Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Quantos anos tenho?

1 comentário

Alguém indagou a uma celebridade já idosa quantos anos tinha. A resposta: “8 ou 10”. “Como? ”, retrucou o inquisidor (pois há quem considere indeli­cado perguntar a idade a uma pessoa provecta…). E o complemento: “Falo nos anos que ainda me restam! Serão oito ou dez… Não mais! ”.

Não é muita gente que aceita bem o fato de atin­gir a longevidade. Um filósofo que meditou sobre a velhice foi Norberto Bobbio (1909-2004). Amanhã é data em que se celebram doze anos de sua partida. Ele chegou a publicar o livro “De senectute e outros escritos autobiográficos” em 1997. Mas na sua auto­biografia, “Diário de um século”, o último capítulo é destinado exatamente à Despedida.

Começa com “Estou velho…A cada dia que passa, sinto-me mais afastado, distante, desterrado, sem raízes. Tornei-me um velho no sentido pleno da palavra. Um velho que ama refletir sobre o passado, tentando fazer um balanço antes do fim, que não pode estar senão próximo, em vez de continuar imerso na batalha política, como fizera nos últimos trinta anos”.

Velho é quem tem passado. “E o passado revive na memória. O grande patrimônio do velho está no mundo maravilhoso da memória, fonte inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre o universo em que vivemos, sobre as pessoas e os acontecimentos que, ao longo do caminho, atraíram nossa atenção.

Maravilhoso, este mundo, pela quantidade e va­riedade inimaginável e incalculável de coisas que traz dentro de si: imagens de vultos há muito tempo desapa­recidos, lugares visitados em anos distantes e jamais re­vistos, personagens de romances lidos quando éramos adolescentes, fragmentos de poesias que aprendemos de cor na escola e nunca mais esquecemos; e quantas cenas de filmes e de peças de teatro, e quantos vultos de atores e atrizes esquecidos sabe-se lá há quanto tempo, mas sempre prontos a reaparecer no momento em que vem o desejo de revê-los, e quando os revemos experi­mentamos a mesma emoção da primeira vez; e quantas melodias de canções, árias de ópera, trechos de sonatas e de concertos voltamos a cantarolar sozinhos”.

Tem razão o admirável Bobbio: “O debruçar-se sobre o passado nasce da consciência de que chega­mos ao fim da viagem”. O que nos aguardará depois?

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 08/01/2017
JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Quantos anos tenho?

  1. Prezado Prof.Nalini:

    Existem duas coisas que me parecem, matematicamente,certas nesse tormentoso tema da velhice,vale dizer:

    a) Quanto mais velhos ficamos,mais de passado nos preenchemos.Esse passado pode nos tornar exemplos de virtude e paradigma para gerações futuras,assim como exemplos de abominação,desprezo e incontáveis adjetivos negativos. Fato que que não considero ruim,pois: os anti heróis também colaboram com a educação no sentido daquilo que não deve ser realizado.

    b) Confirmo, junto a Lavoisier, o fato de nada se perder na natureza e tudo apenas se transformar,nesse tudo incluo os elementos corpóreo e o espiritual.Lembremo-nos de que o homem hoje é capaz de transformar com o auxílio do neutrôn um isótopo em outro isótopo, então o Criador poderá transformar aquilo que Ele bem entender.

    Bobbio,como sabido teve um educação filofascista,mas prematuramente se apercebeu dos exageros e equívocos dessa doutrina talqualmente do comunismo e suas vertentes representadas por Gramsci, Croce de um lado e Gentile doutro.Nessa ordem de idéias Norberto Bobbio solitariamente encarnou o papel de:

    “Um Exército Jurídico e Filosófico de um Homem só.”

    Eis a mais honesta explicação de ter sido merecidamente eleito “Senador Vitalício” do Parlamento Italiano.

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