Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Geração de prosumidores

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Na presente fase de pessimismo e de visão ca­tastrófica do futuro, é interessante ler livros como “So­ciedade com Custo Marginal Zero”, de Jeremy Rifkin, publicado pela editora M.Books. Ele é um professor da Universidade da Pensilvânia, onde ensina execu­tivos a tornarem suas empresas sustentáveis, projeto da Escola de Negócios Wharton. Observa que o dina­mismo e a eficiência produtiva, alvo de todos os em­presários, tangidos pela onda empreendedorista, além da rápida mutação tecnológica, farão com que o capi­talismo perca sua dominância e ceda espaço para uma economia solidária, colaborativa e compartilhada.

O avanço da ciência e da tecnologia acelera o ritmo de produção e faz com que o custo marginal, o preço para produzir uma unidade a mais de um determinado produto, chegue bem próximo a zero. Amplia-se o acesso a todos os bens de consumo. Por consequência, os lucros das corporações se reduzem, a ideia de propriedade abandona o seu caráter abso­luto – o que já ocorre com a implementação da ideia de “função social” – e a economia da escassez é subs­tituída pela abundância.

Na visão idílica de Jeremy Rifkin, o ser huma­no passará, naturalmente, a compartilhar seus bens, a desfrutar de produtos e de serviços independentemen­te da necessidade de comprá-los.

Hoje a concepção capitalista prestigia o inte­resse próprio, é motivada pelo ganho material, pelo egoísmo e pelo exacerbado individualismo narcisista. Passar-se-á a vivenciar uma era de fruição de bens co­muns sociais, motivados por interesses colaborativos e impulsionados por um profundo desejo de se conec­tar com os outros, de dialogar e de compartilhar.

Para o autor, sinais dessa mutação tornam-se perceptíveis quando a volúpia do automóvel, ícone do consumismo e símbolo da propriedade privada, perde força perante uma geração que já não se entusiasma com a posse exclusiva do automotor. Além do com­partilhamento, animam-se os jovens com a ideia de fruir de carros autônomos, aqueles que não precisam de condutor. Eles atendem a uma outra tendência con­temporânea, ao menos perante os mais sensíveis: a tu­tela responsável do ambiente.

Assim também, casas, roupas, objetos, poderão ser compartilhados, na visão consciente de que “do mundo nada se leva’ e que a sabença popular eterni­zou no dístico “caixão de defunto não tem gaveta”.

A facilidade de acesso a bens da vida que se­rão cada vez mais baratos e mais disponíveis torna­rá os jovens libertos das amarras materiais. Em lugar da acumulação de bens, do enriquecimento pessoal, o mais cobiçado será o prazer de cultivar interesses colaborativos. Em lugar de “ter”, tornar concreto o so­nho de uma qualidade de vida sustentável.

Tudo isso afetará, é natural, o mercado de traba­lho. O mundo já está diferente e ficará ainda melhor. Os desafios são imensos. Basta dizer que mais da me­tade das profissões ainda indicadas como o futuro das crianças de hoje deixará de existir dentro de duas dé­cadas. A educação tem o compromisso aparentemente utópico de formar profissionais para misteres que se­quer têm denominação.

Mas a internet das coisas, que propicia a conec­tividade entre objetos e pessoas, facilitando as tare­fas e rotinas, o big data e o infinito acervo de dados e suas potencialidades, os algoritmos, a inteligência artificial, cada vez mais surpreendente, a robótica, a cibernética, vão eliminar postos de trabalho, mas vão permitir o desenvolvimento da sensibilidade. Tempo e espaço para as artes, para a poesia, para o cultivo da natureza, para oferecer talento para a beleza.

A impressora 3 D converterá o hoje consumidor em “prosumidor”. Ou seja, será ao mesmo tempo um produtor e um consumidor. Fará aquilo que desejar, desde uma caneta a um móvel, uma obra de arte e um chocolate, uma prótese e uma colher.

Há, portanto, quem acredite que Rousseau tinha razão e que a índole humana é direcionada à bondade. Que estejam certos e que Hobbes tenha se equivocado ao edificar o seu “Leviatã”.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 24/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Geração de prosumidores

  1. Obrigado pela exposição, pela leitura, pelo acesso a tanta informação pertinente. Pareceu-me estar lendo o escritor suiço, Julio Verne, dada uma implícita sensação de otimismo e futurismo muito bem combinados, e, no arremate final, não poderia deixar de citar algum Filósofo, no caso o velho embate entre as visões distintas das origens da natureza humana entre o inglês, Thomas Hobbes e o francês, Jean Jacques Rousseau.

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