Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Juízo, por favor!

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O Brasil precisa tomar juízo. Cenas como as veiculadas nos últimos dias em nada auxiliam o pro­cesso de recuperação do qual dependem milhões de brasileiros.

A instantaneidade das comunicações e das infor­mações garante que fatos ocorridos em qualquer lugar do mundo ganhem o noticiário on-line e adquiram re­percussão imediata. O Brasil passa a figurar no cenário mundial como um espaço sinistro, em que não existe ordem, autoridade, disciplina e convívio civilizado.

Sabe-se que não é assim. A imensa maioria da população continua a viver e a carregar o seu fardo. A legião de trabalhadores que não perdeu o emprego prossegue a enfrentar a luta diária. Estudantes vão às aulas, os professores ensinam, as mães perseveram no treino social da prole e nas várias jornadas que lhes são impostas: são ecônomas, administradoras do lar, mestras, enfermeiras, assistentes sociais, psicólogas, solucionadoras de problemas gerais, além de ternas companheiras.

Essa é a realidade nacional. O Brasil continua como sempre esteve. Dramas particulares, alegrias domésticas, tudo funcionando como a vida rotineira costuma funcionar. Só que esta é a era da pós-verdade. Prevalece a versão. E a versão nem sempre — ou qua­se nunca — vai coincidir com a verdade.

Quem assiste às cenas dantescas de edifícios depredados, incendiados, disparos e agressões, nunca pensará que este imenso País tem um povo pacífico, mais preocupado com a sobrevivência e com a admi­nistração das vicissitudes pessoais do que com a polí­tica, a macroeconomia e os mercados.

O planeta globalizado e cada vez menor é sacu­dido pelas sensações. E a sensação gerada pelo notici­ário é propícia a gerar percepções falaciosas. O Brasil de quem se acredita já tenha sido alvo da grosseria de um famoso Chefe de Estado – “o Brasil não é um país sério” – passa a se hospedar na mentalidade alieníge­na. É fácil acreditar que a exótica terra dos papagaios e dos macacos esteja mergulhada num caos.

Qual o custo disso?

O dinheiro volátil procura pousos mais tranqui­los. A credibilidade no País retorna a índices mise­ráveis. O aceno de investimento externo recua. Isso representa aumento dos milhões de desempregados, a fuga dos empreendedores, um preço excessivo sobre a Nação, e que vai onerar os mais vulneráveis.

É claro. Os fortes têm por si blindagens que não socorrem os hipossuficientes. A articulação que gerou os últimos episódios evidenciou que os delatores tira­ram enorme proveito da delação. Ganharam dinheiro com a previsibilidade do estrago que causariam e des­frutam da sofisticação tranquila dos que estão acima dos males que afligem a massa.

Já os que dependem do seu esforço físico para obter o alimento de cada dia, o sustento de sua família, a satisfação das obrigações assumidas, estes sofrerão ainda mais.

O Brasil não acabou por causa da intensificação das crises. Mas sai golpeado, gravemente ferido, cam­baleando. E para retomar equilíbrio e status precisa de nobreza de caráter. Desde os lares mais modestos, na preservação dos valores, até àqueles detentores de qualquer autoridade. O momento exige sensatez, pru­dência, desprendimento e heroísmo.

Uma história impregnada de sólidos alicerces morais não pode ser negligenciada, nem reescrita em tom de farsa. A confraria do bem precisa estar unida, esquecer divergências, insistir na compreensão e na tolerância das opiniões não coincidentes.

A busca de consensos, a preservação da ordem e a edificação de clima favorável à convivência harmô­nica é o principal. Apegar-se à tradição e ter presente que o País, embora jovem diante de nações milenares, tem um pacto federativo suficientemente estável para suportar dois impeachments, várias profundas mudan­ças de rota monetária, tantos outros transtornos, sem qualquer ruptura da estabilidade institucional.

As crianças que aqui nascem precisam contar com uma sociedade madura, estruturada em crenças que permitam confiar na racionalidade da espécie. Elas não merecem assistir a degradantes manifesta­ções de barbárie, que prenunciam descompromisso com a civilização.

É preciso muito juízo, outra matéria-prima que, assim como a ética, parece faltar ao Brasil destes dias.

Fonte: Correio Popular | Data: 26/05/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

brasilia

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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