Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O que eu tenho com isso?

2 Comentários

As rebeliões em presídio não podem ser consi­deradas um caso fortuito. Lembram mais a crônica de mortes anunciadas. Superlotar espaços que são edifi­cados para abrigar metade ou até um terço do número de ocupantes só pode acabar em carnificina. Afinal, os reclusos são seres humanos que se consideram in­justiçados, têm ressentimento e quando submetidos a disciplina rígida e a condições desfavoráveis, liberam mecanismos instintivos de violência reprimida.

A recorrência de episódios tais deveria servir para uma profunda reflexão coletiva. Quem está dis­pensado de pensar a respeito e de procurar pistas de fórmulas racionais de enfrentamento do assunto?

Ninguém está excluído desse debate. Primeiro, porque é um tema de interesse nacional e se não for adequadamente equacionado, interferirá na vida de to­dos os residentes no Brasil. Em seguida, porque a de­linquência é um fenômeno social, não é um problema exclusivo do governo. Aos poucos, fomos produzindo as condições favoráveis ao surgimento de uma crimi­nalidade precoce, cada vez mais intensa.

A experiência evidencia que o delito é praticado pelos jovens. Se conseguíssemos conscientizar os mo­ços de 15 a 24 anos de que há outros caminhos a se­guir para a consecução dos objetivos existenciais que não o crime, cerca de 80% do flagelo da delinquência estariam debelados.

Por que chegamos a esse ponto?

Há um conjunto de causas. A primeira é o de­clínio dos valores. Honestidade, probidade, seriedade, lisura e outras virtudes encontram-se muito despresti­giadas. Disseminou-se uma percepção de que não vale a pena sacrificar-se ou passar necessidades. A vida é breve e precisa ser curtida.

As instituições que auxiliavam a blindagem da criança e do jovem, protegendo-o da peste do mal, fo­ram aos poucos perdendo força. Família era um nú­cleo formador do caráter, de transmissão dos atributos caracterizadores da pessoa de bem, escola de disci­plina e de trabalho. Pais exerciam autoridade e, infe­lizmente, o conceito passou a significar autoritarismo. Corrigir passou a representar opressão. O Brasil edi­tou a “lei da palmada”, consequência de se encarar a repreensão como intolerável forma de traumatismo do ser educando.

A Igreja – seja qual for a confissão religiosa – flexibilizou-se para não ser de todo relegada. Acon­teceu no mundo inteiro. É uma tristeza verificar na Europa Continental que inúmeros templos, repositó­rios arquitetônicos e históricos que acolheram emo­cionantes manifestações de fé, hoje servem a outras finalidades. Foram transformadas em boates, bares, casas de comércio, quando não mereceram destino menos nobre.

A escola foi perdendo prestígio. Não acompa­nhou a profunda mutação dos costumes e foi de lon­ge superada pelo avanço tecnológico. Vivencia-se a quarta ou quinta Revolução Industrial e a sala de aula continua, em tese, com o mesmo design.

Qualquer modificação do sistema encontra óbi­ces, naturais quando se considera a força da inércia, mas também ditados por interesses setoriais, nem sempre vinculados ao bem comum.

A constatação é cruel: a sociedade está enferma. Encarcera o infrator jovem que ela mesma produziu e descumpre a obrigação de ressocializá-lo para que sua reinserção no meio social se faça de maneira tranquila.

Não chega a um acordo sobre o que fazer com essa população carcerária que só cresce. Construir mais presídios? Continuar a sustentar esse equipa­mento em que cada unidade onera o orçamento pú­blico mais do que o dobro do custo de uma escola de qualidade?

A cidadania está com esse desafio em seu colo: o que fazer com a questão carcerária? Chegar-se-á a um consenso neste momento em que a percepção ge­neralizada é a de que só existe um consenso no Brasil: a mais absoluta falta de consenso?

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 13/01/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “O que eu tenho com isso?

  1. Estimado Prof. Nalini:

    O aludido trabalho preventivo de aconselhamento e monitoramento de jovens dos 15 aos 24 anos está sociológica e biologicamente correto,posto que é nessa fase é que os hormônios mais de desenvolvem e reproduzem,e os feromônios atingem seu ápice,a presença do óxido nitroso é outrossim mais acentuado.

    Acredito na distinção freudiana de que o homem é gerenciado por dois princípios,vale dizer: “O Princípio do Dever e Princípio do Prazer”.

    Eis o enigma: Quem entre 15 aos 24 anos escolheria o “Princípio do Dever’?” Daí decorre a não sempre vitoriosa luta entre os educadores,amplo sensu,em educar a juventude “sem o uso da força, quer moral ou física”,que para mim ao menos são inúteis,pois tem o condão de transformar jovens em bestas humanas ou emasculados.

