Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A escola do amanhã

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A questão básica do mundo contemporâneo é a educação. Chave de resolução de todos os problemas humanos. Sem exceção. Não há tema preocupante da lucidez que ainda resta, que seja insuscetível de ser enfrentado, debelado, ou ao menos atenuado mediante consistente formação educacional.

Educação como direito de todos, mas dever do Estado e da família, em colaboração com a sociedade, como assevera o constituinte de 1988 no artigo 205 do pacto fundante. Mas essa educação de consistência, que atenda simultaneamente à sua tríplice função de permitir o desenvolvimento integral da personalidade, até que se atinja a plenitude possível, a capacitação para o exercício da cidadania, e a qualificação para o trabalho, é alvo de muitas críticas. Justas e legítimas quase todas elas.

A República dos direitos e da hermenêutica pro­duz uma proliferação de diagnósticos. Há receitas para todos os gostos. Os resultados nem sempre garantem a adequação do tratamento.

É que todos estamos no turbilhão da 4ª Revolu­ção Industrial, com a instantaneidade das comunica­ções obrigando a consciência a lidar com o inesperado e a sobreviver no mundo em que a incerteza é a única certeza com que se pode contar.

A mutação é acelerada e surpreendente. Os apa­relhos de comunicação móvel, com seu crescente mul­tiuso, substituíram os telefones fixos. Estes tendem a desaparecer. A internet das coisas prenuncia uma era de produção doméstica de uma série de objetos que deixarão de ser comprados. A Noruega já abandonou a rádio FM e mergulhou, de vez, na era digital. As novas gerações já nasceram com chips, antenadas e aparen­temente dependentes das novas tecnologias.

Enquanto isso, a escola preserva o padrão das aulas prelecionais, quase sempre desvinculadas da vida concreta. Carteiras enfileiradas, propiciando ao último da fila enxergar a nuca dos seus colegas à frente, com o professor ao fundo a falar de assuntos desinteressantes.

Enquanto isso, o smartphone é acessado mais de cem vezes por dia. As profissões que oferecemos à ju­ventude, no cardápio tradicional, não existirão dentro de vinte anos. Assim como uma das mais ambiciona­das nos Estados Unidos —criador de conteúdo para o Youtube —não existia há dez anos.

A defasagem no ensino é menos percebida pelos responsáveis e intuída pelos alunos. Tanto que a eva­são no Ensino Médio é uma realidade incontornável. Enquanto a criança ainda consegue permanecer na sala de aula, e continua a ser estimulada a responder aos estímulos professor, o jovem tem outra percep­ção. Não enxerga a valia daqueles conteúdos descon­catenados de inúmeras disciplinas, todas obrigatórias, algumas das quais não o atraem.

Alguns pais concluem que a escola não corres­ponde ao seu ideal de formação, que se pretende com­pleta em relação à personalidade dos filhos e aceitam o desafio de uma educação doméstica. Não deixa de ser um sintoma da insatisfação com a estrutura atu­al da educação formal. Enfatizese que isso ocorre no mundo inteiro, com intensidade menor no Brasil, onde as “ondas” chegam com natural atraso.

O certo é que a informação nunca esteve tão disponível e acessível a quantos tenham curiosidade. Navegar pela internet permite desvendar um univer­so de conhecimentos muitas vezes superior àquele de domínio dos sábios antigos. Bibliotecas das maiores Universidades, centenas de milhares de livros, teses, dissertações e ensaios propiciam a quem queira apro­fundar seus estudos.

A escola do amanhã precisará ser um espaço aberto e flexível para que os talentos individuais pos­sam desabrochar. O professor do futuro, mais do que transmitir conteúdos, servirá melhor à causa se for um coordenador das pesquisas, um orientador do autodi­datismo, um incentivador da busca individual de um crescimento contínuo.

Investir na formação desse profissional é imen­so desafio. A prioridade é encontrar vocações de alfa­betizadores, pois tudo tem início na primeira infância. Quem é cedo despertado pela sede do saber nunca abandonará a trilha apaixonante a ser percorrida, de maneira incessante, para conhecer mais e melhor os instigantes mistérios da existência.

 

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Foto: Daniel Guimarães/A2IMG

Fonte: Correio Popular | Data: 12/05/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo. E-mail: imprensanalini@gmail.com.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “A escola do amanhã

  1. Nao ha duvida, professor, Nalini, posso chama lo de Professor, porque fui seu aluno em Diteito Processual Penal, ainda que por um periodo pequeno de 6 meses, sou testemunha de que o que o Sectetario diagnostica e propoe acima, A ESCOLA DO AMANHA, ja o praticava, exigindo a oralidade, a cspacidade de escrita, de autodidatismo, e com muito orgulho e honra que sempre terei de participar deste espaço de reflexao, agora voltado mais para os desafios na educaçao. Tenho me imforma e aprendido muito com o Secretario, e penso que as demandas nao sao somente desta Federaçao, mas do pais inteiro. E se estamos proximos de comemorar o dia de todas as maes, nada mais justo de dar um salve a mae de todas as maes que e a sabedoria, e, como muito bem disse na materia acima, nao precisamos de distribuidores formais de conteudo, mas vocacionados alfabetizadores, vocacionados orientadotes de pesquisa, vocacionados em caminhar junto com aluno, despertando nele, cada vez mais, essa essencia para seu futuro, que o fara, no futuro, um ser humano feliz.

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