Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

PIB ou IDH?

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Admito repetir, em várias falas, a frase de efei­to de meu amigo Ives Gandra da Silva Martins: “O Brasil não cabe no seu PIB” ou o que tem se tornado comum nos últimos tempos: “O Brasil ficou velho an­tes de ficar rico”. Mas confesso minhas dúvidas sobre a supervalorização do PIB, face a outros fatores que precisam ser levados em conta se quisermos uma Na­ção verdadeiramente justa e solidária.

Minhas dúvidas quanto ao PIB cresceram quan­do tomei conhecimento do livro “O Mundo depois do PIB”, de Lorenzo Fioramonti, professor de Economia Política em Pretória, África do Sul. Para ele, ficarmos amarrados no PIB é contrário à edificação de socieda­des melhores.

O PIB é uma invenção de Simon Kuznets que, em 1934, demonstrou que três anos depois do grande crash de Nova York, a economia dos Estados Unidos se reduzira à metade. Daí a oportunidade de se focar tal assunto agora, pois os observadores internacionais têm certeza de que a crise brasileira é muito pior do que aquela que sacudiu o mundo em 1929.

O PIB mede a produção de armamentos, a práti­ca de crime, o combate ao crime, o custo de acidentes e muita coisa mais. Valoriza o que não deve e deixa de lado o que deveria ser estimado como valor, ainda que intangível. Por exemplo: a compra de entorpecente é computada, assim como o sexo pago, enquanto ho­ras de trabalho voluntário não são consideradas para o cálculo do PIB.

Como conferimos valor ao que é visível, dessig­nificamos o que é invisível. Apoiamos tudo o que in­crementa a atividade econômica, mesmo quando esta é nefasta, seja à moral, seja à sustentabilidade, seja ao ambiente saudável. Repelimos a possibilidade de tributar a emissão de poluentes. Mas nos submetemos a cortes drásticos, se eles equacionarem a balança des­proporcional e elevarem o PIB.

Só que não se segura o vento com as mãos. O mundo já mergulhou na 4ª Revolução Industrial e as comunicações impõem paradigmas em constante mu­tação. A rebelião das novas gerações, cuja circuita­ria neuronal é digital, enquanto a nossa é analógica, já criou bitcoin, apps de compartilhamento, Airbnb, Uber, VizEat, serviço que permite a qualquer pessoa que tenha vontade abrir sua copa e sirvir almoço ou jantar a quem partilhe sua mesa e pague por isso. É a economia do partilhamento, que conduzirá o mundo a uma outra convivência. O futuro, para Fioramonti, nos oferecerá um cenário fabuloso para quem acredi­ta na bondade natural do ser humano: “Uma plurali­dade de projetos provindos de sinergia pessoal, feiras de produtos orgânicos locais, projetos comunitários de jardinagem, serviços de manutenção e reforma, oficinas de artesanato, saúde integrada, escolas con­troladas pelos pais”. Será a volta às origens, desne­cessária a moeda, favorecido o escambo. Vida mais singela e menos subordinada aos preceitos rígidos e cruéis da economia.

A leitura do livro de Lorenzo Fioramonti se completa com a de outros dois livros: “Quanto é Su­ficiente”, de Robert e Edward Skidelsky, que põe em pauta o valor do dinheiro e sua função para propiciar uma vida boa. Por que se trabalha cada vez mais, quando Domenico De Masi nos prometera a “era do ócio”? E o outro livro é “Férias Sem Fim”, de Bru­no Picinini, que oferece uma estratégia para deixar as profissões tradicionais, praticamente em estágio ter­minal, para atuar com empreendedorismo digital. É “fashion” produzir e vender conteúdo.

Se a Noruega é o país mais feliz do mundo, diz a ONU, e o Brasil está em 22º, pode-se melhorar esse ranking. Que tal pensar mais em Índice de Desenvol­vimento Humano – IDH e menos em PIB – Produto Interno Bruto?

Fonte: Correio Popular | Data: 07/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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