Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Não há por que blindar

O Brasil do quase nenhum consenso debate hoje, em segundo plano, é claro, diante da conjuntura nacional, o futuro da educação. Foi entregue ao Con­selho Nacional de Educação o texto da BNCC – Base Nacional Comum Curricular e o Ensino Médio está na alça de mira dos educadores, estudantes e de toda a sociedade.

O derrotismo é componente obrigatório de todas as análises. Se é verdade que não existe o que come­morar em termos de êxito educacional, principalmente a partir do cotejo com as nações realmente civilizadas, nem tudo é deserto neste continente de exuberância criativa.

Parta-se da análise da Constituição Cidadã, ainda vigente, que tratou a educação com o mesmo ambicioso projeto com que idealizou a Nação de nossos sonhos.

O texto é inspirador. O artigo 205 do pacto fede­rativo dispõe que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. Será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno de­senvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Os princípios do artigo 206 devem ser nortea­dores de qualquer reforma: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberda­de de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pen­samento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de institui­ções públicas e privadas de ensino; IV – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V – valo­rização dos profissionais da educação escolar, garanti­dos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusivamente por concurso público de provas e tí­tulos, aos das redes públicas; VI – gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII – garantia de padrão de qualidade; VIII – piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pú­blica, nos termos de lei federal.

Esse ideário há de estar presente e direcionar todas as tentativas de aprimoramento do processo educacional. Para o que diz respeito à BNCC, importa lembrar que a liberdade de aprender e ensinar e o plu­ralismo de ideias e concepções pedagógicas admite inúmeras formatações. Não há necessidade de blinda­gem ou de adoção de padrão único. Devem ter lugar — e isso é muito significativo — experimentos e ini­ciativas pioneiras, com vistas a apurar qual a melhor fórmula de fazer com que o aprendizado seja eficiente e sedutor.

Isso vale principalmente para o Ensino Médio. O jovem percebeu que o esquema de aulas prelecio­nais, em ambientes fechados, em disposição enfi­leirada de eras longevas e superadas, já não produz qualquer efeito. Por isso a evasão, o desalento e a pro­liferação de integrantes da geração “nemnem”: nem estuda, nem trabalha.

O desafio para aqueles que realmente querem que a educação dê certo é criar estratégias de sedu­ção da juventude, para que ela perceba que aprender é prazeroso e essencial. O aprendizado precisa ser di­vertido. O passo a passo é o caminho da descober­ta da verdade. Desvendar o tesouro ainda oculto do conhecimento só pode atrair o jovem que tiver a sua curiosidade desperta por verdadeiros estimuladores da vontade de saber.

A boa notícia é que existe muita gente idealista envolvida em projetos pessoais, pioneiros e exitosos graças a essa vocação a que atenderam. Ensinar, in­centivar, estimular, orientar, esclarecer. Educadores que não hesitam e enveredam por sendas novas, de­senvolvem estratégias inteligentes, trabalham com o protagonismo do alunado, com quem continuam a aprender e têm o prazer e alegria de concluir que a co­ragem não foi em vão. Deu certo! Alunos satisfeitos, ambiciosos na continuidade do aprendizado, que é um projeto de vida. Sem termo final.

Ousadia e audácia valem a pena. A educação não admite blindagem ou homogeneidade. Isto é pró­prio de formigueiros ou de colmeias, não da surpreen­dente e maravilhosa comunidade de seres pensantes.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 28/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

Foto: Daniel Guimarães/A2IMGSaresp 2016

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Escola: vetor de inovação

O avanço das tecnologias da informação e da comunicação veio para ficar. A desenvoltura com que as novas gerações se servem dos equipamentos eletrônicos é notável. Descobrem de imediato aplicativos. Comunicam-se com rapidez e instantaneamente fazem circular as informações de seu interesse.

Há experiências interessantes em curso. Uma delas é o “aluno tutor”. Um jovem afeiçoado à tecnologia pode ser multiplicador da facilitação de seu uso não só para colegas, mas também para professores e outros profissionais da educação.

Essa contaminação para o bem é mais importante até do que a automação. As salas de aula ainda não mudaram. Continuam fisicamente como há séculos. Fileiras de carteiras, dificuldade de interação. Aulas prelecionais e técnicas pedagógicas distanciadas do interesse do alunado.

O bom uso de tudo aquilo que a tecnologia obteve nos últimos anos permitirá verdadeira revolução na escola. A tecnologia da comunicação e da informação permite melhor comunicação, eficiente armazenamento de dados, implementação de uma estratégia de colaboração que fará de corpos autônomos uma equipe coesa e direcionada à obtenção do melhor resultado, além de um gerenciamento eficaz.