    A questão carcerária,desde sua época na Promotoria de Justiça de São Paulo já estava em “gestação” ,talqualmente o conceito de “Democracia Participativa”, a primeira questão é muito delicada,posto que:
    Além de analisarmos questões de diversas etiologias,psicologia,psiquiatria e neurociência,também nos depararemos com casos de de “Deformidade de Caráter” e “Tibieza Moral”,das quais não conheço nenhuma cura ou remédio.

    Nessa ordem de idéias ,proponho,um aguerrido confronto,através de instrumentos constitucionais como consultas públicas e outros,vale dizer:

    “Uma luta entre a Falta de Consenso e a Solidariedade”

    Com meus respeitos e elevada estima,

    angelo poci

  2. O SECRETARIO TRATA O TEMA SOBRE QUASE TODAS AS FRENTES: EDUCACAO, PROTAGONISMO DA SOCIEDADE, E A POLITICA CARCERARIA EM SI, MAIS OU MENOS PRESIDIOS, PRENDER MENOS, PRENDER MAIS, RESSOCIALIZACAO E ETC. ACHO QUE A UNICA CONTRIBUICAO QUE EU POSSO DAR A ESTA EXCELENTE MATERIA SOBRE O SISTEMA CARCERARIO BRASILEIRO, MAIS PRECISAMENTE SOBRE SUA FALENCIA GENERALIZADA E A DE QUE APESAR DE TODOS OS FIOS SOLTOS CITADOS HA UM QUE AINDA NAO ESTA SOLTO: O ESPIRITO DE SOLIDARIEDADE QUE ENVOLVE ESSE CAOS DOS HORRORES DAS REBELIOES E DOS FRACASSOS DA NAO RESSOCIALIZACAO. HA UMA NUVEM DE SOLIDARIEDADE QUE NAO PERMITE QUE O CAOS CHEGUE AO SEU GRAU MAXIMO. ESSA NUVEM ESTA SEMPRE PRESENTE, NOS MOMENTOS MAIS TRAGICOS AOS APARENTEMENTE CONTROLADOS. MAS COMO DISSE ALEXANDRE DE MORAES, RECEM EMPOSSADO MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, NOSSAS PRISOES VIVEM EM UMA PERMANENTE BOMBA RELOGIO PRESTES A EXPLODIR, MESMO QUENDO TUDO PARECE SOB CONTROLE. NAO SERA QUE O BRASIL NAO E O PAIS DOS IMPROVISOS, SEMPRE CORRENDO ATRAS DO PREJUIZO. UM PAIS QUE SEMPRE PENSA A CURTO PRAZO EM TODAS AS AREAS, NA SAUDE, EDUCACAO, TRANSPORTE PUBLICO, SANEAMENTO BASICO, DESENVOLVIMENTO SUSTENTAVEL, A SEGURANCA PUBLICA E NOSSO SISTEMA CARCERARIO ESTAO NESTE ROL. A MINHA ESPERANCA E QUE UM DIA ESSE PAIS, ALEM DE BUSCAR NO JUDICIARIO ALGUMAS SOLUCOES QUE AJUDAM COMO A CRIACAO DAS DEFENSORIAS PUBLICAS E AUDUENCIA DE CUSTODIA, A OTIMIZACAO DAS VARAS DE EXECUCOES, A MINHA GRANDE ESPERANCA E A CONCRETIZACAO DO SONHO DE DARCI RIBEIRO, QUANDO PREVIU: SE O BRASIL NAO OUSASSE NA EDUCACAO EM DUAS DECADAS TERIAMOS MAIS PRESOS QUE ALUNOS EM ESCOLAS. PREVIU E ACONTECEU.
    ENTAO SE EXISTE UMA SOLUCAO DE CURTO MEDIO E LONGO PRAZO E MESMO DAR OPORTUNIDADES A TODOS DE CRIANCA ATE ADULTO, PARA QUE AMANHA UM PAIS COMO O BRASIL SEJA REFERENCIA, COMO A COREIA DO SUL, JAPAO, NORUEGA, CANADA E OUTRAS EXCELENCIAS, ONDE A SUA MAIORIA DA POPULACAO VIVE A LIBERDADE, A REALIZACAO DE SEUS SONHOS E NAO REFENS DA PRECARIEDADE DE TUDO COMO UMA SODORRO E GOMORRA, CONDENADA POR DEUS A DESTRUICAO E PELA COBICA, INJUSTICA, AFUNDADOS PELA PRATICA DE TODOS OS PECADOS MUNDANOS.

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