Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Até onde vai a liberdade

Logo após à vida, considerada pressuposto à fruição de todo e qualquer direito, vem a liberdade como bem fundamental. Vida sem liberdade não é considerada “vida digna. Bem por isso é que as liber­dades públicas constituíram o primeiro e mais feste­jado capítulo na trajetória dos direitos fundamentais.

Ocorre que a contemporaneidade e o avanço das tecnologias da informação e da comunicação trouxe­ram questões nevrálgicas, sobre as quais a sociedade precisa estar atenta.

As redes sociais constituem uma realidade irre­versível. Todos as frequentam. Elas criam dependên­cia. Vejo diuturnamente a influência que exercem so­bre as pessoas. Elas simplesmente se desligam do real e mergulham no digital. Fuga? Alienação? Vício? A resposta está com os psiquiatras, psicanalistas, psicó­logos e outros especialistas.

O Facebook é uma das redes mais frequentadas. Passou a ser o canal de comunicação preferido daque­les que querem instantaneidade e escala crescente. Pouca gente lê jornal. Menor ainda o público dos pe­riódicos. A TV cede espaço para os “mobiles”. Então o Facebook tornou-se o instrumento de comunicação mais efetivo e mais eficiente.

Mas ele pode acolher toda e qualquer mensa­gem, a pretexto de preservar a liberdade de expressão e de comunicação?

Ele tem suas diretrizes secretas, que vazaram para a mídia e foram divulgadas pelo jornal britânico “The Guardian”. O Facebook permite a transmissão ao vivo de tentativas de suicídio e de autoflagelação. Isso porque não quer censurar ou punir pessoas que estão sofrendo. Argumenta que elas podem ser ajudadas por quem as assiste.

Uma das diretrizes internas é deletar comentá­rios que ameaçam de morte o presidente dos Estados Unidos. Já um comentário que ensina a “quebrar o pescoço de uma vadia”, mediante aplicação da pres­são correta sobre a garganta dela, é admissível. Não é considerado uma ameaça crível.

Vídeos de morte violenta nem sempre precisam ser excluídos. Para a direção do Face, podem ajudar na conscientização sobre doenças mentais e autoflagelação. Bullying contra crianças também pode ser incluído, exceto sadismo.

Escrever “vamos bater em crianças gordas” é permitido. Maus-tratos contra animais também. E ainda os vídeos de aborto, desde que não exibam nudez.

O argumento do Facebook é o de que seu público é muito diversificado, com diferentes ideias sobre o que é correto compartilhar.

O mundo está ficando difícil. Como controlar os sadismos, as taras, as patologias que são produzidas simultaneamente ao avanço científico e tecnológico?

O Face já foi censurado por não retirar do ar postagens de pornografia infantil. Em abril de 2017, um americano matou a tiros uma vítima escolhida aleatoriamente e transmitiu o homicídio ao vivo pelo Facebook, em vídeo de pouco menos de um minuto. O jovem Mark Zuckerberg disse que tudo faria para evitar novos casos.

Nada substitui aquela vigilância íntima da consciência, que pode ser exercida de maneira muito facilitada por quem detenha discernimento e que, no caso os menores, dos inimputáveis, dos ainda desprovidos de maturidade, há de ser desempenhada por seus pais ou responsáveis.

Liberdade sim, mas com responsabilidade, mas com responsabilidade. Ou com a impostergável sanção, para quem dela abusar em detrimento de bens igualmente tuteláveis, como a docência e a ingenuidade infantil.

Fonte: Correio Popular| Data: 30/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Não jogue comida fora

Enquanto um bilhão de pessoas passam fome, o mundo desperdiça 1,3 bilhão de toneladas de comida a cada doze meses. Isso equivale a US$ 940 bilhões por ano. É uma tragédia e uma falta de caridade. Bastaria um terço desse volume desperdiçado para amainar a fome no mundo.

Os mais ricos são os que mais desperdiçam. Mas os pobres também. Nos Estados Unidos, 40% dos alimentos são jogados fora. A rede Refed – Rethink Food Waste apurou que o desperdício atinge US$ 218 bilhões por ano, ou seja, 1,3% do PIB. Para dar uma ideia: são 18% da terra cultivada, 19% do uso de fertilizantes e 21% da água utilizada na agricultura.

