Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Pais, acordai!

A Organização para Cooperação e Desenvolvi­mento Econômico (OCDE) avalia trienalmente estu­dantes entre 15 anos e 3 meses completos e 16 anos e 2 meses, que estejam matriculados em instituições educacionais do país participante e cursem no mínimo a 7ª série. Além de 35 países que integram a OCDE, outros 35 países parceiros também se submetem à avaliação, inclusive o Brasil.

Os testes levam em consideração a área cogni­tiva de ciências, sendo avaliadas também a leitura e a matemática. Os resultados indicam o perfil básico de conhecimentos e habilidades dos estudantes, como tais habilidades são relacionadas a variáveis demográ­ficas, sociais, econômicas e educacionais e as tendên­cias que acompanham o desempenho dos estudantes e monitoram os sistemas educacionais ao longo do tempo.

Parte-se de uma indagação: “O que é importante os cidadãos saberem e serem capazes de fazer? ”. É isso o que a OCDE se propôs a responder e, para isso, lançou em 2000 o Programa Internacional de Avalia­ção de Estudantes-PISA, a sigla pela qual se tornou conhecido no mundo.

Em 2015, participaram desse teste 23.141 estu­dantes de 841 escolas do Brasil e pela primeira vez, a aplicação foi totalmente computadorizada. Os resulta­dos não são os mais gratificantes. Em ciências, o per­centual de acertos não ultrapassou 41,6% na melhor performance. Somente 3 em cada 20 itens apresen­taram proporção de acertos igual ou superior a 50%. Quanto à competência “interpretar dados e evidências cientificamente”, apenas 33,7% obtiveram respostas corretas.

Não é melhor o quadro da leitura. O letramento é de extrema relevância, pois mostra a compreensão e utilização dos textos escritos, bem como a capacidade de o contato com estes suscitar reflexão e envolvimen­to, a fim de alcançar um objetivo, desenvolver conhe­cimento e potencial e poder participar ativamente da sociedade.

A média de respostas corretas não ultrapassou 41,4%, muito inferior à média obtida pela Finlândia (65,5%), Canadá (64,9%), Coréia do Sul (64,4%), Es­tados Unidos (60,0%), Portugal (59,9%), Espanha (59,8%) e Chile (51,9%). O pior é que 51,0% dos estu­dantes brasileiros estão abaixo do nível 2 de leitura, pa­tamar que a OCDE estabelece como necessário para que o estudante possa exercer plenamente sua cidadania.

Na aferição do conhecimento em matemática, apenas um em cada nove itens apresentou proporção de acerto igual ou superior a 50%. O nível de difi­culdade dos itens de matemática para os jovens bra­sileiros foi maior que o de outros países da América Latina. 70,3% dos estudantes estão abaixo do nível 2 de Matemática, patamar estabelecido como necessá­rio para que o jovem possa exercer plenamente sua cidadania. Esse percentual atinge 90,5% na República Dominicana.

As lições extraíveis do Pisa devem ser assimi­ladas por todos. Algo que se impõe é assumir o com­promisso de fazer a criança ler e escrever como hábito regular, normal e prazeroso. A escola não desenvol­ve um trabalho sistemático de leitura/escrita de todos os gêneros didáticos. Todas as áreas de conhecimen­to são chamadas a esse contínuo, permanente e sério exercício de leitura. Para conhecer bem as ciências, é preciso que o estudante saiba vocabulário científico, se aproprie dos gêneros e tipos textuais, explore múl­tiplas linguagens e adquira proficiência verbal.

Isso é tarefa só da escola? Não. É também da família, titular do dever de educar, segundo a Consti­tuição Federal de 1988. O artigo 205 da Carta Cidadã é muito clara: educação, direito de todos, dever do Es­tado e da família, em colaboração com a sociedade.

Todos somos chamados a reagir a essa avaliação que representa uma advertência: se quisermos futuro digno para o Brasil, cada um tem de fazer sua parte. E os pais, ou quem ocupe seu lugar, são fundamen­tais, essenciais e imprescindíveis. Atentai, pois, para o aprendizado de seus filhos!