Tudo se torna mais fácil quando o aluno é chamado a colaborar com a escola, propondo, sugerindo, assumindo responsabilidades e atuando como protagonista, não como objeto-destinatário de um projeto educacional a cuja elaboração não foi admitido a participar.

Tudo indica estarmos numa encruzilhada importante e desafiadora. Adota-se uma nova Base Nacional Comum, rumo à adoção de currículos adaptados à realidade local. O ensino médio merecerá as reformas tão esperadas e necessárias. Se há um consenso na educação brasileira é a de que depois da fase fundamental, quando o aluno já adquiriu discernimento e capacidade de escolha, ele se desencanta com o anacronismo da escola.

Todos são chamados a contribuir para que a escola seja um vetor de inovação e abrigue todas as vocações, vontades e talentos. É disso que o Brasil está a necessitar e com nítida urgência.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 27/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

Foto: Daniel Guimarães / A2img

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Pânico ou indiferença?

O aquecimento global está causando catás­trofes de todas as dimensões no globo inteiro. Não adianta pretender ignorar. Elas não estão apenas em locais longínquos, inacessíveis para a maior parte de nós. Elas chegam ao nosso quintal. As inundações, as secas, o regime pluvial caótico, a intensificação dos raios. Isso é tudo natural?

Parece que não. Por isso mesmo, cientistas dos mais prestigiados institutos forçaram os Es­tados a firmar tratados. A literatura sobre mudan­ça climática e aquecimento global são lançados a cada semana. O cenário mais dramático foi de­senhado por Mark Lynas, no livro “Six Degrees: Our Future on a Hotter Planet” (Seis graus: nosso futuro num Planeta mais quente). É um jornalis­ta que durante longo período estudou ciência e entrevistou cientistas. Argumenta com o derreti­mento de geleiras, inundações muito rápidas, se­cas desastrosas e ondas letais de calor. Para ele, o aquecimento global está se acelerando e a causa é uma só: a insensata atividade humana. É o homem que produz gases causadores do efeito-estufa. Já atravessamos o ponto crítico e nossos sistemas já apresentam o quadro irreversível de catastrófico desequilíbrio.

O que significa? No final deste século, a Terra estará praticamente estéril e despovoada de suas espécies, sobrando alguns poucos humanos refugiados nos últimos habitats. Não é muito di­ferente a conclusão dos relatórios do Painel Inter­governamental de Mudanças Climáticas – IPCC, criado em 1988 pelo Programa Ambiental das Na­ções Unidas.

Outra voz influente é a de James Hansen, climatologista da Nasa. Num livro impactante – “Storms of My Grandchildren: The Truth About the Coming Climate Catastrophe – (Tempestades do meu neto: a verdade sobre a próxima catástro­fe climática) sustenta haver chegado a undécima hora do aquecimento global. Foi por isso que as Nações acordaram a firmar o Protocolo de Kyoto e chegaram ao incrível Acordo de Paris.

Só que agora os Estados Unidos retrocedem. É mais cômodo, em nome da soberania, da defe­sa dos desempregados das minas de carvão – algo que não chega a 100 mil trabalhadores – pôr em risco a sobrevivência da espécie.

A metáfora da avestruz é típica na descrição das inconsequentes atitudes humanas: enfia-se a cabeça na areia e não se enxerga o que acontece em volta.

Só que isso não surte efeito. Não dá para ig­norar crises hídricas, nem a imprevisibilidade do clima, nem o retorno de epidemias e a ressurrei­ção de doenças que a pretensiosa inteligência dos homens considerava erradicadas.

O desmatamento violento, a substituição da mata nativa por pasto ou plantações homogêneas, a partir de sementes geneticamente modificadas e, portanto, estéreis, tudo tem consequência e por isso haverá um preço a pagar.

O Brasil se antecipara na consciência eco­lógica ao se mostrar ao mundo como protetor de suas florestas. Colaborou com a elaboração do Relatório Bruntdland, que formatou o con­ceito de sustentabilidade – sabendo usar não vai faltar – e recebeu os outros Estados durante a Eco 92. Teve uma “grife verde” no Ministé­rio do Meio Ambiente, a seringalista Marina Silva, padrão de superação, pois nasceu numa região inóspita, alfabetizou-se praticamente adulta e experimentou o que significa desres­peitar a natureza.

