Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Pânico ou indiferença?

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O aquecimento global está causando catás­trofes de todas as dimensões no globo inteiro. Não adianta pretender ignorar. Elas não estão apenas em locais longínquos, inacessíveis para a maior parte de nós. Elas chegam ao nosso quintal. As inundações, as secas, o regime pluvial caótico, a intensificação dos raios. Isso é tudo natural?

Parece que não. Por isso mesmo, cientistas dos mais prestigiados institutos forçaram os Es­tados a firmar tratados. A literatura sobre mudan­ça climática e aquecimento global são lançados a cada semana. O cenário mais dramático foi de­senhado por Mark Lynas, no livro “Six Degrees: Our Future on a Hotter Planet” (Seis graus: nosso futuro num Planeta mais quente). É um jornalis­ta que durante longo período estudou ciência e entrevistou cientistas. Argumenta com o derreti­mento de geleiras, inundações muito rápidas, se­cas desastrosas e ondas letais de calor. Para ele, o aquecimento global está se acelerando e a causa é uma só: a insensata atividade humana. É o homem que produz gases causadores do efeito-estufa. Já atravessamos o ponto crítico e nossos sistemas já apresentam o quadro irreversível de catastrófico desequilíbrio.

O que significa? No final deste século, a Terra estará praticamente estéril e despovoada de suas espécies, sobrando alguns poucos humanos refugiados nos últimos habitats. Não é muito di­ferente a conclusão dos relatórios do Painel Inter­governamental de Mudanças Climáticas – IPCC, criado em 1988 pelo Programa Ambiental das Na­ções Unidas.

Outra voz influente é a de James Hansen, climatologista da Nasa. Num livro impactante – “Storms of My Grandchildren: The Truth About the Coming Climate Catastrophe – (Tempestades do meu neto: a verdade sobre a próxima catástro­fe climática) sustenta haver chegado a undécima hora do aquecimento global. Foi por isso que as Nações acordaram a firmar o Protocolo de Kyoto e chegaram ao incrível Acordo de Paris.

Só que agora os Estados Unidos retrocedem. É mais cômodo, em nome da soberania, da defe­sa dos desempregados das minas de carvão – algo que não chega a 100 mil trabalhadores – pôr em risco a sobrevivência da espécie.

A metáfora da avestruz é típica na descrição das inconsequentes atitudes humanas: enfia-se a cabeça na areia e não se enxerga o que acontece em volta.

Só que isso não surte efeito. Não dá para ig­norar crises hídricas, nem a imprevisibilidade do clima, nem o retorno de epidemias e a ressurrei­ção de doenças que a pretensiosa inteligência dos homens considerava erradicadas.

O desmatamento violento, a substituição da mata nativa por pasto ou plantações homogêneas, a partir de sementes geneticamente modificadas e, portanto, estéreis, tudo tem consequência e por isso haverá um preço a pagar.

O Brasil se antecipara na consciência eco­lógica ao se mostrar ao mundo como protetor de suas florestas. Colaborou com a elaboração do Relatório Bruntdland, que formatou o con­ceito de sustentabilidade – sabendo usar não vai faltar – e recebeu os outros Estados durante a Eco 92. Teve uma “grife verde” no Ministé­rio do Meio Ambiente, a seringalista Marina Silva, padrão de superação, pois nasceu numa região inóspita, alfabetizou-se praticamente adulta e experimentou o que significa desres­peitar a natureza.

Só que a partir daí foi só retrocesso. Em Jo­hanesburgo, em 2002, a performance brasileira já não foi a mesma. Em 2012, até na principio­logia houve marcha a ré. A revogação do Código Florestal, a flexibilização dos licenciamentos am­bientais, a devastação sem cobro, o desmonte da fiscalização, tudo mostra que o discurso é um, a ação é outra.

A esperança é que a criança e a juventude, mais lúcidas do que a maioria dos que detêm con­dições de fazer as mudanças, tenham coragem de colocar cobro e paradeiro a essa destruição. Não é a Terra que corre perigo. É a vida. E vida é algo que ainda não se produz com tecnologia e ciência.

