de milionários viajava pela Cote D’Azur, numa potente Ferrari, a toda a velocidade, pelas estradas sinuosas ladeadas por precipícios. Acidentam-se, conseguem salvar-se, mas o carro foi arremessado ao mar. O marido, desesperado, passa a berrar: – Minha Ferrari! Minha Ferrari!. E a mulher : – Você lamenta pela Ferrari e não percebe que perdeu o braço? Ele então: – Meu Rollex! Meu Rollex!

São situações muito expressivas, como a do moribundo que, ao receber a unção extrema, diante do crucifixo do sacerdote, impressiona-se com a peça e balbucia: – Ouro! Ouro! Ouro do melhor quilate…Tudo isso me vem à mente quando verifico a dificuldade com que pessoas abonadas argumentam com a impossibilidade de colaborar com a causa nobilíssima e urgente de aprimorar a educação pública.

Como é difícil assumir responsabilidades, enxergar como verdadeiro privilégio a possibilidade material de atender ao chamado constitucional que erige como dever de todos – Estado, família e sociedade – de propiciar a todas as criaturas, mas principalmente as mais vulneráveis, o direito inalienável de merecer educação de qualidade. O tempo se encarregará de mostrar que as fortunas se dissipam, são transitórias e não trazem a felicidade. Só resta a cada qual contar com a tranquilidade de consciência e a satisfação de ter melhorado a vida de um semelhante.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 10/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.