Só que a partir daí foi só retrocesso. Em Jo­hanesburgo, em 2002, a performance brasileira já não foi a mesma. Em 2012, até na principio­logia houve marcha a ré. A revogação do Código Florestal, a flexibilização dos licenciamentos am­bientais, a devastação sem cobro, o desmonte da fiscalização, tudo mostra que o discurso é um, a ação é outra.

A esperança é que a criança e a juventude, mais lúcidas do que a maioria dos que detêm con­dições de fazer as mudanças, tenham coragem de colocar cobro e paradeiro a essa destruição. Não é a Terra que corre perigo. É a vida. E vida é algo que ainda não se produz com tecnologia e ciência.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 21/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Dá para espalhar

O derrotismo e a falta de alen­to não constituem a regra quando se cuida de verificar o que se faz no Brasil para alavancar o gosto pela leitura. Se as livrarias estão regis­trando natural queda de receita, pois as vendas se retraem no mo­mento de crise, há sinais de vitali­dade que não podem ser ignorados. Assim os “Clubes de Leitura”, que já foram populares há algumas dé­cadas, voltam e são impulsionados por jovens antenados, bem pluga­dos às redes sociais e que, mesmo assim, não dispensam o achego ao livro de papel.

Quem não se lembra do “Cír­culo de Leitura”, que propiciava ao assinante um livro por mês, de lite­ratura essencialmente brasileira e que conseguiu disseminar o gosto por autores que não chegariam aos olhos do leitor não fosse adotada essa inte­ligente estratégia?

Agora os “Clubes” são temáti­cos, editam obras esteticamente atra­entes, com gravuras especiais, com embalagem que já encanta a visão, mesmo antes de ser aberta.

O público infantil também é lembrado. Sabe-se que o amor ao li­vro nasce em casa. O lar é a primeira biblioteca. Ninguém substitui a mãe ou o pai, ou melhor ainda, ambos, a contar estórias e a entusiasmar a criança no mergulho irreversível pela fantasia e pela aventura que um bom livro oferece.

Outro aspecto interessante des­se fenômeno é a multiplicidade das fórmulas de se editar um livro. Era muito difícil publicar. Hoje, até em casa se consegue imprimir uma obra, ainda que não ostente a qualidade técnica e o esmero de uma produção profissional.

O hábito de se distribuir livros por lugares de grande fluxo de pes­soas é também saudável e simbóli­co. Mais bonito ainda seria a proli­feração desse costume saudável e leitores oferecerem os livros já lidos a espaços que necessitam da colabo­ração de doadores. Principalmente as salas de leitura das escolas, as bi­bliotecas dos abrigos, dos asilos, das casas de repouso, das prisões, dos hospitais.

Motivar uma criança à leitura é fornecer-lhe diretriz segura para um futuro digno. Quem é seduzido pelo amor às letras saberá encontrar des­tino compatível com a excelência da espécie humana, vocacionada à per­fectibilidade, embora nem sempre pareça convencida disso.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 24/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Inovar com urgência

A palavra mais utilizada por aqueles que têm pressa na retomada do desenvolvimento e na conversão do mundo num lugar em que todos possam viver dignamente mercê de seu trabalho é inovação. É a questão mais urgente de nossos dias. Quem descobriu primeiro foi a empresa, a instituição que teve de sobreviver a uma constante adversidade. O avanço da ciência repercutiu na transformação tecnológica e muitas atividades pereceram. Só sobrou quem inovou.

Mas inovação tem de estar em todas as consciências. Nos lares, se os pais quiserem que seus filhos tenham um futuro com que sonharam. Na escola, que é ainda o lugar ideal para a transmissão do conhecimento e para o treino da infância e juventude para uma vida em que vai prevalecer o inesperado.

Inovação para ensinar aos alunos, mas inovação também na gestão. A escola também precisa de uma tecnologia de ruptura. Ou seja: criar um esquema novo, uma estratégia ainda não utilizada, que gere um resultado melhor. Há bons livros que podem sugerir ideias a quem queira inovar. Clayton Christensen, professor de Harvard, escreveu três: “O Dilema do Inovador”, “O Crescimento pela Inovação” e “O que vem por aí”. É um bom começo.

O importante é ser audacioso. Ousar. Se ficarmos esperando que a necessidade de inovar chegue, nós é que chegaremos ao final da existência e não teremos inovado. Por isso é que Christensen brinca a afirmar que “a única maneira de inovar a tempo de não morrer é ser paranoico”. Para ele, é necessário criar a ciência da inovação. E o Brasil é um espaço apropriado para isso. Somos criativos, adaptamo-nos ao novo, somos flexíveis. Temos facilidade para enfrentar novidades.

