Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Educar para quê?

A educação é prioritária, essencial e fundamental. Soluciona todos os problemas. Os que não conseguir resolver, ameniza, pois propicia a compreensão da complexidade de tudo aquilo que não está ao alcance das possibilidades humanas.

Quais as finalidades do processo educativo? Para quem parte do pacto federativo, o documento básico que rege toda a vida comunitária, ela tem três objetivos: desenvolver os talentos, competências e habilidades que todo o ser humano possui, em níveis diversos, como diversa é a natureza dos seres viventes; qualificar para o trabalho; e capacitar para o saudável exercício da cidadania.

Como se obtém o resultado eficiente no processo educativo? A primeira finalidade está condicionada ao contínuo autoconhecimento. O “conhece-te a ti mesmo” é o comando a que o ser humano está submetido durante toda a sua trajetória por este planeta. Conhecer-se mais e melhor propicia desvendar as fragilidades, mas também lapidar os atributos positivos. Quem não se conhece bem, não consegue administrar as demais esferas de relacionamento, ou seja, com o próximo, com a natureza e com a sua transcendência.

Mas essa busca do “eu” mais recôndito não está imediatamente vinculada ao domínio dos conteúdos curriculares. Pode auxiliar, como condição necessária, mas não suficiente para se atingir o âmago da própria individualidade.

Por esse motivo é que alguns educadores insistem no investimento a ser feito nas chamadas competências sócio-emocionais. Além das habilidades cognitivas, há de se trabalhar a empatia, a compreensão, a capacidade de se comunicar, a iniciativa criativa e a condição de resolver problemas. São qualidades nem sempre – ou quase nunca – exploradas no currículo normal das escolas.

É de se ponderar que o conhecimento nunca esteve tão disponível e tão acessível como em nossos dias. Quem tiver um celular pode percorrer as melhores universidades do planeta, assim como as mais fornidas bibliotecas e instituições culturais. Pode consultar milhões de obras já disponibilizadas em domínio público.

O importante, por esse enfoque, é incutir no educando a curiosidade. Curiosidade intelectual, curiosidade pelos mistérios da existência, curiosidade pelo saber até o infinito. Pois não há limites se houver vontade. Educar é, portanto, desenvolver seres curiosos.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 29/03/2018

Foto: José Luis da Conceição/A2IMG

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O livro resistirá

Leio uma notícia preocupante: “A biblioteca sem livros” (O Estado de S Paulo, 12/02/2018). Narra o abandono de alunos de universidade em relação aos livros físicos, em favor das consultas on-line. Por motivo de custo na manutenção das bibliotecas, elas reciclam os livros e descartam as obras que já não merecem visitas de interessados.

A universidade de Indiana, na Pensilvânia (EUA), é uma delas. Como quase metade da coleção ficou sem ser consultada vinte anos ou mais, os administradores resolveram assumir a urgência de uma limpeza. Mediante uso de software do grupo Lugg, elaboraram a relação de 170 mil livros que devem ser removidos.

Professores indignaram-se. Mas não conseguem fazer com que seus alunos realmente leiam as obras aparentemente abandonadas. Parece que nossos dias fazem reviver o pesadelo da destruição da Biblioteca da Alexandria ou a ameaça de queima de livros proibidos por ignorância, fundamentalismo ou perseguição religiosa.

Sempre houve destruição gradual de livros. A história dos antigos juristas é uma sucessão de tragédias para quem respeita e ama os livros. Assim que o magistrado morre, herdeiros se desfazem dessas coleções. Aquilo que foi amealhado com carinho e até com sacrifício durante décadas vira matéria-prima para sebos, quando não tem sorte. Pois nem doação de livros se aceita mais. Tenho episódios dolorosos que contaria se não houvessem pessoas conhecidas. O maldito dinheiro, a cupidez, a ignorância, a desvalia do saber, aliados a uma situação de escassos recursos financeiros, é o que assassina as bibliotecas.