Nos países emergentes, há também essa calamidade. América Latina joga fora 15% e a África 22% de tudo o que produz. A perda é maior no início da cadeia alimentar, etapas da produção agropecuária, manuseio e armazenagem.

Como reduzir esse descalabro? Aumentar a eficiência da colheita, melhor planejamento da cadeia de suprimentos, mais investimento em infraestrutura, principalmente estradas e armazéns, incluindo ampliação da cadeia fria, embalagens mais adequadas, acesso aos mercados, ampliar a doação de alimentos que não foram comercializados, fornecer alternativas para preparo integral de alimentos, reduzir o tamanho das porções vendidas, entre outras propostas formuladas por Marcos Sawaya Jank, especialista em questões globais do agronegócio.

O Brasil tanto desperdiça na fase inicial como copia os ricos ao jogar fora a comida já manipulada. Precisamos de mais movimentos como o “Save Food Brasil”, da FAO, que reúne instituições e empresas em torno de projetos para combater o desperdício alimentar. O “Mesa Brasil”, do SESC, uma rede de 220 Bancos de Alimentos públicos e privados, que distribuem alimentos de qualidade preservada para entidades assistenciais.

Mas a verdadeira revolução começa em casa e a partir da consciência de cada qual. Colocar no prato somente aquilo que se vai comer. É má educação deixar alimento no prato. Temos de reduzir a porção de comida boa que vai para o lixo e pensar nas crianças que morrem a cada minuto por desnutrição.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 29/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Chega de mentira!

A era da “pós verdade” é, de fato, o reino da mentira. Mente-se descaradamente e em todos os espaços. Perdeu-se a noção do pecado original que reside na falsidade. Verdade, ainda que nos faça sofrer.

A veiculação de inverdades ganhou impulso extraordinário nas redes sociais. Elas recebem todo o tipo de informação. Prioritariamente informação falsa. Pois a mentira vem sempre revestida de sensacionalismo. Causa espanto! Gera comentários! Repercute.

A disseminação de mentiras interfere em tudo. Desde as eleições norte-americanas, até a vida pessoal de indivíduos desimportantes. A reiteração da mentira em doses cavalares resulta em dúvida e pode acabar na sensação de verdade. O perigo é que não se retifica a falsidade. Ela é ratificada à força de repetição. Prevalece como se fora um fato incontestável.

A proliferação de notícias falsas na internet, já universalmente conhecidas como “fake news”, angustia a lucidez que sobrevive. Com sacrifício, porque mentir é mais fá-cil. A imaginação criadora do mentiroso está sempre a postos para disseminar maledicência.

Uma réstia de esperança é a promessa do Wiki-tribune, de ajudar a reverter a situação de predomínio da mentira. Foi criado pelo fundador da Wikipédia, Jimmy Wales e é um site colaborativo a ser lançado com o intuito de obstar a difusão cada vez maior de notícias falsas. O plano é reunir jornalistas e uma comunidade de voluntários para produzir reportagens, com acesso gratuito e sem propaganda.

Só que isso dependerá da boa vontade dos leitores para se financiar. De acordo com Wales, a veracidade das reportagens poderá ser facilmente constatada porque será publicado o material usado como fonte.

Se vai funcionar, não se sabe. O que se sabe é que a humanidade fica mais pobre e menos civilizada se passa a acreditar em tudo o que se espalha nas redes, cuja dependência está em todos os lares, todos os espaços, todas as famílias.

Vamos acreditar que a verdade prevaleça e, como a luz solar, ganhe adeptos, que também precisarão repudiar a mentira, sob pena de confirmar, com sua omissão, o vaticínio de que o projeto humano foi um fracasso, do qual o próprio Criador se arrepende.

Fonte: Correio Popular| Data: 26/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Um litro a menos

Uma interessante campanha está no ar: aquela que propõe a cada ser humano reduza o seu consumo de água em um litro por dia. As pessoas estão convidadas a economizar aquele litro que não fará falta se deixar de ser consumido.