Fonte: Correio Popular | Data: 31/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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O celular ajuda a educação?

Parece que o mergulho da humanidade no mun­do digital é irreversível. As tecnologias da informação e comunicação equivalem a uma quarta ou quinta Re­volução Industrial e vieram para ficar. Esse fenômeno oferece várias perspectivas. Uma delas é a celeuma em torno do uso de celulares e outros aparelhos móveis pelos alunos em sala de aula, que é proibido pela lei estadual 12.730/2007 – há leis semelhantes em outros estados, como MG, RJ e DF. Deve continuar vedada a sua utilização? Mesmo quando o professor entender que o aprendizado ganhará se o estudante puder con­sultar uma rede, resolver um game educativo ou atuar em equipe?

A consulta aos alunos terá uma só resposta: o uso de celular, smartphone, tablet ou computador em sala de aula deve ser permitido. Queira-se ou não, os ins­trumentos eletrônicos de comunicação e de acesso às redes da web já fazem parte do cotidiano dos alunos. As novas gerações nascem com chip, têm circuitaria neuronal inteiramente digital, enquanto a nossa conti­nua analógica. Somos nós que devemos nos adaptar à realidade, não a criança ou o jovem declinar de viver sua contemporaneidade.

Um dos raros consensos no universo da educa­ção é o de que as aulas prelecionais no cardápio de disciplinas compartimentadas não seduzem o aluno. Esse é um dos motivos da crescente evasão no ensi­no médio, exatamente a faixa de responsabilidade dos estados e aquela destinada a um aluno que já tem dis­cernimento, adota sua própria concepção de mundo e de futuro e não se satisfaz com o divórcio entre o que se ensina e o que é necessário para sobreviver num futuro complexo e incerto.

Uma das fórmulas para manter o aluno interes­sado no aprendizado é propiciar a ele a oportunidade de se conectar com o mundo. As informações nunca estiveram tão disponíveis e acessíveis a todos os que têm curiosidade. Se a escola não oferecer aos estudan­tes da rede pública a competência para engajamento saudável no uso de mídias e outros provedores de in­formação, incluindo os da internet, o acesso continu­ará por outros meios, mas sem garantia de que haverá qualidade na assimilação do conteúdo.

O planeta está cada vez menor e, queira-se ou não, caminha-se para a cidadania global no mundo di­gital. A escola particular já maneja há muito tempo esse universo e, se a rede pública não adotar políticas e estratégias consequentes, a tendência é o aumento das disparidades entre os que têm e os que não têm acesso à informação e às mídias e entre os que são capazes ou não de exercer a liberdade de expressão.

Somente com a orientação de mestres capaci­tados é que o aluno terá condições de absorver todos os aspectos relacionados ao uso intensivo das redes sociais, universo em que já passa muitas horas por se­mana. É preciso treiná-lo para se proteger e aos inte­resses culturais locais e globais que podem ameaçar a valorização do pluralismo e da diversidade cultural. As mídias sociais exercem papel de extremo relevo e podem servir para fazer o aluno compreender a missão e as funções da mídia e de outros provedores de infor­mação numa sociedade que se pretende democrática.

O uso dos equipamentos eletrônicos, notada­mente o celular, garantirá maior participação ativa e democrática, atendendo à vocação constitucional de edificar uma pátria justa e sem preconceitos, rumo à democracia participativa. Simultaneamente, favore­cer-se-á a conscientização sobre as responsabilidades éticas da cidadania global e se estimulará a prática da diversidade, do diálogo e da tolerância, pois um dos valores do estado de direito de índole democrática do Brasil é o pluralismo.

As várias plataformas fornecem ao estudante um acervo de conhecimento que, se não for adequa­damente selecionado, causará confusão e perplexida­de, ambas nocivas à formação integral. Não é recente a preocupação de educadores de reconhecido prestí­gio em todo o planeta em propiciar uma alfabetiza­ção midiática e informacional para jovens de todos os continentes.