Enquanto isso, para gáudio dos que ainda compram livros, há pelo menos uma notícia boa: a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) entregou para a cidade de São Paulo uma biblioteca comunitária, localizada à frente do campus da rua Álvaro Alvim, 123, na Vila Mariana. Espaço com 11 metros de testada, sem porta nem parede, totalmente aberto e liberado.

É a “Livro Livre ESPM”, com 2 mil livros à disposição de leitores. Qualquer pessoa está livre, 24 horas por dia, 7 dias por semana, para retirar o livro que quiser, quantos quiser.  E, se possível, devolvê-los um dia. E ainda, se assim lhe parecer, doar outros.

Não é um gesto de esperança e de confirmação de que o livro resistirá?

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 25/03/2018

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A dignidade humana

A dignidade da pessoa humana passou a ser o supra princípio, o norteador de toda a convivência na República Federativa do Brasil, tamanha a relevância que o constituinte de 1988 conferiu a esse valor.

Quase tudo pode ser associado ao conceito de dignidade humana. Mas é possível enfatizar alguns enfoques onde a pertinência é evidente e desnecessita de elucubrações para ser imediatamente apreendida por qualquer pessoa movida por altruísmo.

A educação é uma causa indissoluvelmente vinculada à dignidade humana. Sem educação, não se atinge o grau digno de sobrevivência. Não é digno privar pessoas de uma formação educacional de qualidade. Educação que é direito de todos, mas dever do Estado, da família e da sociedade.

São Paulo, com sua complexidade e imensidão, atua com desenvoltura na área de propiciar ensino diferenciado a todos os educandos. Sejam crianças, jovens ou adultos. Para muito além de manter uma Rede Pública de dimensão inimaginável em qualquer parte do Planeta, com mais de 5 mil escolas, 4 milhões de alunos e mais de 400 mil pessoas dependentes de sua bilionária folha de pagamento, procura investir em estratégias compatíveis com a 4ª Revolução Industrial.

Nenhum outro Estado brasileiro ou País investe simultaneamente em algumas áreas consideradas estratégicas para o adequado preparo das futuras gerações como aquelas impostas pelas TICs – Tecnologias da Informação e Comunicação.

Em 2017 obteve-se da Assembleia Legislativa autorização para o uso de celulares em sala de aula, para finalidade pedagógica e a depender do professor, que saberá implementar a aplicação saudável desse instrumento que hoje monopoliza os brasileiros. Há mais de 200 milhões de aparelhos mobiles, atestado de que muitas pessoas possuem mais do que um celular, smartphone ou tablet. Seria ingênuo acreditar que a proibição do uso dentro da sala de aula se mantivesse incólume. A vedação impulsionaria o alunado a uma evasão que poderia se tornar definitiva, como já ocorre em inúmeros espaços.

A SED – Secretaria Estadual Digital é outra aposta da Pasta. Por ela, não apenas se oferece ao corpo docente a possibilidade de aplicação de provas online, de controle de frequência, de lançamento de matéria, como se amplia a condição de os pais realmente interessados acompanharem de perto a performance de seu filho numa escola pública.

O caderno digital já foi implementado em projeto piloto na Diretoria Regional de Ensino Norte 2, com aparente estrondoso sucesso. Aos poucos a migração do material físico para o virtual se tornará irreversível, com inegáveis vantagens para o alunado. As aulas poderão ser atualizadas, enriquecidas com as últimas descobertas, tornadas mais divertidas, com a inserção de filmes, gravuras, clips e até com a participação interativa do próprio alunado.

Reduzir-se-á a necessidade de dispendiosa estratégia para a distribuição de material físico escolar por todo o Estado, assim como evitar-se-á o triste espetáculo de alunos, ao encerramento do período letivo, destruindo o material que serviu durante o ano, como se ele não tivesse um custo suportado pelo povo.