É algo que todos podem fazer. Mais importante até do que a economia global, é propiciar uma reflexão essencial. Há países que já sofrem a falta d’água, o líquido mais precioso no Século XXI e nos vindouros, se eles existirem na História da Humanidade. Sim, porque o Planeta poderá continuar durante milhões de anos. Mas prescindirá da espécie humana para tanto.

Ninguém parou para pensar que a captação da água tem custo, a filtragem e tratamento também. A distribuição é cara. O desperdício é dispendioso. Podemos evitar um pouco essa gastança de quem se acostumou a pensar que água é um bem infinito?

O pequeno gesto de cada um pode ser a diferença de que o mundo se ressente. Ou seja, basta abrir um pouco menos o chuveiro para o banho e terminar um minuto antes. Ao escovar os dentes, mantenha a torneira fechada. Ao lavar as mãos, não precisa lavar também o sabonete. Ensaboe suas mãos com a torneira fechada.

Ao molhar as plantas, use apenas o necessário. Não é preciso lavar a calçada. A chuva pode fazer isso por nós. A limpeza dos pisos pode ser feita em espaços maiores. Um pano molhado pode mantê-los asseados.

As crianças já são bastante sensíveis a esses apelos que nem sempre comovem os que têm sido inimigos da natureza. Airton Senna já reconhecia que se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas crianças que devemos começar. E a Declaração Universal dos Direitos da Água, editada pela ONU em 1992, explicitou que a água é parte do patrimônio do planeta, pelo qual cada indivíduo é responsável.

Cada brasileiro consome em média 120 litros de água por dia. Dá para viver com 119. Por sinal que, sem alimento, uma pessoa pode resistir até quarenta dias. Mas sem água, ela sobrevive apenas por setenta e duas horas.

Não custa nada tentar reduzir esse gasto e também incentivar familiares, amigos e o seu entorno de influência a fazerem o mesmo. O planeta agradece. Por sinal que a crise hídrica de 2014 pode voltar. Não se fabrica água. O estoque terrestre é sempre o mesmo e, portanto, finito.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 22/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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De perda em perda

Lamentável que o Brasil registre contínuos retrocessos na tutela ambiental, mostrando que a opção ecológica do artigo 225 da Constituição da República foi retórica marqueteira e não opção consciente.

Passa praticamente na surdina o fato de se reduzir área em uma floresta e em dois Parques Nacionais, com destinação incompatível com a preservação.

A Floresta Nacional Jamanxim perde 486 mil hectares, ou seja, 37% de seu total. O Parque Nacional de Jamanxim, também no Pará, perde 11,7% de sua área, ou 101 mil hectares e o Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, perde 10,4 mil hectares, ou 21,5% de sua destinação. É óbvio que se fala em “recategorização”, mas o interesse é proteger a mineração, que avança contra a floresta e que vai produzindo a sequência de resultados nefastos, como tem acontecido desde a exploração setecentista/oitocentista nas Minas Gerais.

A mídia apurou que a Medida Provisória 756 incluiu na Área de Proteção Ambiental Jamanxim glebas reivindicadas por inúmeros infratores ambientais. 4.500 hectares foram transformados em pasto só no ano de 2015, por pessoas cuja identidade se esconde e que atuam com o que se convencionou chamar “laranja”. Se no Pará e em Santa Catarina medidas provisórias são editadas contra a natureza e atingem esse patrimônio da Nação de maneira explícita, continua no universo micro a destruição velada, perpetrada em todo o território nacional, que vê perder o seu verde e continua a produzir resíduo sólido em abundância.

Árvore derrubada, solo contaminado, água conspurcada, lixo amontoado. Triste destino de uma República que havia dado exemplo ao mundo quando erigiu em “titular de direitos”, aquele que ainda não nasceu.

O artigo 225 da Constituição da República foi considerado um dos mais belos dispositivos jurídicos editados no planeta. Só que a promessa não seria cumprida. Era um mero “faz de conta”, com a conivência de todos os que silenciam diante dos atentados inclementes perpetrados contra a natureza.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 22/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Um apelo à consciência

O mundo parece acometido de evidente falta de juízo. Os paradoxos demonstram que a racionalidade foi embora. Às vezes não faz falta. O que falta é sentimento. Se o amor fosse mais estimulado, substituir por sua prática a razão não faria mal à sociedade.

