Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A difícil arte da generosidade

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O século 21, que o sociólogo Domenico de Masi nos acenara como se fora o período feliz do ócio pra­zeroso, com redução ao mínimo das horas de trabalho e sobra para o deleite artístico, o entretenimento ou mero ócio, na verdade oferece um quadro bem diver­so. Não só o tempo é cada vez mais escasso – há quem acredite que o movimento de rotação da Terra foi ace­lerado –, como agora se trabalha mais. Muito mais.

Enquanto o século passado enfrentou duas gran­des guerras e no consequente discurso a humanidade abominou a solução cruenta para os conflitos, nestes tempos que correm continuam as agressões, os aten­tados, o terrorismo, o uso de armas químicas e nu­cleares. Roncos fortes de nações que fazem questão de proclamar sua soberania e se consideram imunes, embora patente sua vulnerabilidade.

O fundamentalismo cego não hesita em matar inocentes. Crueldade difusa, no cenário macro e no ambiente micro. Mesmo quando desnecessário o uso da maldade para a obtenção de resultados ilícitos, não existe pudor ou escrúpulo, de parte dos infratores, no abuso da força ou na manifestação impiedosa dos mais inferiores instintos.

O diagnóstico para esta sociedade mundial en­ferma é também plural, pois os consensos são raros. Inegável o reconhecimento de que os valores desapa­receram ou estão em acelerado declínio. As institui­ções estão frágeis e a fragmentação de pilares como legitimidade, comprometimento e pertencimento gera um clima de angustiante perplexidade.

Não adianta fugir ao real. A crueza está à espreita. Ninguém pode estar seguro sobre o porvir. Os prenún­cios não são animadores. Ainda assim, é urgente reagir.

Como é que se enfrentam dias plúmbeos?

A conversão há de ter início no tribunal inevi­tável da consciência. Mentes sensíveis não se podem sentir desobrigadas de procurar caminhos. O espaço em que a cada ser humano foi conferido vivenciar sua aventura terrena pode ser melhor se houver foco, determinação e vontade. Não é suficiente a intenção proclamada e não concretizada em ação. Mas toda e qualquer atuação no sentido do bem é parte impres­cindível do resgate da esperança.

Ser humano algum poderá ser feliz, estar inteira­mente em paz consigo mesmo, se permanecer isolado ou circunscrito ao pequeno círculo de sua intimidade. Tudo o que acontece ao redor afeta o rumo e o ritmo de nossa trajetória. Enquanto existir um semelhante excluído, a sofrer injustiça, sentir aflição ou dor, não haverá descanso para quem se considera humanista e leva a sério o respeito à dignidade da pessoa humana. Esse o supraprincípio norteador de nosso ordenamen­to, balizador de todas as condutas, sejam públicas, se­jam as atinentes à vida privada.

A implementação desse comando fundante – encarar cada ser humano como pessoa revestida de ínsita dignidade – não necessita de escala para valer. Ele é bastante em si. Não se está a falar em grandes heroísmos. São suficientes pequenos gestos. Mas di­recionados ao mesmo alvo. Basta a singeleza da boa vontade, fruto de uma reflexão consistente. Qual é o nosso papel no curto lapso que nos é dado permanecer sobre a face da Terra? Temos uma missão a cumprir ou somos objeto de um fatalismo inconsequente, que nos condenou a nascer neste país, nesta época, nesta família e nas demais circunstâncias que nos condicio­nam e limitam?

Dentro da esfera de abrangência que as circuns­tâncias nos reservaram, o que depende de nós para ser mantido ou para ser modificado nas estruturas do pen­samento, que direcionam nossos hábitos? Temos uma esfera de liberdade para tentar transformar uma parce­la do mundo, ainda que pareça insignificante, como o nosso próprio destino?

Há muita coisa que um indivíduo pode fazer para reduzir, ainda que em pequena dimensão, a enor­me carga de atribulações que onera todos os viventes. Alguns destes, muito mais penalizados do que outros.

Pense-se no compromisso extraível de uma con­cepção formulada pelo constituinte de 1988, a respei­to da mais séria questão posta à consideração dos bra­sileiros. A educação!

Direito de todos, educação é dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade – arti­go 205 da Constituição da República. Ninguém está excluído de participar desse processo redentor e es­sencial à solução de todos os problemas brasileiros. Absolutamente todos! Violência, emprego, saúde, am­biente, moradia, tudo encontra resposta satisfatória se houver adequado preparo das novas gerações.

Todos nos situamos numa destas três esferas de responsabilidade: ou somos família, ou somos Estado, ou somos sociedade. E temos obrigações explicitadas pelo constituinte para com as crianças e jovens.

Por que não dispor de algum tempo, por menor que pareça, para acompanhar o desenvolvimento do aprendizado de um só estudante? Por que não partici­par do projeto Escola da Família, que aproxima o nú­cleo familiar e a comunidade da escola pública, centro de convergência dos superiores interesses daquele es­paço de convívio?

Há pessoas e entidades privilegiadas que usu­fruem o êxito propiciado pelo mercado e poderiam fazer mais do que outros. Todavia poucos são os que, embora nessa condição, respondem positivamente ao convite de participação na vida escolar. Os que aten­dem podem testemunhar que em regra recebem mais do que ofertam. Saber-se importante para transformar o destino de um educando é prêmio significativo para os homens de boa vontade, que já foram chamados no decorrer da História a acolher a verdade e mudar a rota do individualismo egoísta.