Mais ainda, a inteligência artificial permitirá que o uso de algoritmos atue na prevenção de um dos grandes desafios que o ensino médio enfrenta em todo o mundo: a evasão. A potencialidade de abandono das aulas será oportunamente detectada e a escola terá condições de trabalhar individualizadamente o aluno candidato a assumir situação “nem-nem”, ou seja, a daquele jovem que “nem estuda, nem trabalha”. Alguns chegam a afirmar que há um terceiro “nem” a ser invocado: o não estar “nem aí”.

Não é isso o que se almeja para a criança e jovem paulista. Por isso a continuidade do trabalho sério, firme, sem desalento ou qualquer desânimo. E quem assegura que SP está na dianteira nesse processo é Paula Belizia, a jovem e dinâmica Presidente da Microsoft Internacional no Brasil, parceira da educação paulista desde sempre.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Correio Popular | Data: 23/03/2018

Foto: Daniel Guimarães/A2IMG

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Invista em você mesmo

O sistema educacional precisa ser reinventado. Em todo o mundo. Mas com urgência maior no Brasil, que depende de educação de qualidade para oferecer futuro digno às atuais gerações. Estas estão iludidas com um cardápio vencido, ultrapassado, em relação às profissões nele oferecidas.

A ênfase no ensino e aprendizado continua idêntica há séculos. Alguém detém o conhecimento e o transmite a uma “tábula rasa”, a alguém que nada conhece.

Esse tempo passou. O único talento imprescindível é a constante curiosidade. Quem é curioso aprende por si mesmo. O saber está disponível e acessível a todos. Basta paciência e perseverança. Um “mobile” permite que qualquer pessoa percorra às maiores e melhores universidades do mundo, as maiores e mais célebres bibliotecas do planeta, assim como institutos de cultura, centros de erudição e assemelhados. Sem falar nos milhões de obras já disponíveis porque caíram em domínio público.

Por isso é que, muito mais importante do que as competências cognitivas – dominar o conteúdo curricular – é desenvolver características pessoais sem as quais as atuais gerações não sobreviverão de forma digna. É preciso investir em capacidade de relacionamento, inteligência emocional, produtividade, empatia, comunicabilidade, adaptabilidade, flexibilidade, criatividade e empreendedorismo.

As grandes empresas consideram a personalidade do candidato muito mais do que o seu currículo. Haver exercido um trabalho voluntário, por exemplo, conta pontos. Porque evidencia que o indivíduo pensou no outro e, de forma espontânea, sem colher qualquer retorno, foi servir ao semelhante.

Saber solucionar problemas é um talento que a escola não ensina. Mas que é importantíssimo no desempenho de qualquer profissional. Conhecer o propósito da empresa em que se vai trabalhar, interessar-se por sua história e por seu porvir, tudo isso representa engajamento.

Nada pior para um empregador do que assistir ao trabalho de alguém que não “veste a camisa”, não se torna um partícipe da vida em comum, não considera seus colegas como amigos e os amigos como verdadeiros familiares.

Mas para chegar a esse estágio ideal, há um começo: conhece-te a ti mesmo! Invista em você, para que suas potencialidades o conduzam até o ponto determinado em seus sonhos.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 19/03/2018

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Quem é que ensina autocontrole?

No afã de alfabetizar e depois acelerar o ensino para que a mente infantil se preencha com informações consideradas essenciais, a escola nem sempre consegue enxergar o lado emotivo do aluno. Bem pouco adianta a “mente cheia”, se ela não estiver “bem feita”. Ou seja: os dados hoje estão disponíveis e nunca foram tão acessíveis. Quem se dispuser a incursionar pelas redes sociais encontrará respostas para todas as dúvidas. Em segundos, uma torrente de conhecimento estará ao alcance do curioso.

Todavia, como ficam os sentimentos? Quem é que consegue perceber que o aluno está triste, irritado, raivoso, desalentado ou desesperado?

Trabalhar o lado emocional, além das habilidades cognitivas, é o grande desafio da escola contemporânea. Uma estratégia que se mostrou bem sucedida numa unidade escolar é o uso dos “emoticons”, as expressões utilizadas na internet, para aferir o estado de ânimo do estudante ao início de cada aula. Eles são convidados a colocar a figura que melhor represente o seu estado de espírito no início de cada aula, num painel que é chamado “das emoções”.