Mas temos também de treinar nosso cérebro, que tem alguns inimigos: o sedentarismo, a insônia, o estresse crônico. Treinamento é importante para tudo. É mediante esforço, empenho e vontade que as mentes superpoderosas quebram seus recordes. Foi assim que o canadense David Farrow memorizou 3.068 cartas de baralho depois de olhar a sequência uma única vez. O espanhol Alberto Coto somou mentalmente 10 números de 10 dígitos cada um em 3 minutos e 42 segundos e Marc Jornet Sanz, outro espanhol de 16 anos, multiplicou 10 vezes, em menos de 4 minutos e meio, dois números de 8 dígitos.

Sem o sacrifício acelerador das habilidades da inteligência, não se chega ao pódio.

Fonte: Diário de São Paulo | Data: 20/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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A difícil arte da generosidade

O século 21, que o sociólogo Domenico de Masi nos acenara como se fora o período feliz do ócio pra­zeroso, com redução ao mínimo das horas de trabalho e sobra para o deleite artístico, o entretenimento ou mero ócio, na verdade oferece um quadro bem diver­so. Não só o tempo é cada vez mais escasso – há quem acredite que o movimento de rotação da Terra foi ace­lerado –, como agora se trabalha mais. Muito mais.

Enquanto o século passado enfrentou duas gran­des guerras e no consequente discurso a humanidade abominou a solução cruenta para os conflitos, nestes tempos que correm continuam as agressões, os aten­tados, o terrorismo, o uso de armas químicas e nu­cleares. Roncos fortes de nações que fazem questão de proclamar sua soberania e se consideram imunes, embora patente sua vulnerabilidade.

O fundamentalismo cego não hesita em matar inocentes. Crueldade difusa, no cenário macro e no ambiente micro. Mesmo quando desnecessário o uso da maldade para a obtenção de resultados ilícitos, não existe pudor ou escrúpulo, de parte dos infratores, no abuso da força ou na manifestação impiedosa dos mais inferiores instintos.

O diagnóstico para esta sociedade mundial en­ferma é também plural, pois os consensos são raros. Inegável o reconhecimento de que os valores desapa­receram ou estão em acelerado declínio. As institui­ções estão frágeis e a fragmentação de pilares como legitimidade, comprometimento e pertencimento gera um clima de angustiante perplexidade.

Não adianta fugir ao real. A crueza está à espreita. Ninguém pode estar seguro sobre o porvir. Os prenún­cios não são animadores. Ainda assim, é urgente reagir.

Como é que se enfrentam dias plúmbeos?

A conversão há de ter início no tribunal inevi­tável da consciência. Mentes sensíveis não se podem sentir desobrigadas de procurar caminhos. O espaço em que a cada ser humano foi conferido vivenciar sua aventura terrena pode ser melhor se houver foco, determinação e vontade. Não é suficiente a intenção proclamada e não concretizada em ação. Mas toda e qualquer atuação no sentido do bem é parte impres­cindível do resgate da esperança.

Ser humano algum poderá ser feliz, estar inteira­mente em paz consigo mesmo, se permanecer isolado ou circunscrito ao pequeno círculo de sua intimidade. Tudo o que acontece ao redor afeta o rumo e o ritmo de nossa trajetória. Enquanto existir um semelhante excluído, a sofrer injustiça, sentir aflição ou dor, não haverá descanso para quem se considera humanista e leva a sério o respeito à dignidade da pessoa humana. Esse o supraprincípio norteador de nosso ordenamen­to, balizador de todas as condutas, sejam públicas, se­jam as atinentes à vida privada.

A implementação desse comando fundante – encarar cada ser humano como pessoa revestida de ínsita dignidade – não necessita de escala para valer. Ele é bastante em si. Não se está a falar em grandes heroísmos. São suficientes pequenos gestos. Mas di­recionados ao mesmo alvo. Basta a singeleza da boa vontade, fruto de uma reflexão consistente. Qual é o nosso papel no curto lapso que nos é dado permanecer sobre a face da Terra? Temos uma missão a cumprir ou somos objeto de um fatalismo inconsequente, que nos condenou a nascer neste país, nesta época, nesta família e nas demais circunstâncias que nos condicio­nam e limitam?

Dentro da esfera de abrangência que as circuns­tâncias nos reservaram, o que depende de nós para ser mantido ou para ser modificado nas estruturas do pen­samento, que direcionam nossos hábitos? Temos uma esfera de liberdade para tentar transformar uma parce­la do mundo, ainda que pareça insignificante, como o nosso próprio destino?