Fonte: Correio Popular de Campinas | Data: 21/04/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Pânico ou indiferença?

  1. Pânico em face a Indiferença

    Escrever sobre Meio-Ambiente é difícil porque parece que estamos ensinando algo tão elementar, que seja inacreditável chamar a atenção para o tão óbvio: Saneamento Básico, tratamento da água e do esgoto, racionamento da água e de luz. Não existe mais fontes inesgotáveis de energia, para nós, seres compulsivos – consumidores.
    Ainda assim insistem de que Aquecimento Global, Derretimento das Calotas Polares, Efeito Estufa – tudo mito. Não é a coisa em si o norte desta discussão.

    Quanto há de vida no Planeta, o tempo dele, assuntos distintos. Quanto ao tempo nosso nele – assunto relevante. Ao que pareça (“Do pó vieste ao pó voltarás”) alguém disse isto? Também não. Não é essa a questão.
    Buscar a Felicidade, viver melhor, essa é a questão – daí vai entrar o Meio- Ambiente.
    A Ciência de tem se ocupado muito em estudar o nosso planeta. Temos que fazer as preguntas certas: A Longevidade. Os Avanços da Medicina. Até quando ela estará acertando nas perguntas para encontrar as respostas certas? Porque o que ainda prevalece é que temos um tempo aqui no Planeta, podemos prolonga-lo, podemos abreviá-lo.
    Eu acredito em : “(…) NÃO PODEMOS, NEM DEVEMOS REJEITAR NOSSA SABEDORIA, SEM ELA NÃO TEMOS HORIZONTES. ENCRUZINHAMOS O PRESENTE E NOS COLOCAMOS ÀS PORTAS ABERTAS, À SOBERBA, À ARROGANCIA, E AO MAL CAMINHO. (…)” (Prov. 8. 12-21).

    Mas podemos ver por um lado laico.
    O que existe não é apenas a ignorância de como preservar o Planeta, após décadas prestando atenção, existem dois lados desta história: Gente Abnegada, se entregando à causa dos ensinamentos de como todos nós devemos fazer para preservar a Natureza. Isso vai desde a educação do lixo doméstico, em hipótese alguma jogar pilhas e aparelhos domésticos, a não ser em local adequado (isso é gravíssimo para o solo!).

    Outra abordagem, agora mais politizada: Ninguém fica atento para que existe uma maldade travestida de ignorância” que por motivos, muitas vezes políticos, pessoas sujam propositalmente o Planeta para agredir supostos inimigos no poder.
    Vemos isto, claramente, na invasão de moradias em região de nascentes, mananciais, passando todas nuances de uma possível Guerra Atômica que muitas vezes pessoas esclarecidas mal dizem o atual e recém eleito Presidente dos EUA, Donald Trump, que quer desfazer todos os acordos de Ecologia, quando na verdade ele apenas representa o dedo na ferida de uma China que destrói o

    Planeta mais que dez vezes o país que foi eleito para governar.
    Quero dizer com isso que a ideologia muitas vezes freia atitudes que devemos ter em relação a todos os países e não apenas com aqueles que normalmente as esquerdas estão afinadas.
    O tempo exige pessoas que cuidem da Ecologia e não tenham nada a ver com nenhum governo ou afinidade política.

    Para terminar, refletirmos sobre estes dizeres: o mar abarca a terra “orbem terrarum oceanus amplexos finit”; e, muita coisa a um tempo: “multa simul suscipare”. Sobre a sabedoria: “(…) Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da terra. Antes de haver abismos, eu nasci, e antes de haver fontes carregadas de águas” (…). (Prov. 8. 24-25).

    Espero ter contribuído com o tema “Pânico ou Indiferença”, Senhor Secretário de Educação deste Estado, Dr. José Renato Nalini, por uma esperança de Educação Ambiental que transcenda ideologias, governos, e retrocessos de momento, porque a indiferença está se sobressaindo nesta segunda década do século XXI, isso sem dúvida, o que não só nos causa grande decepção, como pânico, em um horizonte de acirramento de conflitos beligerantes e fracassos diplomáticos.

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