A partir do artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, houve o reforço da Declara­ção de Grünwald, de 1982, a reconhecer a necessidade de os sistemas políticos e educacionais promoverem a compreensão crítica, pelos cidadãos, dos fe­nômenos da comunica­ção. A Declaração de Alexandria, de 2005, coloca a alfabetização midiática e informacional no centro da educação con­tinuada e isso não é novidade nas escolas particulares. Estas mantêm ambiente de aprendizagem motivador e atraente, com animações de exuberante detalhamen­to, interatividade com simulações exclusivas e uso de objetos de aprendizagem 3D. Por que não estender a experiência para a rede pública?

É urgente dotar as escolas estatais de tecnologia educacional, para isso chamando à responsabilidade as concessionárias de telecomunicações que, por exer­cerem atividade concedida pelo estado, têm obrigação de oferecer conectividade à escola pública. E como é que o celular poderá ajudar na sala de aula?

Tudo dependerá do treinamento e da criativida­de dos professores. Num determinado momento, veri­ficará que a atenção arrefece e desafiará os alunos para o encontro de uma resposta na internet. Ou mandará “torpedos” com questões que devem ser respondidas individualmente ou em grupo no menor tempo pos­sível. As pesquisas ganharão outro colorido se reali­zadas durante curto período, dentro da sala de aula, abrindo-se ao aluno que primeiro localizou o tema a possibilidade de verbalizá-lo.

Mas o uso da tecnologia vai muito além. A co­brança de exercícios no horário em que o estu­dante estiver em casa, a lembrança de que haverá avaliação no dia seguin­te, a recomendação de leituras e tantas outras possibilidades reclamam o pro­tagonismo de ambos: aluno e professor. Sabe-se que já existe, informalmente, um uso restrito do celular em sala de aula, mas, como a lei ainda proíbe, não se dis­põe de dados consistentes sobre essa experiência.

O importante é acreditar na maturidade da rede pública. Haverá maior interação entre os parceiros, pois hoje o relacionamento aluno/mestre é diferente de há algumas décadas. Por sinal, há relatos de alunos que se encarregam de “tutorar” professores com difi­culdades no manejo das redes sociais, monitorando-os e criando laços de um convívio mais aberto, mais fran­co e menos formal, o que produz melhores resultados no processo de ensino/aprendizado.

Há um número infinito de opções, todas elas ins­tigantes. Por sinal, a proposta da Secretaria da Educa­ção do Estado de São Paulo não pretende revogar a lei que proíbe o uso do celular em sala, durante o período reservado à aula. Apenas ressalva a finalidade peda­gógica e dependerá do professor encontrar fórmulas hábeis para que esse uso convirja com os objetivos da educação, em sua tríplice finalidade: desenvolver apti­dões e habilidades pessoais, qualificar para o trabalho e capacitar para o saudável exercício da cidadania.

Fonte: Veja Online | Data: 30/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Qual a chance de dar certo?

A pior recessão da História do Brasil longe está de terminar. Além dos doze milhões de desempregados, há mais de dez milhões subempregados. Há milhões que deixaram de procurar emprego. Há outros milhões vivendo na miséria, abaixo da linha da pobreza.

Enquanto isso, os empresários são chicoteados pelo sistema. Pelo governo, que impõe carga tributária que inviabiliza a iniciativa privada. Pelo sistema de Justiça, que, por deformação ideológica, nutre ojeriza pelo lucro. Por aqueles mais afetados pela crise, que são os alucinados em busca de emprego, mas que sempre têm ressalva contra os patrões.

O governo precisaria ser mais ousado em suas propostas. Para começar, acabando com o carnaval dos quase quarenta partidos políticos, os quais têm de ser “cativados” para propiciar a governança de coalisão. Acabar com o fundo partidário, que sustenta o supérfluo e nada faz para incluir a população no conceito consistente de cidadania. Os fundos partidários deveriam cuidar da educação cidadã, propiciar principalmente ao jovem um letramento consistente, uma formação apropriada a que ele se qualificasse para exercer liderança comunitária.

É óbvio que o governo não tem condições de se autolimitar, de reduzir a máquina perdulária, de impor uma economia de guerra, de acabar com tudo o que é desnecessário. Como repete à exaustão o Ives Gandra, o Brasil não cabe no seu PIB. É preciso acabar com a ilusão.