Isso permite ao professor vocacionado servir-se de estratégias adequadas ao sentimento reinante naquele determinado dia. Dependendo da situação, abre-se espaço para debate, discussão, roda de conversa, palestra, exibição de filmes, teatralização e qualquer outra manifestação tendente a desanuviar o clima hostil de uma classe.

Com o passar do tempo, os próprios alunos sugerem as táticas mais adequadas ao trato das questões que trazem desconforto. É uma fórmula eficaz de amenizar a violência, de semear compreensão e tolerância, respeito à diversidade e tantas outras práticas que a transmissão estrita do conteúdo curricular nem sempre considera na rotina escolar.

Essa é uma das experiências levadas a efeito por aqueles educadores efetivamente preocupados com a urgência de se levar a educação a sério. E isso começa por aulas atraentes, que prendam o aluno e o façam sentir falta dos colegas, da escola e até do professor. Nenhuma outra está excluída, pois o que interessa é converter a educação, onipresente no discurso, numa prática efetiva, sem a qual o Brasil nunca chegará a ser a Nação de nossos sonhos.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Correio Popular | Data: 16/03/2018

Fotos: Rafael Lasci/ A2IMG

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Amazônia à beira do abismo

A maior reserva florestal do continente e uma das últimas do planeta está prestes a desaparecer. Quem afirma é o climatologista Carlos Nobre, que integra a Academia Brasileira de Ciências, e o biólogo Thomas Lovejoy, da Universidade George Mason, da Virginia (EUA).

Eles alertam que se o Brasil não acordar e evitar que o desmatamento supere 20% da área original, a probabilidade a Amazônia deixar de ser floresta é mais do que uma ameaça: é uma certeza.

Ocorre que a insensatez é a característica humana mais evidente em nossos tempos. A insensibilidade, o egoísmo, a busca incansável do lucro, a desconsideração por aquilo que não criamos, mas que sabemos destruir de forma célere, tudo contribui para que o perigo cresça a cada dia.

O mundo científico, o mais habilitado a convencer a política nefasta, o consumismo cruel e a ignorância crescente, nem sempre se posiciona em favor da natureza. Durante muito tempo a questão ambiental foi considerada catastrofismo, fundamentalismo de eco-idiotas ou modismo. Só que as mudanças climáticas estão aí, amiúdam-se e mostram que o ambiente está enfermo. Gravemente enfermo.

O momento é o de uma conjunção de valores destrutivos. O mais óbvio e criminoso é o desmatamento. Aproxima-se dos 20%, pois já ultrapassou os 17%. A destruição da floresta e as queimadas tornam a cobertura vegetal mais vulnerável durante períodos de seca. A luz solar penetra com facilidade maior, acelerando o acúmulo de matéria vegetal inflamável. É registrada pelos meteorologistas a sequência de maiores períodos de seca. Os cientistas confirmam três episódios fora da curva em 2005, 2010 e 2015.

Pode colaborar com isso um aquecimento anormal das águas do Atlântico. Isso interfere no regime de chuvas. Tudo tem impacto péssimo para a disponibilidade de água em boa parte da América do Sul. A Amazônia, intocada, seria capaz de reciclar seus próprios recursos hídricos, por meio dos processos de evaporação e transpiração das árvores e pelas moléculas orgânicas por elas produzidas. Isso é que ocasiona a condensação das nuvens de chuva.

Ninguém parece levar a sério a advertência dos estudiosos. Ali a queda já começou. Será diferente nos microssistemas como a Serra do Japy?

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 11/03/2018

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Comecemos do essencial

Se existe um dos raros consensos no Brasil de hoje é o de que precisamos de muito trabalho, sacrifício e esforço para sairmos do atoleiro. Em todos os sentidos. Em relação aos valores, em evidente declínio. Já na UTI, onde se encontra também a ética terminal. Mas na economia, na saúde, na educação, na infraestrutura, no meio ambiente.