Há muita coisa que um indivíduo pode fazer para reduzir, ainda que em pequena dimensão, a enor­me carga de atribulações que onera todos os viventes. Alguns destes, muito mais penalizados do que outros.

Pense-se no compromisso extraível de uma con­cepção formulada pelo constituinte de 1988, a respei­to da mais séria questão posta à consideração dos bra­sileiros. A educação!

Direito de todos, educação é dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade – arti­go 205 da Constituição da República. Ninguém está excluído de participar desse processo redentor e es­sencial à solução de todos os problemas brasileiros. Absolutamente todos! Violência, emprego, saúde, am­biente, moradia, tudo encontra resposta satisfatória se houver adequado preparo das novas gerações.

Todos nos situamos numa destas três esferas de responsabilidade: ou somos família, ou somos Estado, ou somos sociedade. E temos obrigações explicitadas pelo constituinte para com as crianças e jovens.

Por que não dispor de algum tempo, por menor que pareça, para acompanhar o desenvolvimento do aprendizado de um só estudante? Por que não partici­par do projeto Escola da Família, que aproxima o nú­cleo familiar e a comunidade da escola pública, centro de convergência dos superiores interesses daquele es­paço de convívio?

Há pessoas e entidades privilegiadas que usu­fruem o êxito propiciado pelo mercado e poderiam fazer mais do que outros. Todavia poucos são os que, embora nessa condição, respondem positivamente ao convite de participação na vida escolar. Os que aten­dem podem testemunhar que em regra recebem mais do que ofertam. Saber-se importante para transformar o destino de um educando é prêmio significativo para os homens de boa vontade, que já foram chamados no decorrer da História a acolher a verdade e mudar a rota do individualismo egoísta.

Se o século 21 não nos presenteou com a dis­ponibilidade plena do tempo nem trouxe a merecida ampliação das oportunidades de prazer, não nos pri­vou do exercício da generosidade. Arte maior, virtude fundamental para validar uma vida e para ressignificar a frágil e efêmera passagem de cada pessoa por este vale de lágrimas.

Fonte: Estadão.com | Data: 18/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Apoteose dos absurdos

Há momentos em que se tem dúvida fundada a respeito da racionalidade humana. Quando se assiste à inacreditável utilização de gás mortífero para ceifar vidas inocentes, ou a crueldade gratuita exercida con­tra um ser desarmado, por um bando histérico tomado de ira.

A humanidade está a naufragar? Triste é verifi­car que a inércia anestesia boa parte da lucidez. “Isto não é comigo!”. Perde-se a capacidade de se apiedar do semelhante, elimina-se a compaixão, prevalece o isolamento egoísta no medíocre quintal dos mesqui­nhos interesses.

Tem-se a impressão de acelerado retrocesso. A sanha irada sufoca as reações que poderiam partir da ponderação. Não existe espaço para o diálogo, para o respeito em relação ao outro. Pobre Voltaire! Quem hoje se disporia a repetir a lição de humildade e com­preensão do ponto de vista alheio, propondo-se a ga­rantir, até à morte, o direito à contrariedade?

Em lugar da cidadania proativa, protagonista, regente de sua própria existência e fiscal atenta do Es­tado, artifício criado para facilitar o convívio, man­tém-se a orientação de produzir uma legião de súditos. Sequiosos dos favores e benesses do Governo, sempre justificados mediante invocação da infinita cornucó­pia dos direitos. Todos direitos fundamentais. “É meu direito!”.

O brasileiro faltou à aula dos deveres. Negligen­cia as responsabilidades e as obrigações. Prefere espe­rar que tudo “caia do céu” e supra necessidades, ca­rências, deficiências, desejos, aspirações, pretensões, idiossincrasias e utopias.

Só que ninguém esperava uma crise tão drástica. Os rombos continuam cada vez mais profundos. Den­tre as empresas estatais, conta-se nos dedos de uma só mão as que mereceriam subsistir. O mais é excesso pretensioso de quem acredita que sem sacrifício, es­forço, trabalho e dedicação, sobrevenha qual milagre a produtividade, a eficiência e o progresso.

Nada como um período de trevas para a busca urgente de uma luz. Por mínima que seja. O que eu posso fazer pelo Brasil? Ele pouco poderá fazer por mim nes­te momento nefasto. Que a sensatez ressurja e se ponha freio na apoteose de absurdos que assombra o País.

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 17/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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