Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O celular ajuda a educação?

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Parece que o mergulho da humanidade no mun­do digital é irreversível. As tecnologias da informação e comunicação equivalem a uma quarta ou quinta Re­volução Industrial e vieram para ficar. Esse fenômeno oferece várias perspectivas. Uma delas é a celeuma em torno do uso de celulares e outros aparelhos móveis pelos alunos em sala de aula, que é proibido pela lei estadual 12.730/2007 – há leis semelhantes em outros estados, como MG, RJ e DF. Deve continuar vedada a sua utilização? Mesmo quando o professor entender que o aprendizado ganhará se o estudante puder con­sultar uma rede, resolver um game educativo ou atuar em equipe?

A consulta aos alunos terá uma só resposta: o uso de celular, smartphone, tablet ou computador em sala de aula deve ser permitido. Queira-se ou não, os ins­trumentos eletrônicos de comunicação e de acesso às redes da web já fazem parte do cotidiano dos alunos. As novas gerações nascem com chip, têm circuitaria neuronal inteiramente digital, enquanto a nossa conti­nua analógica. Somos nós que devemos nos adaptar à realidade, não a criança ou o jovem declinar de viver sua contemporaneidade.

Um dos raros consensos no universo da educa­ção é o de que as aulas prelecionais no cardápio de disciplinas compartimentadas não seduzem o aluno. Esse é um dos motivos da crescente evasão no ensi­no médio, exatamente a faixa de responsabilidade dos estados e aquela destinada a um aluno que já tem dis­cernimento, adota sua própria concepção de mundo e de futuro e não se satisfaz com o divórcio entre o que se ensina e o que é necessário para sobreviver num futuro complexo e incerto.

Uma das fórmulas para manter o aluno interes­sado no aprendizado é propiciar a ele a oportunidade de se conectar com o mundo. As informações nunca estiveram tão disponíveis e acessíveis a todos os que têm curiosidade. Se a escola não oferecer aos estudan­tes da rede pública a competência para engajamento saudável no uso de mídias e outros provedores de in­formação, incluindo os da internet, o acesso continu­ará por outros meios, mas sem garantia de que haverá qualidade na assimilação do conteúdo.

O planeta está cada vez menor e, queira-se ou não, caminha-se para a cidadania global no mundo di­gital. A escola particular já maneja há muito tempo esse universo e, se a rede pública não adotar políticas e estratégias consequentes, a tendência é o aumento das disparidades entre os que têm e os que não têm acesso à informação e às mídias e entre os que são capazes ou não de exercer a liberdade de expressão.

Somente com a orientação de mestres capaci­tados é que o aluno terá condições de absorver todos os aspectos relacionados ao uso intensivo das redes sociais, universo em que já passa muitas horas por se­mana. É preciso treiná-lo para se proteger e aos inte­resses culturais locais e globais que podem ameaçar a valorização do pluralismo e da diversidade cultural. As mídias sociais exercem papel de extremo relevo e podem servir para fazer o aluno compreender a missão e as funções da mídia e de outros provedores de infor­mação numa sociedade que se pretende democrática.

O uso dos equipamentos eletrônicos, notada­mente o celular, garantirá maior participação ativa e democrática, atendendo à vocação constitucional de edificar uma pátria justa e sem preconceitos, rumo à democracia participativa. Simultaneamente, favore­cer-se-á a conscientização sobre as responsabilidades éticas da cidadania global e se estimulará a prática da diversidade, do diálogo e da tolerância, pois um dos valores do estado de direito de índole democrática do Brasil é o pluralismo.

As várias plataformas fornecem ao estudante um acervo de conhecimento que, se não for adequa­damente selecionado, causará confusão e perplexida­de, ambas nocivas à formação integral. Não é recente a preocupação de educadores de reconhecido prestí­gio em todo o planeta em propiciar uma alfabetiza­ção midiática e informacional para jovens de todos os continentes.

A partir do artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, houve o reforço da Declara­ção de Grünwald, de 1982, a reconhecer a necessidade de os sistemas políticos e educacionais promoverem a compreensão crítica, pelos cidadãos, dos fe­nômenos da comunica­ção. A Declaração de Alexandria, de 2005, coloca a alfabetização midiática e informacional no centro da educação con­tinuada e isso não é novidade nas escolas particulares. Estas mantêm ambiente de aprendizagem motivador e atraente, com animações de exuberante detalhamen­to, interatividade com simulações exclusivas e uso de objetos de aprendizagem 3D. Por que não estender a experiência para a rede pública?

É urgente dotar as escolas estatais de tecnologia educacional, para isso chamando à responsabilidade as concessionárias de telecomunicações que, por exer­cerem atividade concedida pelo estado, têm obrigação de oferecer conectividade à escola pública. E como é que o celular poderá ajudar na sala de aula?

Tudo dependerá do treinamento e da criativida­de dos professores. Num determinado momento, veri­ficará que a atenção arrefece e desafiará os alunos para o encontro de uma resposta na internet. Ou mandará “torpedos” com questões que devem ser respondidas individualmente ou em grupo no menor tempo pos­sível. As pesquisas ganharão outro colorido se reali­zadas durante curto período, dentro da sala de aula, abrindo-se ao aluno que primeiro localizou o tema a possibilidade de verbalizá-lo.

Mas o uso da tecnologia vai muito além. A co­brança de exercícios no horário em que o estu­dante estiver em casa, a lembrança de que haverá avaliação no dia seguin­te, a recomendação de leituras e tantas outras possibilidades reclamam o pro­tagonismo de ambos: aluno e professor. Sabe-se que já existe, informalmente, um uso restrito do celular em sala de aula, mas, como a lei ainda proíbe, não se dis­põe de dados consistentes sobre essa experiência.

O importante é acreditar na maturidade da rede pública. Haverá maior interação entre os parceiros, pois hoje o relacionamento aluno/mestre é diferente de há algumas décadas. Por sinal, há relatos de alunos que se encarregam de “tutorar” professores com difi­culdades no manejo das redes sociais, monitorando-os e criando laços de um convívio mais aberto, mais fran­co e menos formal, o que produz melhores resultados no processo de ensino/aprendizado.

Há um número infinito de opções, todas elas ins­tigantes. Por sinal, a proposta da Secretaria da Educa­ção do Estado de São Paulo não pretende revogar a lei que proíbe o uso do celular em sala, durante o período reservado à aula. Apenas ressalva a finalidade peda­gógica e dependerá do professor encontrar fórmulas hábeis para que esse uso convirja com os objetivos da educação, em sua tríplice finalidade: desenvolver apti­dões e habilidades pessoais, qualificar para o trabalho e capacitar para o saudável exercício da cidadania.

 

Fonte: Veja Online | Data: 30/03/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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