Um dos atestados de indigência civilizacional é o que fazemos com aquilo que eufemisticamente chamamos de “resíduo sólido”, cuja tradução singela é “lixo”.

Não há cidade, rua, praia ou espaço brasileiro em que se não encontre o testemunho de nossa ignorância. Produzimos lixo adoidado. Desperdiçamos um tesouro que poderia ser reaproveitado. Algo que é comum em países civilizados, nos quais a logística reversa é uma eloquente realidade.

Aqui, pródigos produtores de legislação, temos desde 2010 a lei que determinou a obrigatoriedade da oferta de coleta seletiva de lixo pelos municípios. Mas nem 20% deles cumpre a lei. Mais uma daquelas “leis que não pegam”. Ao sabor das conveniências.

Apenas 1.055 dos 5.570 municípios oferecem coleta seletiva. Mesmo assim, em muitos deles, só parcialmente. E dentro desse minúsculo universo, pois só 15% da população é atendida pelo serviço, há irregular utilização da coleta. Joga-se todo tipo de descarte sem atentar para os recipientes com destinação específica.

Por que se deve cuidar disso? Por uma série de razões. A preservação do ambiente é a maior angústia humana. Somente a ignorância crassa faz piada com as rigorosas nevascas e afirma que não existe aquecimento global já que o Inverno é tão severo como nunca foi. A natureza está se vingando, pois se cansou demandar sinais ignorados por nossos ouvidos moucos.

A reciclagem é uma questão de economia. Como pobres ignorantes, deixamos de utilizar tesouro incalculável, suscetível de aproveitamento. Com isso, agravamos as contas já enfermas dos municípios, que têm de gastar com coleta de lixo, varrição, recipientes para recolher descarte, manutenção de aterros sanitários, regularizar lixões a céu aberto e tantas outras evidências de nossa miséria cívica. Uma verdadeira cidadania seria a primeira zeladora do ambiente saudável e agradável das cidades.

É uma questão de saúde. Os “lixões” são fonte perene de enfermidades. Assim como os aterros sanitários irregulares. Os córregos poluídos. As praias conspurcadas. O ar fétido gerado pelo abandono daquilo que apodrece em plena via pública.

Tudo é reciclável, tudo tem valor econômico, tudo é importante para um País que não consegue sair do subdesenvolvimento moral. Pois a negligência com que se trata essa questão é uma evidência de nossa imaturidade.

O sucesso que podemos anunciar nessa área não é tanto resultado de uma consciência ecológica, senão um outro fator comprobatório de nossa desigualdade social. É o aproveitamento do alumínio das latinhas de refrigerantes e cervejas. Em 2015, foram produzidas 294 mil toneladas. Dessas, 290 mil toneladas foram recicladas. Quase 98,4% do total. Mas isso significa apreço ao ambiente? Ou seria mais um sinal de que a pobreza precisa sobreviver e, já que o desemprego supera a casa dos doze milhões, a fome obriga o desempregado a procurar latinhas nas latas de lixo.

Pois se houvera real empenho em defender a natureza, o mesmo ocorreria com o papel e papelão, abundantemente espalhado pelas ruas, a entupir as bocas de lobo, a gerar inundações, a empestear o ambiente. E as garrafas pet, e o excesso de plástico, e tudo aquilo que a mentalidade consumista, arrematada por um egoísmo atroz, joga nas ruas à espera de que o governo recolha e dê destinação. Educação é a receita para todos esses males.

Educação que tem que começar no lar, com a economia na utilização daquilo que é finito e com a formação de uma consciência cidadã. Quem ama seu País quer que ele seja limpo. Quem suja as ruas e as praias detesta o Brasil. Essa a lição que as mães, principalmente elas, devem ministrar diuturnamente à sua prole. Comecemos pelo essencial. O mais, virá por acréscimo.

JOSÉ RENATO NALINI é secretário estadual de Educação e docente da Uninove

Fonte: Jornal de Jundiaí | Data: 09/03/2018

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