Se o século 21 não nos presenteou com a dis­ponibilidade plena do tempo nem trouxe a merecida ampliação das oportunidades de prazer, não nos pri­vou do exercício da generosidade. Arte maior, virtude fundamental para validar uma vida e para ressignificar a frágil e efêmera passagem de cada pessoa por este vale de lágrimas.

Fonte: Estadão.com | Data: 18/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “A difícil arte da generosidade

  1. A Importância da Generosidade

    Apesar de ainda ser considerado um país em desenvolvimento, o Brasil mantém um nível de prosperidade muito acima das condições de muitos outros países. Os brasileiros ganham, em média, 25 vezes mais do que os cidadãos das nações mais pobres (valores verificados pela comparação de várias fontes). Para compreender a realidade vivida em alguns países, tente imaginar lugares onde a renda média do país seria de um salário mínimo brasileiro para sustentar seis pessoas. Quem mora no Brasil deve reconhecer o fato da sua riqueza.

    Entendemos que há diferenças significativas na renda de pessoas no Brasil, com algumas pessoas riquíssimas e outras extremamente pobres. A maioria, porém, vive com certos confortos e itens de luxo. Segundo o censo de 2010 (números publicados pelo IBGE), 95% das casas brasileiras têm televisores e quase 88% têm telefone próprio. Comparando-se com o resto do mundo, o brasileiro deve reconhecer sua prosperidade! Quase todos os leitores deste artigo são ricos!

    Por que importa entender nossa posição no mundo? Porque algumas das passagens bíblicas que falam sobre a generosidade são dirigidas aos ricos. É fácil definir a riqueza de maneira que obrigue os outros enquanto fugimos das nossas responsabilidades. Mas quando assumimos uma perspectiva informada da nossa realidade e fazemos uma leitura honesta das Escrituras, percebemos com mais clareza as nossas responsabilidades para com os outros.

    Paulo escreveu: “Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir, que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida” (1 Timóteo 6:17-19). A generosidade se encontra entre as atitudes e procedimentos que Paulo ensina para os ricos, ou seja, para nós!

    Milhares de anos antes de Cristo, quando Jó defendeu sua integridade, ele mostrou entendimento da importância de ser generoso para com os pobres. Ele foi sensível aos órfãos, viúvas e outros necessitados (Jó 31:16-23). O exemplo de Abraão, ao estender hospitalidade a estranhos, foi destacado no Novo Testamento (Hebreus 13:2; Gênesis 18:1-8). A bondade de Ló se destaca contra o pano de fundo da maldade dos outros moradores de Sodoma (Gênesis 19:1-5). Alguns séculos depois, um velho residente de Gibeá mostrou a mesma atitude para com outros viajantes (Juízes 19:15-21).

    A Lei dada aos israelitas, o que conhecemos como o Antigo Testamento, incluía orientações sobre as provisões para os pobres. Essa lei proibia práticas abusivas em questões de empréstimos e de direitos trabalhistas (Deuteronômio 24:10-15). Uma característica especialmente interessante dessa lei foi o sistema de assistência aos necessitados. Lembrando que foi uma cultura agrícola, podemos apreciar a instrução que Moisés transmitiu: “Quando, no teu campo, segares a messe e, nele, esqueceres um feixe de espigas, não voltarás a tomá-lo; para que o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será; para que o SENHOR, teu Deus, te abençoe em toda obra das tuas mãos. Quando sacudires a tua oliveira, não voltarás a colher o fruto dos ramos; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será. Quando vindimares a tua vinha, não tornarás a rebuscá-la; para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva será o restante” (Deuteronômio 24:19-21). Conforme essas ordenanças, os donos de propriedades rurais deixariam, de propósito, os restantes da sua produção, permitindo que os pobres os colhiam. Fica evidente que estes teriam de se esforçar para ir aos campos e buscar o que sobrava, como observamos no exemplo da viúva Rute (Rute 2:1-7). A generosidade que Deus ensina não tem o propósito de incentivar a preguiça, uma atitude claramente condenada nas Escrituras (2 Tessalonicenses 3:10; Provérbios 6:6-11). Pelo contrário, é uma demonstração de bondade para com pessoas em situações difíceis, uma característica de pessoas íntegras.

    Pensemos em nossas atitudes e práticas. Sobrou comida? Procure alguém que está com fome. Comprou geladeira nova? Pense em doar a velha para uma família menos próspera. As possibilidades são inúmeras. Seja generoso em repartir a sua riqueza!

    – por Dennis Allan

    http://www.estudosdabiblia.net/jbd570.htm

  2. Gostei do artigo. Muito bem escrito. Ele vai no ponto central, ou seja, nao adianta ficarmos reclamando de tudo, se doassemos um pouco de nosso tempo para mudar a realidade que nos reclamamos, uma melhor educaçao, saude, transporte, segurança publica, seria mais que um ato de generosidade com o proximo, seria um ato de generosidade com o proprio praticante deste ato. A forma de chamar a sociedade a participar da soluçao ir alem de esperar que a soluçao venha ate nos.
    Se todos fizermos isso um pouco alcançaremos mais cedo os ideais que todos queremos.

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