Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Virtudes para o mal

3 Comentários

Para Aristóteles, “in medio virtus”. Ou seja, a virtude está no meio termo. Demorei para aceitar a ideia. O “meio termo” sempre me parecia a mediocridade, o morno, o incompleto. Mas o raciocínio aristotélico é interessante. Entre dois polos, o melhor é a moderação. Assim, entre a absoluta avareza e a desenfreada prodigalidade, a temperança é a virtude. Entre a preguiça e a hiperatividade, a postura adequada é ter tempo para a ociosidade e tempo para o trabalho. Entre a gula e o regime famélico, nutrir-se do necessário é virtuoso.

Agora vem outra ideia a me angustiar. Tenho visto que algumas virtudes estão sendo relegadas pelos que se dizem virtuosos e cultivadas pelos malfeitores. É o que leva o Brasil a reconhecer o malefício causado pelas facções criminosas. Ali, a infância é treinada a sobreviver, a despeito de toda a adversidade. O mal recruta a criança a partir dos seis ou sete anos de idade para servir de “aviãozinho” para transportar droga. E cobra dele um espírito de sacrifício inexigível para a criança da classe média.

O trabalho é diuturno, devotado e sem erro. Imagine alguém a pedir certa quantidade de maconha e receber como resposta que o funcionário encarregado de fornecê-la faltou. Ou que está doente, apresentou atestado médico. Ou que o produto está em falta.

Isso não ocorre. Entretanto, quando se necessita do serviço público, tais desculpas são rotineiras. Quem está mais preparado para sobreviver? O treinado pelo marginal ou o educado pela nossa escola do “mais ou menos”, do “da vida nada se leva”, do “é assim mesmo”?

O Brasil do bem é covarde, nessa fase melancólica em que nada parece funcionar, enquanto o Brasil do mal se organiza e faz a corrente demoníaca se desenvolver, crescer e recrutar a cada dia mais braços e inteligências.

Uma sociedade só dará realmente certo se os bons tiverem a coragem de ser audazes assim como os maus o são. Não se pode negar eficiência às facções criminosas. Enquanto é preso um jovem por causa das drogas, há uma fila de dez outros à espera de ocupar seu lugar. A cada prisão por tráfico de entorpecentes, o Brasil legal propicia o cárcere para mais várias outras pessoas. Pois o primeiro compromisso daquele que é preso pela vez primeira, junto à organização criminosa que cuidará de seu futuro e de sua família, é abastecer de droga o sistema. Aí vêm as irmãs, namoradas, mães, primas e companheiras, que se tornam outros alvos para o aprisionamento. Mas a Rede continua eficiente. E eficiência é virtude. Ou não é?

O que estamos fazendo para acabar com isso?

 

JOSÉ RENATO NALINI é secretário da Educação do Estado de São Paulo.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Virtudes para o mal

  1. Acredito eu que não é que estas coisas más estão ocorrendo mais atualmente, pois elas sempre existiram, – claro que cada uma com sua significação histórica. Contudo, o que pode provocar a impressão de que elas estão mais ocorrendo, é o fato, de agora, – na contemporaneidade, começo de século, começo de nova era, com toda caracterização de sociedade pós-revolução industrial, assim como torna-se necessário com o advento da sociedade da informação e do conhecimento, – tornou-se insustentável para a tradição manterem-se intactas as ‘caixas de surpresas’.

  2. … Mas a Rede continua eficiente. E eficiência é virtude. Ou não é?

    Se partirmos do princípio epistemológico aristotélico – que reaparece com Maquiavel – que sustenta o último parágrafo do texto – podíamos pensar que sim; que a eficiência é necessariamente virtude. Mas se formos buscar na fonte de outros pensadores como Kant, estandarte do pensamento moderno, mais exclusivo sobre o que diz a ética, veremos que não. Veremos que não necessariamente a eficiência é virtude. Pois se a eficiência for para o mal, – mal entendido aqui sob o entendimento do conceito ético de que ‘mal’ é aquilo que pode não ser sustentável para a condição humana. Assim, podemos dizer que a eficiência só pode ser virtude se for utilizada para a finalidade da promoção humana.

  3. Paradigma da virtude, mas sem entrar neste mérito, vejo dois caminhos, um refere ao bom cidadão que se tornará “virtuoso” na realização de seus desejos, sendo eles bons ou não. E outro é o comportamento menos danoso em afastar-se do que é mal para a humanidade adotando uma postura moderada mediante a ocorrência dos fatos.
    Ao adotar essa VIRTUDE, se não podemos atuar efetivamente no comportamento dos outros, pelo ao menos que façamos por nós mesmos nos fortalecer na manifestação divina de um entendimento maior sobre todas as coisas, que nos será dada por ORDEM DO DIVINO CRIADOR DO MUNDO, a virtude manifesta na virtude benigna, agrada aos olhos do MAIOR.

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