Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Violência na escola

3 Comentários

Escola sempre foi lugar de aprender. Espaço para a transmissão do conhecimento. Templo do saber, onde infância e juventude passam os melhores anos da existência.

Mas como o mundo é dinâmico, as coisas mudam de forma drástica, os episódios de violência na escola tornaram-se comuns. Pode-se mencionar a incivilidade, sintoma de que as regras de civilidade – conviver em harmonia – foram quebradas. Também o bullying, agressão entre colegas, manifestação sob a forma de ameaças e humilhações constantes, sem que a vítima seja capaz de se defender. Nesse teatro macabro, há três personagens: o agressor, a vítima e o espectador. Por fim, os comportamentos antissociais. A delinquência da depredação, do vandalismo, do dano inclemente causado à coisa pública, aquela cujo dono é o povo.

Cinco vertentes pretendem explicar a origem da violência na escola. A primeira se funda na própria natureza humana. O ser humano é violento, porque aprendeu a ser assim na própria evolução, para poder sobreviver. Exatamente porque o homem é violento e agressivo, que a sociedade procura canalizar esse instinto submetendo-o a controle pela educação, pela moral e pela religião. A segunda associa a violência a fatores de risco, assim como desestruturação familiar, ausência do pai, relações familiares não afetuosas, violência intrafamiliar. Tudo isso transmite modelos violentos como forma de resolver conflitos.

Um terceiro eixo reside na percepção da sociedade e do sistema educativo sobre o que significa violência. Violência é um conceito social e admite níveis de tolerância ou intolerância a certos comportamentos. Depende também do lugar onde eles acontecem. Gritar, falar alto, provocar balbúrdia, desafiar, lutar, são ações toleráveis num ambiente, mas intoleráveis na escola.

A quarta vertente explica a violência como diretamente relacionada ao clima e à organização da escola. Há menos violência quando as regras são claras e justas, a coesão da equipe é consistente, as expectativas de professores e alunos são mescladas por um sentimento de pertencimento à comunidade escolar. Aqui funciona a mediação de conflitos para modificar as lógicas de ação.

Finalmente, a quinta explicação diz com a universalização do ensino e a chegada à escola de novo público, já consciente de que o diploma não garantirá êxito profissional nem estudar significa ascender socialmente. Certos jovens escolheriam ser maus alunos, reivindicando para si um estigma negativo, desencadeador de revolta sem objeto.

Ninguém se ilude com a possibilidade de eliminação da violência na escola. Todavia, é válida a tentativa de administrar agressividade e conflito pela palavra e não pela violência. Controla-se a agressividade mediante incentivo a brincadeiras, a dramatização, a jogos e outras táticas de integração. Simultaneamente, deve-se identificar os fatores de risco e fortalecer os fatores de proteção, atuando junto à família.

Nas escolas em que se reconhece a pluralidade de significados do termo violência, deve-se estimular a participação da comunidade. Por isso o sucesso do projeto “Escola da Família”, que completou 13 anos em 2016. A mudança do clima escolar vem mediante cooperação mútua, o trabalho em comum, o compartilhamento, o diálogo, a percepção de que há muitas formas de ver as coisas e que todos os pontos de vista devem ser acatados e discutidos. O respeito à diversidade, o exercício do autocontrole, a valorização da reflexão, o pensamento crítico e o respeito às ideias. É urgente desenvolver a empatia, com a capacidade de se colocar cognitiva e sentimentalmente no lugar do outro.

Enfim, como a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, com a colaboração da sociedade, todos são chamados a coibir a violência na escola, mácula que pode contaminar a sociedade e torná-la mais agressiva do que já é. Aceito ideias e, principalmente, trabalho da lucidez para o adequado trato desse fenômeno preocupante.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 11/11/2016
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Violência na escola

  1. Senhor Secretário, poderia mencionar também o excelente trabalho do Professor Mediador Escolar e Comunitário que tem como função mediar conflitos por meio do diálogo além de projetos que previnam a violência! Um professor super importante para a rede com grande reconhecimento porém esquecido pela secretaria. Uma pena!

  2. Fica o dito pelo não dito, há maçãs podres no cesto da educação, há os manipuladores no próprio corpo docente que discriminam e descartam alunos e colegas que não compactuam com bandalheiras. É uma violência velada sob veludosas vozes.

  3. Pingback: Pequeno ensaio sobre a VIOLÊNCIA… | Caetano de Campos

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