A comunidade jurídica, no seu crescimento ao infinito, precisa adquirir o juízo de ajudar o Brasil da utopia a se aproximar do Brasil da verdade. E na verdade não há como atender a todas as demandas, pois tudo nesta República é direito fundamental e é judicializável. O discurso dos direitos fundamentais infinitos encontra um Estado impotente, praticamente falido, sem forças para fazer as reformas necessárias. Que são duras, geram sacrifícios, mas só elas poderiam recambiar o Brasil para o rumo em que se encontrava há algumas décadas.

Diante das ocorrências diárias, das surpresas e dos sustos, da imobilização daquilo que deveria estar em continência e pronto a agir, parece não existir muita chance de dar certo. Embora tenhamos de torcer ao contrário do panorama que se vislumbra aqui da planície, onde o que resta é rezar.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 30/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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O fim de uma era

Jundiaí acordou ferida em 28.3.17. E afetivamente atingida. Morreu Luiz Francisco Ferreira Bárbaro, o “Pi­coco”. Desde janeiro lutava contra aquela fingida, que quando surge, anuncia o fim. Nutria esperanças. Subme­teu-se ao flagelo de um tratamento que poderia ser me­nos agressivo e doloroso neste sonhado século 21.

Com ele termina o clã dos Bárbaro. Foi-se Oswaldo, o líder de bairro, o cidadão atuante em to­dos os cenários. Foi-se Léta, a “mãezona” de quantos podia acolher sob suas asas. Perdemos Pituca, a meni­na mimada, cujos quinze anos transformou o “Balaio” num palácio e cujo casamento com Vadinho, o Oswal­do Negrini Coutinho, fez do Clube Jundiaiense palco de uma das mais exuberantes recepções desta Jundiaí.

Jundiaí que Picoco amou até à morte. Que de­fendeu com sua palavra fácil, até no atropelo, quando queria comunicar mais do que conseguia verbalizar. Escrevia muito, com o afã de tudo registrar, com as provocações, os desafios, os empurrões. Vibrava por reações. Era irreverente, chocava, mas transbordava de sentimento. Nada nele era morno. Fazia lembrar o Evangelho: “Sede frios ou quentes! Os mornos, cuspi­rei de minha boca…”.

Idolatrava sua Ponte São João. Emocionava-se ao falar dela. Sempre a projetou. Sua gente, seus cos­tumes, suas festas. Era “o carnavalesco”. Vibrava, congregava, mantinha aceso o espírito da folia que era quase religião, pois impregnada de misto patrio­tismo: planetário e paroquial.

Amigo dos amigos, era leal e generoso. Importa­va-se com eles e acompanhava as vitórias e as desditas. O nome de seus amigos: legião! Em todos os ambientes, em todos os estamentos. E o tesouro pelo qual se preo­cupava mais era o seu núcleo íntimo: José Oswaldo, fi­delíssimo sobrinho/filho, Maria Fernanda, tão querida, o pequeno João Pedro, com cujo futuro sonhava.

Picoco mudou Jundiaí e não passou desapercebido. Sabia ser cáustico, mas sabia conquistar. Com ele morre toda uma era: aquela das conversas consistentes, das comparações ambiciosas, do humor sempre bem elaborado, das ironias, das lágrimas seguidas de garga­lhadas, mas de um incomensurável amor à vida. Todos passamos. Ele passou e esteve muito presente em nos­sas existências. Fará imensa falta! E viva a vida!

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 29/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Quem é racional?

O aquecimento global é um fenômeno palpável em todo o planeta. 2016 foi o ano mais quente da Ter­ra. O clima está confuso e no país que tem enorme quantidade de água doce, a distribuição inclemente foi agravada por crise hídrica em 2014 e registra índices pluviométricos exagerados em 2017.

A devastação continua infame. Enormes áreas florestais são devastadas e ninguém é punido. Con­sidera-se um “crime menor”, enquanto o furto – este sim – é um delito maior e gera prisão.

