Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

É melhor esquecer

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A memória é um dos patrimônios intangíveis mais valiosos que todos temos e que não pode ser comprada. Menciono sempre – e de memória – um texto de Cecília Meireles: “Os jardins da memória só a mim pertencem! Percorro-os quando quiser…”.

Há coisas que nos dão prazer de lembrar. Ou­tras, preferíamos esquecer. Mas a perda da memória é patologia. Não é algo que se possa manipular. O que se pode fazer é evitar que uma memória se exprima. Aquilo que nos incomoda pode ser afastado, assim que prenuncie ressurgimento. Para o neurocientista Ivan Izquierdo, “a falta de uso de uma determinada memória implica em desuso daquela sinapse, que aos poucos se atrofia”.

No mais, inexiste estratégia para selecionar lembranças e em seguida eliminá-las. Até porque a mesma informação é salva por diversas vezes pelo mecanismo da plasticidade. Daí lembranças amargas vez o outra nos amargurarem novamente.

É saudável cultivar a memória. Até a memória do medo, que é o que nos mantém vivos. O medo nos faz atentos e vigilantes. Se ele for tão grande que nos paralisa, “antes parado do que morto. O cérebro atua para nos preservar, essa a prioridade”, ainda citando Ivan Izquierdo.

A vida é contínuo aprendizado. A cada dia aprendemos algo novo. E se nada aprendemos num determinado dia, esse é um dia perdido. Podemos trei­nar a memória para que ela retenha o que é agradável e encontre fugas para o que nos molesta. Um exercício racional de olvidar aquilo que nos machuca.

A sabedoria antiga descobriu a fórmula ideal. Guardar o que nos enleva, cultivar a gratidão para que a recordação do bem que nos foi feito enfatize a empa­tia com o ser generoso. Tentar esquecer as maldades, as traições, a maledicência, o acinte, o deboche, a insensibilidade e a ingratidão. Sintomas da miserabili­dade da matéria humana, infelizmente tão frequentes.

Passar pela existência terrena sem traumas não é para os humanos. Estes são imprevisíveis e incontrolá­veis. Quem se apega aos momentos infelizes prolonga a infelicidade. Assim como a inveja, veneno que alguém toma com a esperança de que o outro venha a morrer.

Nada obstante, quem está a perder a memória daria tudo para se lembrar até dos momentos terríveis. Eles fazem parte de sua história.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 23/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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