Há debates infinitos sobre os mesmos assuntos que longe estão de merecer resposta clara, objetiva e eficaz. Prega-se o aborto, agora com a afirmação de que as vedações do Código Penal não teriam sido recepcionadas pela Constituição de 1988. Mas por que não se confere idêntico entusiasmo ao planejamento familiar, à adoção de crianças que permanecem na fila de espera e que não encontram um lar para se desenvolverem?

Critica-se o tratamento compulsório do dependente. Justifica-se o uso da droga como fuga à carência afetiva. O que se faz para impedir que esse mergulho definitivo ocorra? Prevalece um discurso de falência da educação, cujos índices nos aproximam da parte mais miserável do planeta. Mas o que se faz, no âmbito pessoal, para estimular a criança a aprender, para mostrar que sem escola tudo se tornará mais difícil e que a vida real não é a fantasia propagada pela mídia consumista, mas impõe sacrifício, esforço, empenho e responsabilidade?

Dispensa-se ao animal de estimação um carinho desproporcional àquele reservado à criança desprovida de lar. Nada contra o animal, tão mais carinhoso do que muitos humanos. Mas a vida merece cuidados e os semelhantes precisam de uma dose multiplicada de amor. Onde está a coerência com o discurso de quem apregoa fazer parte de uma civilização cristã e, para o agnosticismo ou ateísmo, integrar uma sociedade alicerçada sobre o princípio da dignidade da pessoa humana?

Não há quem não possa deixar o mundo melhor, mesmo que seja aquele mundinho que o destino ou nossa escolha pessoal nos reservou. Ter compaixão, compreensão, carinho, semear entendimento e estar aberto ao diálogo já representaria lenitivo a um convívio que ostenta ferimentos graves, pois propenso a explosões de ira e violência. Tudo aquilo que sugere um quadro patológico distante de se converter na sonhada higidez de uma verdadeira fraternidade.

Fonte: Jornal de Jundiaí| Data: 15/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Município: escola da democracia

Em tempos de policrise, como aquela que ora atravessamos, a esperança reside nas comunidades menores. A vida cidadã não precisa, necessariamente, ser afetada de tal forma que paralise a rotina das cidades. Nestas é que as coisas acontecem e precisam continuar a acontecer.

Até mesmo analistas estrangeiros assinalam que a retomada do desenvolvimento virá dos municípios. Explorar a vocação local ou regional, consorciar-se, adotar estratégias de sobrevivência digna e blindar suas fronteiras para que os munícipes se conheçam e se auxiliem, cooperando entre si até que o Brasil melhore.

Um grande papel está reservado aos Prefeitos, muitos dos quais herdaram pesados ônus de seus antecessores. A auto-gestão municipal deve adotar rotinas de racionalização, de otimização, de organização e método, com foco em resultados. Os jovens são chamados a um protagonismo essencial. São eles que precisam se preparar, com vistas à assunção de responsabilidades que, de certa forma, foram negligenciadas por muitas lideranças que fracassaram.

São os jovens que podem renovar os quadros da política partidária e da administração municipal. A formação de novas lideranças começa na escola, na disputa das eleições de um Grêmio Estudantil, espraia-se na filiação partidária e na aproximação com as Câmaras Municipais e Prefeituras.

É na cidade que as coisas acontecem. Sempre é oportuno lembrar Franco Montoro: “Ninguém nasce na União, nem no Estado. As pessoas nascem na cidade”. Os jovens precisam refletir sobre temas desafiadores, como a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a participação e a solidariedade. Tais assuntos encontram suas aplicações em inúmeros âmbitos da vida social, da vida familiar, nas relações de trabalho. Afetam a economia, a política, as relações internacionais e o meio ambiente.

Aos 16 anos, o jovem pode mudar o destino de sua cidade, de seu Estado e do Brasil. É urgente dotá-lo de consciência política, para interferir, positivamente, na condução das políticas públicas.

Fonte: Diário de São Paulo| Data: 15/06/2017

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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