Enquanto isso, aqueles que pensam que vão du­rar para sempre patrocinam campanha contra os de­fensores da natureza. O livro “Caiu do Céu: o Promis­sor Negócio do Aquecimento Global”, de Mc-Kenzie Funk, evidencia o que apenas se intuía. As maiores empresas petroleiras e de transporte marítimo esta­belecem parcerias com os países do Ártico, aqui in­cluídos o Canadá, a Rússia, a Noruega e os Estados Unidos, para explorar financeiramente o derretimento do gelo marinho em torno ao Polo Norte.

O gelo derrete em velocidade maior do que se esperava. Há poucos anos, dizia-se que isso ocorreria dentro de um século. O que levava as pessoas a pen­sar: “Daqui a um século não estarei aqui. Quem esti­ver que se vire!”. Hoje talvez essas mesmas inconsci­ências venham a experimentar o que será do mundo após o degelo.

Mas alguém lucrará com isso. As rotas de comércio aumentarão. Poder-se-á explorar petróleo onde antes ha­via gelo. Talvez se possa plantar na terra nua. O recuo das geleiras é lucrativo para alguns. Pouco importa que desa­pareçam as praias brasileiras. O que interessa é o negócio.

Neste caso, a ganância, a cupidez, a mesquinharia, o imediatismo são as várias faces da mesma enfermida­de que acomete a espécie humana. Sabe-se que o aque­cimento global é um fato. Não se desconhece que ele resulta da incúria do homem. Este inquilino infiel não se recorda de que lhe é dado habitar a Terra por algumas décadas, não mais do que isso. A maior fortuna do mun­do ainda não conseguiu evitar a morte. Esta aguarda os bons e os maus. Todavia, estes fazem questão de levar o futuro com eles. As próximas gerações pagarão pela irracionalidade dos ancestrais. E ainda se reafirma que a espécie é provida de razão e de discernimento.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 27/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Geração de prosumidores

Na presente fase de pessimismo e de visão ca­tastrófica do futuro, é interessante ler livros como “So­ciedade com Custo Marginal Zero”, de Jeremy Rifkin, publicado pela editora M.Books. Ele é um professor da Universidade da Pensilvânia, onde ensina execu­tivos a tornarem suas empresas sustentáveis, projeto da Escola de Negócios Wharton. Observa que o dina­mismo e a eficiência produtiva, alvo de todos os em­presários, tangidos pela onda empreendedorista, além da rápida mutação tecnológica, farão com que o capi­talismo perca sua dominância e ceda espaço para uma economia solidária, colaborativa e compartilhada.

O avanço da ciência e da tecnologia acelera o ritmo de produção e faz com que o custo marginal, o preço para produzir uma unidade a mais de um determinado produto, chegue bem próximo a zero. Amplia-se o acesso a todos os bens de consumo. Por consequência, os lucros das corporações se reduzem, a ideia de propriedade abandona o seu caráter abso­luto – o que já ocorre com a implementação da ideia de “função social” – e a economia da escassez é subs­tituída pela abundância.

Na visão idílica de Jeremy Rifkin, o ser huma­no passará, naturalmente, a compartilhar seus bens, a desfrutar de produtos e de serviços independentemen­te da necessidade de comprá-los.

Hoje a concepção capitalista prestigia o inte­resse próprio, é motivada pelo ganho material, pelo egoísmo e pelo exacerbado individualismo narcisista. Passar-se-á a vivenciar uma era de fruição de bens co­muns sociais, motivados por interesses colaborativos e impulsionados por um profundo desejo de se conec­tar com os outros, de dialogar e de compartilhar.

Para o autor, sinais dessa mutação tornam-se perceptíveis quando a volúpia do automóvel, ícone do consumismo e símbolo da propriedade privada, perde força perante uma geração que já não se entusiasma com a posse exclusiva do automotor. Além do com­partilhamento, animam-se os jovens com a ideia de fruir de carros autônomos, aqueles que não precisam de condutor. Eles atendem a uma outra tendência con­temporânea, ao menos perante os mais sensíveis: a tu­tela responsável do ambiente.

