Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Sem milagres, mas com esforço

1 comentário

A situação da educação brasileira preocupa a todos os bempensantes. Se levarmos em conta as ava­liações, notadamente as internacionais, como o exame PISA, critério da OCDE, não estamos no melhor dos mundos. Mas é preciso ponderar que não há respostas simples para problemas complexos. E a educação é uma questão extremamente complexa.

O próprio conceito de educação está em xeque. Vivencias e a 4ª – alguns dizem a 5ª – Revolução Indus­trial e continuamos a ensinar em salas fechadas, cartei­ras enfileiradas e um professor a prelecionar durante 50 minutos. Disciplinas compartimentadas e sem qualquer liame concreto com a vida real. Isso já era criticado por Montaigne em seus “Ensaios”, há séculos. Pouco mu­dou a estratégia de ensino em todo o mundo.

Não tem faltado dinheiro, por mais que se criti­que a insuficiência de verbas. Em São Paulo, em 2015, os gastos com educação chegaram a R$ 35,1 bilhões. R$ 8,3 bilhões para as Universidades e R$ 26,8 bi­lhões para a Educação Básica. Enquanto a Constitui­ção da República ordena destinar 25% das receitas em educação, o Estado de São Paulo tem aplicado mais de 30% e há seguidos anos: 30,13% em 2012, 30,15% em 2013, 30,22% em 2014 e 31,27% em 2015. No Fundeb, a aplicação foi de R$ 15,9 bilhões, o equiva­lente a 100% dos recursos recebidos. Desse montante, 68,5% foram utilizados para pagamento dos profissio­nais do magistério em efetivo exercício e R$ 5 bilhões transferidos aos municípios que possuem rede própria de educação básica.

Há muitos anos São Paulo dispõe de base curri­cular, cuja implementação serve de experiência para a atual discussão da BNCC. E é evidente que o ensino integral produz resultados mais eficazes do que o tur­no mínimo regular.

Isso porque no período expandido, o aluno pode se devotar a disciplinas eletivas e a desenvolver o seu “projeto de vida”, antecipando os desafios que enfren­tará assim que encerrar o ciclo de escolaridade normal. Tal estratégia propicia reflexão a respeito de seu futu­ro, das habilidades que necessitará para exercer uma profissão prazerosa e garantidora de qualidade de vida compatível com o investimento feito em sua formação.

Algo que o Brasil tem de levar em conta é a sin­gularidade das novas gerações, que já nascem apa­rentemente “chipadas” e plugadas às redes sociais e evidenciam excepcional desenvoltura para vivenciar o ambiente digital. O conhecimento nunca esteve tão disponível e acessível para quem tiver curiosidade intelectual. Através de smartphones, celulares, ta­blets e computadores, pode-se ingressar nas melho­res Universidades e nas mais prestigiadas bibliotecas de todo o planeta. Percorrer o tesouro de aulas e fil­mes bem realizados, obter informações detalhadas e exatas em todas as áreas essenciais a um adequado crescimento cultural.

O uso das modernas tecnologias da comunica­ção e informação é imprescindível para interessar essa geração 3D, que trabalhará com a inteligência artifi­cial e com a internet das coisas em sua vida adulta. Para isso, a conectividade em todas as escolas, a oferta de wi-fi gratuito e de banda larga a todos é urgente. As concessionárias devem cumprir sua parte nos termos dos contratos e o governo precisa exigir esse adequa­do cumprimento, com a atualização da melhor quali­dade, assim que a oferta comercial também merecer salto qualitativo.

Mas o fundamental é acordar a Nação inteira para as suas responsabilidades em relação à educação, chave de resolução de todos os problemas brasileiros. Se a educação é direito de todos, não é dever exclu­sivo do Estado. É obrigação do Estado, sim, mas em solidariedade com a família e com a sociedade.

O Estado está aplicando recursos preciosos na Rede Pública. Mas a eficiência do ensino/aprendizado se vincula também – e há quem diga que prioritaria­mente, – ao dever familiar de não se descuidar do “cur­rículo oculto” ou “currículo implícito” da boa educa­ção de berço. Professor merece respeito, assim como o equipamento público edificado para uso do aluno e pago com dinheiro do povo. E toda a sociedade, des­tinatária do processo educacional, precisa mergulhar nessa missão que, levada a sério, em uma geração, transformará o Brasil real, fazendo-o coincidir com os nossos sonhos. Temos o direito de sonhar, mas tam­bém o dever de concretizar as utopias.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 17/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Foto: Diogo Moreira/A2IMG

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Sem milagres, mas com esforço

  1. Querido Secretário de Educação do Estado de São Paulo. Sei dos desafios que é estar a frente desta pasta, pois se não é a Educação um dos pilares para unir a formação com a informação, o conteúdo com o comportamento. Como bem disse o Secretário, Dr. José Renato Nalini, “que lê nunca morre”. Eu acrescentaria: quem lê está sempre além. Além mar, além do colega do lado, da sala de aula, está além da matéria daquele dia ministrada pelo Professor, em fim, está sempre a frente. Quem lê e perde a preguiça de Ler, cria um vocabulário robusto, é capaz de dizer: Eu te amo”, algo tão trivial, ou “quero partir”, algo tão dramático, de forma poética, de diversas formas, amplia seu poder da palavra escrita e falada.
    Mas as crianças são diferentes e iguais ao mesmo tempo e umas são das atividades esportivas, outras das composições musicais, uns da luta, outros da reflexão. Que bom que seja assim. Nenhum é melhor que nenhum, todos nasceram para dar alguma contribuição, e, neste centro de tudo, penso, que esteja Deus para guiarem por bons caminhos na aplicação de suas vocações e talentos, porque o que Deus mais quer é que façamos o bem, acima de todas as coisas, e que possamos conviver com nossas divergências e diferenças em um ambiente de paz.
    Acho que o maior desafio da Educação em qualquer instância e lugar do mundo é formar crianças, jovens, adultos em seres humanos que se auto respeitem e respeitem seus semelhantes, e preservem o ambiente que vivem em um ambiente saudável, lutem para isso, cada um com seu talento, com sua vocação, ainda que pareça um sonho quando nos contaminamos com tantas notícias ruins, nos tornando pessimistas quanto a nós mesmos, quanto a este sonho, vale então nos socorrermos às palavras como esperança, perseverança, persistência, pois qualquer sonho para conquistarmos, sem estes três ingredientes, ele ficará só nisso, um sonho.

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