Assim também, casas, roupas, objetos, poderão ser compartilhados, na visão consciente de que “do mundo nada se leva’ e que a sabença popular eterni­zou no dístico “caixão de defunto não tem gaveta”.

A facilidade de acesso a bens da vida que se­rão cada vez mais baratos e mais disponíveis torna­rá os jovens libertos das amarras materiais. Em lugar da acumulação de bens, do enriquecimento pessoal, o mais cobiçado será o prazer de cultivar interesses colaborativos. Em lugar de “ter”, tornar concreto o so­nho de uma qualidade de vida sustentável.

Tudo isso afetará, é natural, o mercado de traba­lho. O mundo já está diferente e ficará ainda melhor. Os desafios são imensos. Basta dizer que mais da me­tade das profissões ainda indicadas como o futuro das crianças de hoje deixará de existir dentro de duas dé­cadas. A educação tem o compromisso aparentemente utópico de formar profissionais para misteres que se­quer têm denominação.

Mas a internet das coisas, que propicia a conec­tividade entre objetos e pessoas, facilitando as tare­fas e rotinas, o big data e o infinito acervo de dados e suas potencialidades, os algoritmos, a inteligência artificial, cada vez mais surpreendente, a robótica, a cibernética, vão eliminar postos de trabalho, mas vão permitir o desenvolvimento da sensibilidade. Tempo e espaço para as artes, para a poesia, para o cultivo da natureza, para oferecer talento para a beleza.

A impressora 3 D converterá o hoje consumidor em “prosumidor”. Ou seja, será ao mesmo tempo um produtor e um consumidor. Fará aquilo que desejar, desde uma caneta a um móvel, uma obra de arte e um chocolate, uma prótese e uma colher.

Há, portanto, quem acredite que Rousseau tinha razão e que a índole humana é direcionada à bondade. Que estejam certos e que Hobbes tenha se equivocado ao edificar o seu “Leviatã”.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 24/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.


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Matemática na escola pública

Um dos pontos frágeis, mais vulneráveis, da educação brasileira, é a matemática. E precisamos muito dela. Quem gosta de matemática vai se dar bem nas carreiras que necessitam das chamadas ciências “duras” ou exatas. Precisamos de engenheiros, de físicos, de estrategistas, de estatísticos, de químicos e de outros profissionais aptos à missão de desvendar o futuro. Pois nunca houve tamanha incerteza em relação ao amanhã como hoje. O que se imagina para daqui a 20 anos?

Quando uma Nação dá certo, a maioria de sua população compara a situação do pai com a do filho. O brasileiro de hoje pode olhar para seu pai e dizer que ele conseguiu futuro melhor para a sua descendência. E nós? Temos certeza de que o porvir de nossos filhos será melhor, menos sacrificado, mais exitoso e mais feliz do que tem sido o nosso?

Essa reflexão tem de levar as pessoas de bem no Brasil – e ainda há muitas – a uma responsabilidade redobrada em relação à educação. Esta precisa do acompanhamento efetivo e permanente dos pais, da sociedade, de todas as pessoas que tiverem condições de alavancar a escalada do conhecimento. Sem estudo efetivo, sem aprendizado eficiente, nunca chegaremos ao Brasil de nossos sonhos.

Uma oportunidade para mostrar que não é apenas intenção, mas que podemos atuar na prática, é fazer com que um número maior de estudantes da Rede Pública participe da 13ª Edição da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas – OBMEP 2017. As inscrições estão abertas até 31 de março, na página www.obmep.org.br

Cada Escola cadastrada no MEC/INEP recebeu um kit de divulgação com cartazes, folhetos explicativos e o calendário da Olimpíada. Os alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental e do Ensino Médio estão convidados a participar. Cada diretor está convidado a fazer com que sua escola participe e brilhe da Olimpíada. Assim como os esforçados professores de Matemática. Mas também os Pais de Alunos, os Grêmios Estudantis, a mídia, a Universidade, o empresariado. Todo brasileiro que estiver interessado em um amanhã mais exitoso para esta Nação que precisa muito de bons alunos e, principalmente, em Matemática.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 23/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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